Vinte anos depois do crime que chocou o Paraná, a morte de Giovanna dos Reis Costa volta ao centro das atenções com a prisão de um novo suspeito, nesta quinta-feira (19), e reacende questionamentos sobre os rumos da investigação que levou à prisão de quatro ciganos posteriormente absolvidos pela Justiça.

Foto de Giovanna dos Reis Costa e do advogado Claudio Dalledone
Dalledone afirma que agora representará a família da vítima como assistente de acusação. (Foto: Reprodução/ Ric RECORD)

Em entrevista à Ric RECORD, o advogado Claudio Dalledone, que atuou na defesa dos ciganos, afirmou que o caso é “emblemático” e que a nova prisão evita que a Justiça paranaense carregue “uma vergonha histórica.

“É um crime brutal que ganhou repercussão nacional. Mas desde o início havia indícios veementes contra outro suspeito, que agora está preso”

afirmou Dalledone.

Críticas à investigação inicial

Dalledone foi duro ao criticar a atuação da delegada responsável pelo inquérito à época. Segundo ele, a linha de investigação que apontava um suposto ritual cigano foi precipitada e ignorou provas materiais que já indicavam outro caminho.

Entre os elementos citados pelo advogado estavam uma mancha de urina encontrada em um colchão na casa do suspeito, a calcinha da vítima impregnada de urina, o fio de luz semelhante ao utilizado para amarrar a menina e o tipo de saco plástico usado para ocultar o corpo.

“A delegada foi precipitada, teimosa e a ação dela na época foi uma ação criminosa. Não vou poupar, falei desde o início que o homem preso hoje era o autor do crime, bati nessas provas desde o começo. A delegada simplesmente desprezou todas as evidências porque ficava ‘bonito’ dizer que era um ritual de magia, um ritual satânico”

criticou.

O advogado sustenta que a tese do ritual teria surgido a partir de informações repassadas por um clã cigano rival e que isso direcionou a investigação para os quatro acusados, que ficaram presos por cerca de seis anos até serem absolvidos.

Durante o júri, em 2011, Dalledone afirma que desmontou a versão acusatória em plenário. Segundo ele, os próprios pais de Giovanna, ao perceberem a fragilidade das provas, reconheceram que os ciganos não eram os responsáveis.

“Ele nunca saiu do radar”, afirma Claudio Dalledone

O homem agora preso, segundo Dalledone, nunca saiu do radar do escritório. Em 2018, quando ele foi detido por instalar uma câmera escondida no banheiro feminino da pastelaria onde trabalhava, uma das vítimas comentou: “Agora você vai pagar pelos seus crimes”.

O advogado decidiu aprofundar as apurações. Entrou em contato com a jovem, que relatou ter sido abusada dos 9 aos 12 anos e disse que o suspeito a ameaçava afirmando que havia matado Giovanna por asfixia, e que faria o mesmo se ela revelasse os abusos.

Segundo ele, a proximidade da prescrição do crime — que ocorreria em poucas semanas — acelerou a força-tarefa que culminou na prisão preventiva.

Foto de Giovanna dos Reis Costa
Próprios pais de Giovanna reconheceram que os ciganos não eram os responsáveis. (Foto: Reprodução)

De defensor a assistente de acusação

Após duas décadas atuando na defesa dos ciganos, Dalledone afirma que agora representará a família da vítima como assistente de acusação. Ele também deve atuar como testemunha no processo.

“Eu não vou largar esse caso. Vou condenar esse sujeito, ele não vai mais matar e não vai mais estuprar ninguém. Absolvi quatro inocentes e agora sou o advogado da família da vítima, conseguindo ainda colocar esse monstro na cadeia”

complementou.

O advogado também informou que pretende pedir revisão de decisões judiciais anteriores e buscar indenização aos que foram presos injustamente. “Eles foram brutalmente espancados e violentados na prisão. Isso não pode ser tratado como ‘parte do jogo’”, disse.

Caso marcou a cidade

Giovana desapareceu no dia 10 de abril de 2006, enquanto vendia rifa de Páscoa. O corpo foi encontrado amarrado com fios elétricos, dentro de um saco plástico, em um terreno baldio. O crime chocou moradores e teve grande repercussão.