As aulas sobre democracia exibidas aos réus que firmaram acordo com a PGR (Procuradoria-Geral da República) para se livrar de processos criminais do 8 de janeiro ensinam o que é um golpe de Estado e falam sobre o desenvolvimento da democracia pelo mundo.

O curso “Democracia, Estado de Direito e Golpe de Estado” tem duração total de 12 horas e é dividido em quatro módulos, com estética similar à de outros cursos de direito exibidos em vídeo. Advogados de alguns dos réus relatam que os clientes consideram o conteúdo entediante.

O curso é uma das obrigações aplicadas às pessoas que firmaram acordos de não persecução penal em processos do 8 de janeiro. As aulas também são uma medida alternativa para aqueles réus que recusaram o acordo e foram condenados a penas baixas, de um ano de reclusão.

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Grupo de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) invade e depreda as sedes dos três Poderes, em 8 de janeiro de 2023 – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Estão nesses dois grupos os acusados pela chamada incitação aos atos golpistas de 2023, sobretudo as pessoas que estavam nos acampamentos em frente ao Quartel-General do Exército em Brasília.

Para assistir aos vídeos, os réus vão presencialmente a salas que estão em locais como varas de execução penal, onde o material é exibido em computadores. Não é necessário responder a perguntas sobre o conteúdo dos vídeos, nem há interação com os procuradores responsáveis pelas aulas.

Ao assistir a essas aulas, é proibido usar equipamentos eletrônicos, como celulares, ou gravar as imagens.

Os vídeos também não foram divulgados pela PGR. A reportagem teve acesso a trechos das gravações. Questionada a respeito da elaboração do curso e de seus modelos didáticos, a Procuradoria-Geral da República não se manifestou.

Nas aulas, o procurador André Luiz Batista Neves fala sobre assuntos como democracia e direitos humanos e menciona itens da legislação a respeito dos temas. Outro procurador, Manoel Jorge e Silva Neto, também apresenta parte das disciplinas.

O primeiro módulo trata de democracia. Os dois seguintes falam sobre Estado de Direito, e o quarto, sobre golpe de Estado.

De acordo com relatos ouvidos pela reportagem, é ensinado historicamente como se formou o processo democrático e como ele se desenvolveu em outros países.

Grupo de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) invade e depreda as sedes dos três Poderes, em 8 de janeiro de 2023 – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

No fim do curso, é apresentado aos réus o que configura um golpe de Estado. Segundo uma das pessoas que assistiram às aulas, o conteúdo tratado também poderia ser facilmente encontrado em buscas na internet.

Além das aulas, os réus que firmaram acordos no 8 de janeiro têm, normalmente, que pagar uma multa que vai de R$ 5.000 a R$ 50 mil e prestar serviços comunitários. Estão ainda proibidos de participar de redes sociais abertas até o fim da execução do acordo.

A Folha procurou advogados de acusados que firmaram esse tipo de acordo. Eles conversaram com a reportagem reservadamente e de forma aberta. Esses profissionais não acompanham os clientes durante a exibição das aulas e relatam que nem sempre consideram o curso eficaz.

“As aulas são televisionadas, e a única coisa que as pessoas reclamaram é que dá muito sono, porque é uma aula muito calma, muito pacata”, diz o advogado Luiz Eduardo Righetto, que defende réus de Santa Catarina.

“Eles falam de tema variados, como Constituição, política e democracia, e, obviamente, alfinetando as pessoas sobre o que poderiam ou não poderiam ter feito no 8 de janeiro.”

Outro advogado tem uma visão mais crítica sobre o curso e disse que os vídeos não mudam as convicções dos acusados. “Guardadas as proporções, é o mesmo que obrigar um cidadão de bem a frequentar um campo de concentração e achar isso bom”, disse Grimoaldo Roberto de Resende, que atua em Brasília. “Penso eu que é uma coisa absolutamente inócua, desproporcional e inadmissível.”

Ao divulgar que o curso seria uma das obrigações dos réus que optassem por um acordo, em 2023, o então coordenador do grupo de combate aos atos antidemocráticos da PGR, o subprocurador Carlos Frederico Santos, disse que se inspirou em uma sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos que impôs ao Brasil a implementação de um programa de direitos humanos permanente nas Forças Armadas.

O caso em que o Brasil foi sentenciado tratava da guerrilha do Araguaia, durante a ditadura militar.
Segundo ele, o objetivo do curso era “garantir o aspecto pedagógico da medida, além de contribuir para o processo de consolidação do Estado democrático de Direito”.

No caso do 8 de janeiro, como condição para fechar os acordos, todos os réus tiveram que confessar a prática dos crimes de incitação e associação criminosa, previstos no Código Penal.

Até o momento, segundo cálculos do STF (Supremo Tribunal Federal) apresentados durante o julgamento que tornou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) réu sob acusação de integrar uma trama golpista em 2022, ao menos 542 acordos de não persecução penal foram firmados nas ações do 8 de janeiro. Eles foram validados pelo ministro Alexandre de Moraes.

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