As quarentenas adotadas no mundo todo para conter o avanço do novo coronavírus têm feito o índice de poluição do ar cair, principalmente nas grandes cidades que costumam exibir um céu cinzento.

Uma relatório publicado nesta quinta-feira (30) pelo Centre for Research on Energy and Clean Air (centro para pesquisa em energia e ar limpo), um instituto independente de pesquisa, diz que, nos últimos 30 dias, houve na Europa uma redução de 40% nos níveis de dióxido de nitrogênio, um dos principais poluentes do ar.

O relatório diz também que a diminuição de material particulado, pedaços muito finos de sólidos ou líquidos presentes na atmosfera que podem ser inalados, foi de cerca de 10%.

Foto: EBC

A redução no volume de poluentes teria evitado aproximadamente 11 mil mortes em decorrência da má qualidade do ar no continente, segundo o documento. Essa queda teria sido causada em grande parte pela redução no tráfego de veículos movidos por combustíveis fósseis, como gasolina.

Estudos recentes com pacientes de Covid-19, porém, apontam que a queda na poluição pode ter chegado tarde para muitos dos infectados. A exposição ao ar sujo por longos períodos de tempo pode causar ou agravar doenças respiratórias que tornam as pessoas mais vulneráveis ao novo coronavírus.

Em um artigo publicado no início de abril na revista científica Environmental Pollution, cientistas analisaram dados de qualidade do ar e letalidade da Covid-19 no norte da Itália, uma das regiões mais atingidas pelo vírus no país europeu -e uma das áreas mais poluídas do continente.

Os autores concluíram que o alto nível de poluição ali deveria também ser considerado um fator para a letalidade elevada da Covid-19 na região.

“Entre os mais velhos vivendo na região, afetados por outras comorbidades, as defesas do trato respiratório superior podem ter sido enfraquecidas tanto pela idade quanto pela exposição crônica à poluição do ar. Isso pode facilitar a invasão do vírus, atingido o trato respiratório inferior”, afirmam os pesquisadores.

Um outro estudo publicado por pesquisadores da Universidade Harvard no dia 24 de abril cruzou dados de qualidade de ar e mortes causadas pela Covid-19 em mais de 3.000 condados dos Estados Unidos. Os condados são subdivisões administrativas dos estados americanos.

Segundo os pesquisadores, um acréscimo pequeno de material particulado no ar, de cerca de 1 micrômetro por metro cúbico, levou a um aumento de mortalidade por Covid-19 de 8%.

“Os resultados sugerem que viver por um longo período de tempo em áreas com má qualidade do ar aumenta a vulnerabilidade às consequências mais severas da Covid-19”, escrevem os cientistas no artigo.

Os dados foram publicados em um artigo pré-print, ou seja, sem a revisão de outros cientistas. Os resultados estão de acordo com um levantamento parecido feito por pesquisadores da Universidade de Cambridge com informações de 120 áreas da Inglaterra, publicado também em um pré-print na terça-feira (28).

Segundo o pneumologista José Rodrigues Pereira, da Beneficência Portuguesa de São Paulo, a poluição ambiental traz processos inflamatórios para as vias aéreas. “Funciona como um tabagismo passivo”, diz.

A inflamação causada pelo ar sujo afeta os brônquios e aumenta a tendência de aparecer uma infecção por bactérias ou vírus como o que causa a Covid-19, explica o médico. A preocupação é maior no período que vai do final de abril ao início de setembro no sudeste, quando a umidade do ar diminui e a poluição fica por mais tempo no ar.

“Cada vez mais recebo pacientes não fumantes no consultório, que vêm por motivos variados, mas ao fazer a tomografia encontramos enfisema, e o único fator de risco foi a pessoa ter passado a vida toda em São Paulo”, afirma.

Pereira lembra que os resultados dos estudos que relacionam poluição do ar e Covid-19 devem ser lidos com cautela. Áreas com menor qualidade no ar são, geralmente, centros econômicos e industriais mais densamente ocupados. Nessas regiões, a transmissão do vírus acontece mais facilmente devido à proximidade com que as pessoas vivem umas das outras.