O número de adolescentes que procuram atendimento psicológico já convencidos de que têm transtornos como TDAH, transtorno bipolar ou personalidade borderline tem aumentado nos consultórios. Segundo especialistas, o fenômeno está ligado principalmente ao consumo de conteúdos em redes sociais e ao uso de ferramentas de inteligência artificial para interpretar sintomas emocionais.

De acordo com a psicóloga Maria Klien, o movimento exige atenção porque pode simplificar experiências complexas do desenvolvimento emocional.
“O jovem chega com uma conclusão pronta, construída a partir de fragmentos de informação. Ele não apresenta apenas sofrimento, mas uma identidade organizada em torno de um rótulo. Isso muda o ponto de partida do trabalho clínico”
explica a psicóloga.
A profissional destaca que a adolescência é marcada por oscilações de humor, conflitos de pertencimento e busca por reconhecimento — características que, isoladamente, não significam necessariamente um transtorno mental. Quando essas vivências são traduzidas rapidamente em diagnósticos psiquiátricos, há risco de interpretações equivocadas.
Internet informa, mas não diagnostica
O acesso fácil a conteúdos sobre saúde mental não é visto como problema em si. O desafio, segundo especialistas, é a forma como as informações são consumidas. Plataformas digitais costumam apresentar listas rápidas de sintomas ou vídeos curtos que associam comportamentos comuns a transtornos específicos, sem contexto clínico.
“A internet oferece dados, mas não realiza escuta. A inteligência artificial produz respostas baseadas em padrões, porém não substitui avaliação clínica. O encontro terapêutico considera história familiar, contexto social, trajetória escolar e vínculos. Sem isso, qualquer conclusão é parcial”
afirma Klien.
Outro fator observado é o impacto nas famílias. Muitos pais chegam às consultas já convencidos de que o filho tem determinado transtorno após ver relatos online, o que pode aumentar a ansiedade e dificultar a compreensão do que realmente está acontecendo.
Diagnóstico não é rótulo
Especialistas reforçam que o diagnóstico em saúde mental é uma ferramenta clínica, usada para orientar tratamento, e não uma identidade pessoal. Quando assumido sem avaliação profissional, pode limitar a forma como o adolescente compreende a própria experiência.
“A adolescência é uma etapa de transição. Oscilações emocionais podem fazer parte do amadurecimento. O cuidado em saúde mental exige tempo, investigação e responsabilidade”, conclui a psicóloga.