A dor de cabeça faz parte da rotina de 34 milhões de brasileiros, de acordo com a Associação Nacional da Medicina do Trabalho. Apesar de ser comum, a dor não deve ser ignorada e pode ser sinal de casos mais graves e emergência.

A enxaqueca, uma dor de cabeça mais intensa, está entre as oito condições crônicas que mais afetam a população mundial. Dados do Global Burden of Disease Study (2019) mostram que ela atinge principalmente mulheres entre 15 e 49 anos e, nesse grupo, é a principal causa de incapacidade.
O impacto também chega no bolso, Um estudo feito pelo instituto de pesquisa alemão WifOR, feito em parceria com a Federação Latino-Americana da Indústria Farmacêutica (Fifarma), analisou a carga socioeconômica (SoC) de sete doenças crônicas, incluindo a enxaqueca. No Brasil, essa carga representou 4,1% do PIB em 2022, ou mais de R$ 300 bilhões.
Dor de cabeça é comum, mas não é normal
De acordo com o neurologista Felipe Cardoso Garcia, dos hospitais Universitário Cajuru e São Marcelino Champagnat, é preciso diferenciar frequência de normalidade.
“A dor de cabeça é um dos sintomas mais prevalentes da humanidade, cerca de 50% das pessoas no mundo têm algum tipo de cefaleia ativa. Nesse sentido, é comum. Mas ser normal depende muito do contexto”.
Segundo ele, doenças como enxaqueca, cefaleia tensional e cefaleia em salvas têm causas neurológicas bem definidas.
“Não são ‘frescura’ ou ‘estresse passageiro’. São doenças, e não precisam ser toleradas ou ignoradas”.
Outra pesquisa, apresentada no Simpósio Internacional de Enxaqueca, aponta que 51% das pessoas escondem a doença. Entre elas, 62% não contam no trabalho, 37% não falam com amigos e 27% não compartilham nem com o parceiro. O especialista também chama atenção para o comportamento dos pacientes.
“O grande que percebo é a naturalização do sofrimento. O paciente chega após anos convivendo com crises incapacitantes, achando que ‘todo mundo tem isso’. Quando descobrem que existe diagnóstico, tratamento e qualidade de vida possível, tudo muda.”
De acordo com o especialista, atualmente existem diferentes formas do tratamento desta dor.
“Hoje temos recursos terapêuticos extraordinários, desde medicamentos preventivos simples até procedimentos como o Botox, por exemplo. O que não se pode fazer é ignorar”.
Como identificar a enxaqueca

A enxaqueca tem características próprias e pode ser diferenciada de outros tipos de dor de cabeça. Segundo o neurologista, cinco pontos ajudam no reconhecimento:
- Dor latejante ou pulsante, como se algo estivesse batendo dentro da cabeça
- Geralmente em um lado da cabeça
- Intensidade moderada a forte que interfere nas atividades da rotina
- Piora com atividades simples, como subir escadas
- Presença de sintomas como náusea, vômito e sensibilidade à luz e ao sol
“Além disso, cerca de 25% dos pacientes com enxaqueca apresentam a aura, que são sintomas neurológicos transitórios que precedem a dor, como alterações visuais, formigamentos ou dificuldade para falar. Se a dor de cabeça for leve, ao redor de toda a cabeça, com sensação de pressão ou aperto, sem náusea e sem piorar com movimento, provavelmente estamos diante de uma cefaleia tipo tensão, que é o tipo mais comum na população geral, mas significativamente menos incapacitante”,
– explica o neurologista.
Dor de cabeça pode ser sinal de algo sério
Embora mais de 90% das dores de cabeça sejam primárias, ou seja, a própria doença, há casos em que a dor pode ser sintoma de outra doença ou condição e, algumas dessas são emergências médicas.
Segundo o médico, um dos quadros mais preocupantes envolve hemorragia.
“Um dos casos mais urgentes é hemorragia subaracnóidea (sangramento ao redor do cérebro), que se apresenta com aquilo que chamamos de ‘cefaleia em trovoada’: a pior dor da vida do paciente, de início súbito e explosivo. É uma emergência. Outro cenário grave é a meningite, quando a dor de cabeça vem acompanhada de febre, rigidez de nuca e fotofobia intensa”.
Outros fatores preocupantes que podem estar associados à dor de cabeça são:
- Tumores cerebrais (com dor progressiva, geralmente pior pela manhã e acompanhada de outros sintomas neurológicos)
- Trombose venosa cerebral
- Hipertensão intracraniana
- Arterite de células gigantes em pacientes com mais de 50 anos
“A mensagem principal é: qualquer dor de cabeça que seja diferente do padrão habitual do paciente, que vem piorando com o passar das semanas, e que têm outros sintomas neurológicos associados (perda de força, sensibilidade ou de coordenação), merece avaliação cuidadosa”.
Quando buscar a emergência
De acordo com o especialista, existem alguns sinais que exigem avaliação médica imediata em um pronto-atendimento.
- Dor súbita que atinge intensidade máxima em menos de um minuto
- Dor que o paciente descreve como ‘a pior da minha vida’
- Febre, confusão mental ou rigidez de nuca
- Dor após trauma na cabeça
- Alterações neurológicas, como fraqueza, visão dupla ou dificuldade para falar
- Dor em pacientes com câncer ou imunidade comprometida
- Mudança no padrão da dor
- Crises frequentes que atrapalham trabalho, sono ou vida social
Outro ponto de atenção é o uso excessivo de medicamentos. O neurologista Felipe Cardoso Garcia, afirma que outros fatores, apesar de não serem emergências, exigem uma consulta médica.
“Se a pessoa está usando analgésicos por mais de 10 dias por mês para controlar a dor, ela pode estar desenvolvendo o que chamamos de cefaleia por uso excessivo de medicamento, um ciclo que precisa ser quebrado com orientação especializada. Caso a dor de cabeça mude mudando de padrão (ficando mais frequente, mais intensa ou diferente do habitual), também precisa ser investigada”.
Segundo o médico, qualquer dor de cabeça frequente em crianças e adolescentes precisam ser avaliadas por um especialista.
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