Os três jovens que respondem por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver por participação na morte do jogador Daniel Corrêa Freitas foram interrogados, na manhã desta terça-feira (19), no Fórum de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. David Willian Vollero Silva, de 23 anos, Ygor King, de 24, e Eduardo Henrique Ribeiro da Silva, de 24, deram detalhes sobre o crime.

David Vollero foi o primeiro a falar em um interrogatório que durou cerca de uma hora. Ele é noivo de Allana Brittes, filha do réu confesso Edison Brittes Junior.

O rapaz contou que já namorava Allana na época e, depois da festa na casa noturna, foi para o carro com os Brittes e se dirigiram até a casa deles em São José dos Pinhais. Ele disse que “bebeu demais” e abordou Edison dizendo que estava cansado e que iria dormir.

Em determinado momento, Ygor chegou pedindo por ajuda. Vollero confessou que, quando viu a cena, realmente ajudou a espancar Daniel.

“Foi tudo muito rápido. Ygor dizia: ‘Ajuda, ajuda, o Edison’. Eu só segui ele, que ficou até atrás de mim. Quando cheguei na janela, me deparei com a situação do Edison pegando o Daniel pelo pescoço. Ele disse: ‘Esse cara estava na minha cama, em cima da minha mulher’. Aí eu fui tomado pelo embalo e comecei com as agressões. Entrou o Ygor e também começou o agredir. Alguém arrebentou a porta. Ninguém arrastou ele para fora, ele tentou sair correndo e a gente foi atrás. No que ele saiu, ele bateu com o rosto e caiu. Foi um tumulto no quarto, tinha muitos rapazes. Todo mundo queria agredir ele”, descreveu.

Vollero se recorda que Daniel estava com seus tênis e a calça dobrada ao lado da cama. Ele só usava cueca e camiseta. Disse que houve um tumulto, que todo mundo quis disputar a agressão e acabaram tirando a camiseta e a cueca do jogador, que ficou pelado no chão.

O noivo de Allana contou que Daniel sangrava bastante quando foi colocado no porta-malas do carro e que imaginou que Edison largaria o jogador pelado na rua para passar vergonha.

Segundo Vollero, no meio do caminho, Edison pegou o celular e viu algo que o deixou mais agressivo. Todos começaram a entender que talvez aconteceria algo pior do que só as agressões.

O jovem disse que até pensou em chamar a polícia, mas, por estar envolvido na situação, não sabia o que fazer. Acrescentou ainda que, naquele momento, sentiu medo do Edison: “Se eu tivesse visto ele com uma faca na mão, eu nunca teria entrado naquele veículo”.

Entrando no carro (após matar Daniel), Edison disse aos rapazes que tinha feito aquilo pela família dele.

“Infelizmente, eu estava no lugar errado e com as pessoas erradas. Desde aquele dia, eu sofro com depressão, ansiedade. É um trauma que eu carrego comigo, várias portas se fecharam para mim, vivo dia após dia com essa situação. Isso acabou com a minha imagem, com a imagem da minha família. Meu pai e minha mãe sempre foram pessoas dignas. Isso acabou também com a minha vida. Eu me arrependo muito. Sonho constantemente que tenho uma oportunidade de agir diferente nessa situação, mas, por ser menino, eu não consegui ter essa iniciativa que eu tenho hoje. Sofro muito com isso”, declarou.

‘Vi ele arrastando o corpo’

O segundo a ser interrogado foi Ygor King, que falou por cerca de 38 minutos. Ele é amigo de David Vollero e teria ido até a festa a convite dele.

Ele lembrou que a primeira vez que viu o Daniel foi na balada, quando ele ficou com a Evellyn. O jovem diz não ter dado muita importância e ambos não chegaram a trocar muitas palavras.

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Ygor King na chegada do Fórum de São José dos Pinhais (Foto: Ernani Ogata – Colaboração Banda B)

De acordo com Ygor, ele foi o primeiro a chegar ao quarto, pela janela, e viu Cristiana Brittes saindo com cara de desespero. O Edison já estava segurando Daniel pelo pescoço e mandou que ele chamasse por David.

“O Edison disse que ele estava tentando estuprar a Cris, que ele estava em cima dela. Ele [Daniel] estava só de cueca e camiseta. Para mim, na hora, fazia todo sentido porque não tinha como ele estar inventando. Acabamos tomados pelo momento e eu comecei a agredir ele também”, afirmou.

