A vida é impermanente, tornando bastante variável a capacidade de adaptação às circunstâncias. O suicídio, como qualquer fenômeno humano, implica um entendimento biológico e psicossocial. É necessário perceber que o ato é, sobretudo, o meio encontrado para dar fim à dor.

“Muitas vezes, o objetivo principal é parar o sofrimento e não exatamente pôr fim à vida. Quando ajudadas a tempo, as pessoas podem entender que há outras saídas e formas de lidar com seu sofrimento”, explica Flávia Teixeira, psicóloga, mestre em Saúde Coletiva pela UFRJ, professora de pós-graduação em Psicologia Hospitalar na UFRJ e pós-graduada em Psicossomática Contemporânea.

 

Flávia Teixeira, psicóloga, mestre em Saúde Coletiva pela UFRJ – Divulgação

Sobre quem fica

A AFSP (American Foundation for Suicide Prevention), nos Estados Unidos, denomina de suicide survivors (sobreviventes do suicídio) os parentes e amigos que sofrem a perda. Segundo a psicóloga, esses indivíduos precisam de atenção, acolhimento e cuidados, pois o impacto da perda por suicídio pode suscitar os mais diversos sentimentos e reações, entre eles, uma grande sensação de culpa.

“Quem perde alguém para o suicídio desenvolve vários sintomas de adoecimento físico e psicológico, como insônia, falta de apetite, tristeza profunda, falta de energia, depressão, entre outros. Sentimentos de abandono e traição são naturais nesses casos. Há quem sinta dificuldades em aceitar que não percebeu os sinais, que pode ter sido negligente e que não fez nada para evitar. Em suma, o suicídio deixa marcas e um misto de sentimentos confusos em quem fica”, pontua Flávia Teixeira.

O luto

É o processo de elaboração de uma perda. No caso do suicídio, o luto tende a ser permeado pela busca de explicações e prováveis vestígios que possam clarificar o motivo que levou seu parente ou amigo a tirar sua própria vida. Os questionamentos se repetem e nunca há uma resposta que justifique a tragédia.

“Cada um tem seu próprio tempo e modo de vivenciar o luto. Mas o processo pode ser mais difícil neste caso, já que ainda há muitos tabus acerca do suicídio, fato esse que dificulta a validação dos sentimentos de quem sofre a perda. Geralmente, a pessoa não encontra muito espaço para desabafar sua dor”.

Datas comemorativas, como aniversário, Natal ou réveillon perdem um pouco do encanto. “É como se a alegria destes eventos tivesse ido embora junto com a pessoa querida. Torna-se praticamente impossível passar o Natal sem lembrar dos momentos felizes com quem se foi. Daí a importância de respeitar os limites da pessoa enlutada, cabendo somente a ela escolher como prefere lidar com as lembranças e os sentimentos que surgem nestas épocas”, pondera Flávia Teixeira.

Como sobreviver

Não existe um manual padrão de como sobreviver às perdas. As reações de quem vive ou viveu essa experiência dolorosa são muito particulares, até porque elas dependem do tipo de relacionamento que se tinha, do vínculo afetivo e, principalmente, da estrutura de personalidade da pessoa.

“Não há certo nem errado, e ninguém deve se cobrar e se culpar por nada. O tempo de cada um precisa ser respeitado, sem julgamentos e censura”, reforça a psicóloga. Segundo ela, o ideal é estar perto de pessoas e lugares que a façam se sentir acolhida e aceita.

Grupos terapêuticos de suporte e apoio podem contribuir para o indivíduo desenvolver recursos internos que ajudarão a lidar com a nova realidade. “A troca de experiências promove aprendizados, crescimento pessoal e serve de ferramenta para auxiliar a pessoa a seguir sua vida, o que não significa esquecer quem partiu, mas inseri-lo em uma outra perspectiva de significado e sentido”, finaliza Flávia Teixeira.