Há dois dias, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), já disse que a variante delta deve ser – em breve – a variante predominante do coronavírus no mundo. Infecções pela cepa indiana foram registradas em ao menos 104 países ao redor do mundo e o Brasil já tem 20 casos, sendo que 7 deles são no Paraná. A mutação do vírus causou três mortes do estado. Ela é considerada como mais agressiva e predominante do que as anteriores que começaram a surgir.
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De acordo com o professor do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular e presidente da Comissão de Enfrentamento e Prevenção ao Covid-19 da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Emanuel Maltempi de Souza, um vírus não é capaz de se reproduzir sozinho e existem cópias feitas do coronavírus que conseguem ter maior capacidade, persistência do que a original. Segundo ele, há milhares de variantes do Sars–CoV–2 e a maioria delas é prejudicial á saúde.
“Tem vantagens que podem ser boas para o vírus, mas deletérias (prejudiciais) para o hospedeiro (ser humano)”, diz
A OMS identifica quatro variantes do coronavírus como preocupantes ao redor do mundo. Todas elas são identificadas por nomes de letra ao alfabeto grego. Elas são: Alfa, Beta, Gama e Delta.
| Alfa | B.1.1.7 é a variante identificada pela primeira vez no Reino Unido |
| Beta | B.1.351 é a variante identificada pela primeira vez na África do Sul |
| Gama | P.1 é a variante identificada pela primeira vez no Brasil, em Manaus |
| Delta | B.1.671.2 é a variante identificada pela primeira vez na Índia |
A ideia de nomear de acordo com o alfabeto grego é evitar que haja preconceito e xenofobia entre países e impedir que nações sejam expostas negativamente. Segundo o professor Maltempi, a transmissibilidade maior das vacinas têm provocado questionamentos sobre a eficácia das vacinas com as novas cepas. Até o momento, os estudos indicam todos os imunizantes disponíveis no Brasil (Coronavac, AstraZeneca, Janssen e Coronavac) parecem funcionar bem contra novas variantes.
“A Delta é bem mais transmissível que a Alfa. Nós temos uma variante que se expande mais rapidamente e replica em menor espaço de tempo”, explica o especialista
Mais transmissível não quer dizer mais letal

Para Maltempi, o fato da variante Delta ser mais transmissível, não quer dizer que ela seja necessariamente mais letal. O professor destaca que um exemplo está no Reino Unido, que já vacinou boa parte de sua população com as duas doses da vacina. Com a nova mutação do vírus – predominante no país – o número de novos casos diários subiu de 2 a 2,5 mil para 30 mil. Contudo, número de mortes diárias não seguiu o mesmo crescimento.
“Em geral, as pessoas que morrem são as que não foram vacinadas”, afirma o professor
O especialista ainda acrescenta que a expansão da Delta faz aumentar ainda mais a importância de se crescer a cobertura vacinal. Afinal, se a variante continuar percorrendo pelo Brasil, há chances de que pessoas não vacinadas possam ser atingidas pela cepa indiana.
Segundo ele, a variante é preocupante já que transmite muito mais rápido e atinge a mais pessoas em menos tempo. “As pessoas argumentam que as chances de ter uma Covid-19 grave é muito pequena. Como o coronavírus não corre só em uma pessoa, mas em toda a minha comunidade, alguém vai morrer se a Covid espalhar por toda a minha comunidade”, diz.
Possível terceira dose

A ciência também está estudando alternativas para combater a variante Delta. No caso do imunizante da Pfizer, números mostram que, com o coronavírus original, a eficácia é de 94,95%. Quando a vacina é testada com a cepa indiana, esse número cai para 60%. Apesar disso, a redução nos internamentos com o imunizante da Pfizer permanece acima dos 90%. “A vacina continua eficaz contra a variante Delta”, diz o professor Maltempi.
“O que a gente precisa contabilizar é a relação custo benefício, se uma terceira dose vai aumentar a eficácia seria interessante que toda a população já estivesse vacinada”, acrescenta
No entanto, o especialista da UFPR afirma que essa solução pode ser plausível para países com um um esquema de vacinação mais maduro. No caso do Brasil, é importante primeiro vacinar toda a população, para depois pensar na possibilidade de terceira dose para os mais vulneráveis.
Para ele, a proposta mais plausível para a situação brasileira seria a de reduzir o espaço de tempo entre as doses do imunizante. “Uma eficácia de 30% (primeira dose), por exemplo, que é bem melhor do que nada. A eficácia sobe mais quando se pensa em internamentos e mortes”, destaca. Além disso, o especialista ressalta que é preciso vigiar constantemente o comportamento da variante Delta no Brasil.
Vacina da UFPR

