A medicina não está avançando apenas nas descobertas relacionadas à pandemia de Covid-19. No início deste mês, foi anunciado um importante avanço e que traz esperança para aquelas pessoas que lutam contra a obesidade. Pesquisadores da farmacêutica americana Regeneron encontraram mutações no gene GPR75, que resistem ao ganho de peso excessivo.

Em entrevista ao vivo no Instagram da Banda B, o cirurgião bariátrico e pesquisador da obesidade Dr. Rodrigo Strobel, afirmou na manhã desta sexta-feira (16), que esse estudo é mais um que ajuda a explicar o que pode causar a obesidade. Segundo ele, 70% dos casos de obesidade severa no mundo vem de questões genéticas. No caso, o metabolismo do paciente é o que vai determinar quando o peso do indivíduo será estabilizado.

Avanço da medicina possibilitará criação de medicamento contra obesidade. Foto: Agência Brasil

A descoberta da farmacêutica foi publicada na Revista Science no início do mês e traz esperança para quem luta contra a obesidade, que é uma doença recheada de preconceitos. No Brasil, um em cada quatro adultos estava obeso em 2019, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ao todo, 60,3% da população adulta enfrenta à doença, o que totaliza cerca de 96 milhões de pessoas.

Para o Dr Rodrigo, o aumento de percentual de pessoas obesas no Brasil também está ligado as mudanças no estilo de vida da população nos últimos 30 anos, que passou a comer de formas não saudáveis. Dados recentes dos Estados Unidos mostram que pelo menos 10% da população americana tem obesidade severa.

“Quando a gente vê uma população de mais de 300 milhões de habitantes, praticamente 30 milhões de pessoas deveriam passar por uma cirurgia bariátrica”, diz

De acordo com o médico, a medicina de forma geral tem perdido a luta contra a obesidade, que está em uma crescente no mundo – padrão seguido pelo Brasil. “A obesidade só cresce, não vem regredindo”, destaca o especialista. Rodrigo afirma que pelo menos 7% da população brasileira é portadora de obesidade severa, ou seja, são 14 milhões de pessoas no Brasil que teriam indicação de passar por cirurgia bariátrica.

Na pandemia, Rodrigo também ressalta que muitas pessoas relaxaram com cuidados da saúde e o número de pacientes com indicação de cirurgia bariátrica aumentou. Pesquisa do Instituto Ipsos, feita com mais de 30 países, mostrou que o isolamento trouxe consequências à forma física de muitas pessoas. No Brasil, pelo menos 52% das pessoas ganhou peso na quarentena.

Nova fronteira na prevenção

Estudo pode ser essencial para criar novas formas de tratar obesidade. Foto: Agência Brasil

Para o médico, o estudo publicado na Science vai ajudar na criação de outros mecanismos de combate da obesidade. A primeira ideia é da criação de medicamentos que vão modular a genética dos pacientes, ou seja, o tratamento vai atuar na prevenção da doença em famílias que tem tendência a obesidade. O especialista ressalta que um remédio assim pode ajudar futuras gerações a não evoluírem para um grau mais alto de obesidade no futuro.

“Abre uma nova fronteira para o tratamento ou até prevenção da obesidade”, afirma

Rodrigo pontua que metabolismo e genética tem um papel importante para descobrir as causas da obesidade. A genética é a causa da obesidade grau 3 em 70% das vezes, em 20% dos casos, os motivos da doença estão ligados a alguma experiência que o paciente teve ao longo da vida. Seja uma gestação, um acidente em que o indivíduo tem uma lesão na perna e parou de se exercitar, entre outros. “Isso desencadeia um gatilho para a pessoa ganhar peso”, diz o médico.

O especialista acrescenta que em apenas 10% dos casos, a obesidade está ligada a sedentarismo e maus hábitos do dia a dia. Segundo ele, as estatísticas ajudam a identificar qual é o melhor tratamento, já que a simples mudança na qualidade de vida pode não resolver completamente o problema.

“Simplesmente dizer ‘fecha a boca e vai andar no parque’ não funciona mais, não é o caminho”, explica

Rodrigo destaca que a obesidade é uma doença estigmatizante já que – indiretamente – o paciente é sempre o culpado por ter a doença, afinal, ela é constantemente associada a maus hábitos. “Isso é um preconceito socialmente feito”, aponta. O médico acrescenta que o preconceito não é promovido apenas pela população, mas também na classe médica, que associa obesidade apenas ao comportamento do indivíduo obeso.

Tratamentos contra a obesidade

Ideia é bloquear gene da obesidade com medicamento, diz especialista. Foto: Agência Brasil

De acordo com o Dr. Rodrigo, os medicamentos para tratar obesidade estão evoluindo muito e são baseados em hormônios que se alteram com a cirurgia bariátrica. Um deles resulta na redução do hormônio GLP-1, que faz parte do trato intestinal. Com o procedimento cirúrgico, o hormônio aumenta de maneira expressiva e repercute na perda de peso.

A adoção de novos remédios vai agregar no combate a obesidade, que é uma doença multifatorial. Segundo o médico, ela está ligada a diversas condições, incluindo diabetes, câncer e doenças cardíacas. Por isso, há grande interesse em compreender como os genes predispõem ou protegem os indivíduos da doença.

“Na verdade com novos remédios a gente não está buscando apenas tratar a obesidade, estamos indo muito além disso”, diz

O especialista alerta que, no caso dos pacientes que fizeram cirurgia bariátrica, é essencial que os cuidados com a saúde permaneçam. Com isso, se a obesidade é causada por fatores genéticos, a necessidade de exercícios e de bons hábitos alimentares aumenta ainda mais. Além disso, também é preciso fazer acompanhamento com uma equipe médica multidisciplinar.

Quando um remédio fica pronto?

Estudos para um medicamento deve levar alguns anos. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Rodrigo ressalta que estudos para um medicamento contra a obesidade podem levar alguns anos. A indústria farmacêutica ainda está começando a estudar detalhes da origem da doença. Depois, o possível remédio passa por três fases de estudos práticos.

“Hoje em dia isso não demora muito tempo, a gente viu na pandemia em que a ciência conseguiu criar várias vacinas muito rápido”, afirma

O especialista estima que nos próximos 5 a 10 anos, alguns medicamentos eficientes para tratar a obesidade podem surgir. Segundo ele, no futuro, um paciente que vai nascer pode fazer teste genético para verificar se tem propensão a doença. Se a resposta for afirmativa, o indivíduo tem a alternativa de fazer tratamento preventivo contra a obesidade.

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