A prisão preventiva de um homem de 55 anos, nesta quinta-feira (19), marcou uma reviravolta nas investigações sobre a morte de Giovanna dos Reis Costa, assassinada em 2006, em Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). O caso, que já havia resultado na prisão e posterior absolvição de quatro pessoas, foi reaberto pela Polícia Civil do Paraná (PCPR) após o surgimento de novos depoimentos considerados decisivos para o avanço das apurações.

Foto da Giovanna dos Reis Costa
Suspeito preso pela morte de Giovana possuí antecedentes por violência sexual e importunação sexual. (Foto: Reprodução)

Em coletiva de imprensa, a delegada Camila Cecconello detalhou como duas mulheres foram fundamentais para a reviravolta. Uma delas foi enteada do suspeito e relatou ter sofrido abusos sexuais entre os 9 e os 12 anos. Segundo a delegada, ela era ameaçada constantemente.

“Ele dizia à enteada que já tinha feito muito mal para uma ‘Giovana’ e que, se ela contasse algo, seria a próxima”

disse Cecconello.

A jovem só entendeu o significado da ameaça anos depois. Em 2018, ao ver a notícia da prisão do homem por instalar câmeras ocultas no banheiro feminino da lanchonete onde era dono, decidiu denunciar os abusos.

Ao procurar um advogado, descobriu que o nome citado por ele fazia referência à menina morta em 2006. A mãe da vítima também procurou a polícia. Conforme a delegada, ao pressionar o companheiro após desconfiar dos abusos contra a filha, ouviu dele uma confissão.

“Ele disse que não era testemunha no caso de Quatro Barras, mas sim o autor. E que ninguém conseguiria prendê-lo, então não adiantaria elas denunciarem sobre o abuso porque não iriam acreditar”

relatou a delegada.

Provas antigas reforçadas por novos elementos

Com os novos depoimentos, o inquérito foi desarquivado. A Polícia Civil revisitou provas colhidas na época e identificou elementos que, agora, ganham novo peso dentro do conjunto probatório.

Em 2006, o suspeito ja figurava como um dos principais investigados. Policiais estiveram na casa dele no dia do desaparecimento de Giovanna e encontraram um colchão com uma mancha, possivelmente de urina. A perícia foi acionada, mas, quando retornou, o colchão havia sido destruído e a residência lavada com produtos químicos.

“Os policiais relatam que eles viram um colchão com uma mancha, provavelmente de urina, e que o colchão estava com essa mancha de urina perto da cabeceira. Quem atendeu foi a companheira dele à época, que estava sozinha na casa. A equipe informou que iria retornar com a perícia, porém, ao retornarem, a mulher já tinha dado fim ao colchão e lavado a casa com produtos químicos”

informou Cecconello.

Conforme a delegada, na casa do suspeito também foi apreendido um fio de luz semelhante ao utilizado para amarrar o corpo da menina — mesma marca, bitola e dimensões, conforme apontou a perícia.

Outro ponto considerado relevante, segundo a delegada, envolve uma sacola de supermercado encontrada com as roupas da vítima. O mercado ficava a cerca de sete quilômetros do local do crime. Durante as novas diligências, os policiais descobriram que o ex-marido da companheira do suspeito frequentava o estabelecimento e levava roupas do filho para a casa dele em sacolas do mercado – o que ajuda a explicar a presença do material próximo ao terreno onde o corpo foi abandonado.

Uma ex-companheira também relatou à polícia que ouviu do próprio homem detalhes do crime que coincidem com os laudos periciais.

“O homem teria atraído Giovanna para dentro de casa sob o pretexto de pegar dinheiro para comprar rifas. Ele teria sufocado a menina e cometido violência sexual. Ao perceber o que tinha feito e que poderia ser reconhecido, decidiu matá-la, ocultar o corpo em uma área e deixar as roupas dela em outra região para incriminar terceiros. Esse é o relato que a mulher ouviu dele e que bate com o que a perícia na época constatou”

contou a delegada.

Homem preso já tem histórico de abusos e permaneceu em silêncio

O investigado já possuía antecedentes por violência sexual e importunação sexual. Há relatos de outras ex-companheiras de que filhos e filhas delas também teriam sido vítimas, embora nem todos tenham formalizado denúncia.

Preso preventivamente nesta quinta-feira, ele optou por permanecer em silêncio e afirmou que só irá se manifestar em juízo. De acordo com a delegada, na residência dele foram apreendidos objetos de cunho sexual.

Ainda segundo a delegada, não há indícios de motivação ritualística. A linha de investigação aponta que o crime foi cometido para evitar que a menina o reconhecesse. O inquérito deve ser concluído nos próximos dez dias e encaminhado ao Ministério Público, que poderá oferecer denúncia para que o caso seja levado ao Tribunal do Júri.

“Ele já tem um histórico de abuso de várias mulheres, mas a morte teria sido causada porque ele percebeu que seria reconhecido. O suspeito usava a manipulação, o medo e o terror. Como a menina Giovana não era do convívio dele, acho que ele não conseguiu fazer essa manipulação e acabou matando”

complementou a delegada Camila Cecconello.

Caso marcou a cidade

Giovana desapareceu no dia 10 de abril de 2006, enquanto vendia rifa de Páscoa. O corpo foi encontrado amarrado com fios elétricos, dentro de um saco plástico, em um terreno baldio. O crime chocou moradores e teve grande repercussão.

Na época, quatro ciganos chegaram a ser presos e permaneceram seis anos detidos, mas foram absolvidos no julgamento.