Níveis elevados de glicose (açúcar) no sangue podem acabar potencializando a multiplicação de vírus que afetam o sistema respiratório, como os causadores da gripe e da Covid-19, indica um estudo feito por pesquisadores chineses. A conexão talvez explique por que pessoas com diabetes têm probabilidade maior de desenvolver quadros severos da doença desencadeada pelo novo coronavírus.

O trabalho, que acaba de sair na revista especializada Science Advances, analisou diretamente apenas a ação do vírus influenza A, um dos mais importantes causadores da gripe, mas suas implicações já estão motivando experimentos similares com o coronavírus, dizem os autores do estudo.

A coordenação da pesquisa, aliás, ficou a cargo de Shi Liu, virologista da Universidade de Wuhan. A cidade onde fica a instituição foi o primeiro epicentro da atual pandemia, que já matou cerca de 140 mil pessoas no mundo.

Foto: Arquivo/Agência Brasil

“Acreditamos que o metabolismo da glicose contribui para vários efeitos da Covid-19, já que tanto essa doença quanto a gripe podem induzir uma tempestade de citocina [reação descontrolada das defesas do organismo], e também porque os pacientes que têm diabetes apresentam mortalidade mais elevada”, declarou Liu em comunicado oficial.

A pesquisa, que foi realizada principalmente in vitro e também com algumas análises do sangue de pessoas com o vírus da gripe, tentou “ligar os pontos” entre diferentes fenômenos bioquímicos importantes.

Um deles envolve os vários caminhos pelos quais o organismo absorve e usa a glicose, que é essencial para a energia das células. Existem três caminhos principais nesse processo, um dos quais é designado pela sigla inglesa HBP (via da biossíntese de hexosamina).

Outros estudos já haviam indicado que, durante o processo de inflamação desencadeado pela presença de invasores como os vírus, sistemas como a HBP podem ser redirecionados pelo organismo para fazer frente ao desafio.

A questão é que, por vezes, esse “esforço de guerra” do corpo pode sair pela culatra, gerando fenômenos como a tempestade de citocinas citada por Shi Liu. Nesses casos, a produção exagerada das tais citocinas –basicamente moléculas coordenadoras do processo inflamatório – acaba causando mais mal do que bem ao organismo.

Em doenças respiratórias como a gripe e a Covid-19, o processo desencadeia danos graves nos pulmões e pode levar à morte. Acredita-se que a alta mortalidade de adultos jovens (cerca de metade das vítimas) durante a pandemia de gripe espanhola, em 1918, deveu-se ao fenômeno da tempestade de citocinas, mais forte em pessoas com sistema imune robusto.

No novo estudo, Liu e seus colegas verificaram que as células humanas infectadas pelo vírus influenza A sofrem um aumento rápida na atividade da HBP e, portanto, no metabolismo da glicose, o que desencadeia, por sua vez, um aumento na produção de citocinas. O processo talvez até acabe favorecendo a multiplicação do vírus, no fim das contas, em vez de combatê-lo, embora o mecanismo que explica isso ainda não esteja claro.

Mais importante ainda é o fato de que os fenômenos que eles observaram in vitro também parecem estar presentes em pessoas infectadas com o vírus da gripe. Em dois grupos de pacientes, totalizando 119 pessoas, os níveis de glicose do sangue eram mais altos do que em pessoas sem a doença, e o metabolismo complicado que une a via HBP com as citocinas também estava bem mais ativado em pessoas com muito açúcar no sangue.

Se os achados forem confirmados por mais pesquisas, fica ainda mais clara a importância de proteger pacientes diabéticos e de seguir uma alimentação saudável para evitar casos graves de gripe e de Covid-19.