Ele confirmou que Daniel saiu correndo, meio cambaleando, e foi para fora, onde foi derrubado pelo Edison. Ygor disse ainda que pediu para que o empresário abrisse o portão da casa e deixasse o jogador sair pelado para passar vergonha, mas que isso não ocorreu.

Pouco depois, Daniel foi colocado dentro do porta-malas do carro. Ygor relatou que David entrou no carro e ele embarcou junto porque era o amigo dele.

O rapaz contou que saíram sem rumo, mas lembra que, quando o carro parou, ouviu o barulho de algo caindo, que provavelmente era o Daniel sendo retirado do porta-malas.

“Fiquei com bastante medo, não sabia o que ia acontecer. Quando ele [Edison] saiu do carro, não quis nem olhar. Por isso, não posso relatar com clareza, mas ouvi o barulho, olhei para trás e vi ele arrastando o corpo para dentro da mata”, descreveu.

Ygor afirmou que estava em choque e que não pensou em chamar a polícia. Confessou que ele realmente agrediu Daniel na casa, mas que não imaginava que aquilo (assassinato) iria acontecer.

“Quando estávamos indo embora, ele falou muito pouco. A única coisa que eu lembro dele falar foi: ‘Eu fiz pela minha família’. A gente fez uma parada e eu vi que ele jogou a faca”, relembrou.

Assim como David, Ygor garantiu que tentou se apresentar, mas que não deu certo de primeira.

“Queria dizer que a minha única participação foi ter agredido [o Daniel]. Não estou fugindo da responsabilidade, de que sou inocente, mas eu não matei, não ajudei Edison a matar, não estou fugindo. Não estou falando para me absolverem por ter batido, mas quero que me julguem pelo que eu fiz. Peço que tenham um pouco de compreensão pelo que eu falei e levem em consideração não o que saiu na mídia, mas que acreditem no que eu falei e que me deem a oportunidade da dúvida, pelo menos”, suplicou.

‘Eu imaginei que ele estava sendo degolado’

Eduardo Henrique Ribeiro da Silva foi o último dos três a falar. Dos sete réus, ele e Edison Brittes permanecem presos. Eduardo chegou a ser solto em 2019, mas foi detido em 2020 pelo crime de roubo em Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná.

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Eduardo Henrique Ribeiro da Silva na chegada do Fórum de São José dos Pinhais (Foto: Ernani Ogata – Colaboração Banda B)

O rapaz contou que veio a Curitiba exclusivamente para participar da festa de aniversário da prima, a Allana. Segundo ele, a festa correu bem e voltaram para a casa porque ele e a namorada estavam hospedados lá. “Eu vim [de Foz do Iguaçu para São José dos Pinhais] para uma festa e o que aconteceu eu não tive culpa… Aconteceu”.

Eduardo detalhou que estava dormindo quando Cristiana apareceu chorando, dizendo que tinha um rapaz no quarto dela, que Edison estava batendo nele no cômodo e que era para Eduardo ir separar.

“Desci a escada e fui até a porta, que estava trancada. Não sei quem me falou que era para ir pela janela. Entrei pela janela, perguntei o que estava acontecendo e ele falou: ‘Esse maldito estava tentando estuprar a Cris’. Foi nesse momento que eu me perdi, fiquei cego e comecei a agredir o Daniel”, destacou.

Eduardo reforçou que a ideia era só humilhar Daniel: “A minha intenção era só agredir, bater nele.”

Depois disso, Edison pegou o carro e colocou Daniel no porta-malas. Eduardo sentou atrás de David, que estava na frente ao lado de Edison, enquanto Ygor também se sentou no banco traseiro, atrás de Edison. Quando parou o veículo, Edison desceu e pegou o jogador.

“Ele falou: ‘Fiquem no carro’. Então, nós ficamos no carro. Mas, quando cessaram os gritos, eu imaginei que ele estava sendo degolado. Depois disso, nós saímos do carro e eu vi que ele puxou o corpo. O Daniel estava cheio de sangue. Eu vi muito sangue! Os meninos saíram do carro… O David passou mal. Quando olhei para o lado, o [Edison] Brittes já estava voltando e voltamos para a casa do Brittes”, descreveu.

Agora na casa, ele disse que não quis conversar com ninguém, apenas com Thays: “Nem para ela eu consegui explicar o que tinha acontecido. Só disse que não era para acontecer aquilo, que Daniel não era para ter morrido, mas que o Brittes acabou matando ele”.

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