De acordo com o professor Maltempi, que é um dos pesquisadores responsáveis pelo desenvolvimento da vacina da UFPR, a ideia do imunizante surgiu em abril do ano passado. A técnica consiste em produzir nanopartículas que imitam os antígenos do vírus, ativando o sistema imune contra a doença. O método escolhido proporciona baixo custo no produto final e pode ser replicado em vacinas para outras doenças.
Os resultados da fase pré-clínica já iniciada foram promissores e o imunizante mostrou uma grande quantidade de anticorpos em camundongos. Para elaborar a vacina, os pesquisadores produzirão nanoesferas de polímero, biocompatível e biodegradável, recobertas com partes específicas da proteína Spike, que permite que a Covid-19 infecte células humanas.
A tecnologia de produção é de baixo custo e os insumos são feitos no Brasil “Essa é a ideia, uma coisa que pode ser feita no Brasil e rapidamente. Em camundongos, a quantidade de anticorpos foi muito alta. Dependendo do padrão de comparação ela chegava a ser mil vezes maior do que em outros sistemas”, afirmou o professor Maltempi.
Segundo o especialista, a vacina tem a capacidade de levar a proteína do vírus até as células humanas de defesa.
Investimentos na vacina
Os primeiros resultados nos estudos pré-clínicos foram concretizados por meio de um recurso de R$ 18 mil do Ministério da Ciência e Tecnologia. O Governo do Estado já tinha destinado, em abril, R$ 700 mil para apoiar o desenvolvimento da vacina da UFPR. O recurso, da Unidade Gestora do Fundo Paraná (UGF), vinculada à Superintendência Geral de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), ajudou nos estudos pré-clínicos do imunizante, com o pagamento das bolsas e aquisição de insumos.
Recentemente, uma parceria com o Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) garantiu mais R$18 milhões para o retorno do desenvolvimento dos estudos pré-clínicos, que devem continuar. “A gente espera agora completar esses ensaios pré-clínicos. Queremos testar imunidade celular e ver se esses anticorpos são capazes de segurar o vírus, essas são as perguntas para responder”, conta o professor Emanuel Maltempi.
Como ajudar nos estudos?

Não são apenas órgãos estaduais que podem fazer doações, tanto pessoas quanto empresas podem ajudar. É possível doar qualquer valor, por depósito, PIX ou transferência bancária. Para isso, a UFPR começou uma campanha de financiamento. No site, além da atualização dos valores, haverá relatórios de acompanhamento dos recursos captados para o desenvolvimento da vacina, assim como, notícias dos avanços das pesquisas.
Previsão de entrega

De acordo com o professor Maltempi, apesar da UFPR estar um pouco fora do cronograma é possível correr atrás do prejuízo e chegar no fim de 2021 com todos os resultados pré-clínicos prontos. Nesse momento, há um edital de bolsistas para contratar pós-doutorandos para trabalhar no projeto. Segundo o pesquisador, isso vai ajudar a aumentar a velocidade do desenvolvimento da vacina.
Depois da parte pré-clínica, há a necessidade de solicitar autorização a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o início dos ensaios em humanos, ou seja, das fases clínicas. Neste momento, é possível que a Anvisa requisite uma série de documentos, mas o objetivo principal é fazer com que a vacina chegue em fase clínica em 2022.
Maltempi destaca que se a Covid-19 vai continuar se propagando pelo mundo nos próximos anos, é preciso revacinar sempre a população. “Para isso, precisamos de vacinas disponíveis, baratas e que podem ser feitas aqui”, diz.
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