Sentir dor é algo comum — seja após um esforço físico, uma lesão ou até em doenças crônicas. Mas o que muita gente não sabe é que nem toda dor precisa ser tratada com analgésicos, e o uso indiscriminado desses medicamentos pode trazer riscos à saúde. Especialistas alertam que o tratamento correto depende de avaliação médica e da causa do problema.

pessoa segurando cartelas de medicamentos
Especialistas alertam que o uso indiscriminado de analgésicos pode trazer riscos à saúde e que o tratamento da dor deve ser individualizado. Foto ilustrativa: Freepik.

De acordo com o neurocirurgião Marcelo Valadares, pesquisador da Unicamp e especialista em tratamento da dor, o manejo adequado vai além de simplesmente tomar um comprimido.

“O uso de medicamentos deve ser entendido como parte complementar ou temporária de uma estratégia mais ampla e individualizada, que pode incluir reabilitação física, exercícios e até acompanhamento psicológico”

explica.

Entenda os tipos de dor

A medicina classifica a dor em diferentes tipos, e essa distinção é essencial para definir o tratamento correto:

  • Dor nociceptiva: causada por inflamações ou lesões, como pancadas, torções ou problemas articulares.
  • Dor neuropática: relacionada a lesões ou doenças do sistema nervoso, como hérnia de disco ou neuropatia diabética.
  • Dor nociplástica: quando há alteração no processamento da dor pelo cérebro, comum em quadros crônicos como fibromialgia.

Segundo especialistas, identificar o tipo de dor ajuda a escolher o medicamento mais adequado — ou até mesmo evitar remédios quando não são necessários.

Para cada dor, um tratamento diferente

Entre os analgésicos mais comuns estão paracetamol e dipirona, indicados para dores leves a moderadas. Já os anti-inflamatórios costumam ser usados quando há inflamação, como em dores musculares ou odontológicas.

Em casos específicos, como dores neuropáticas ou crônicas, podem ser indicados medicamentos originalmente usados para depressão ou convulsões, que também atuam no sistema nervoso para reduzir a dor.

Já os opioides — como codeína, tramadol e morfina — são reservados para situações mais graves, como dor intensa, câncer ou quando outros tratamentos não funcionaram. O uso exige acompanhamento rigoroso devido ao risco de dependência e efeitos colaterais.

Dados do Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas mostram que o consumo de opioides no Brasil aumentou cerca de oito vezes entre 2012 e 2023, o que acende um alerta para o uso responsável.

Automedicação pode piorar o problema

Outro ponto de preocupação é a facilidade de acesso a analgésicos sem receita médica. Segundo especialistas, a automedicação pode mascarar doenças, provocar efeitos adversos e até levar à dependência em alguns casos.

Entre os sinais de uso inadequado estão:

  • necessidade frequente de aumentar a dose;
  • pedidos antecipados de receitas;
  • uso junto com álcool;
  • pouca melhora na qualidade de vida mesmo com o medicamento.

“O tratamento da dor exige responsabilidade. O uso racional de analgésicos protege o paciente tanto da dor mal controlada quanto dos riscos associados ao uso indevido”, reforça o médico.

Objetivo não é só tirar a dor

Além de eliminar completamente o sintoma, o foco do tratamento é melhorar a qualidade de vida do paciente — incluindo sono, mobilidade, humor e capacidade para trabalhar e realizar atividades do dia a dia.

Quando bem orientado, o tratamento tende a trazer melhora progressiva e reduzir o impacto da dor ao longo do tempo.