O tratamento do HIV vive uma nova fase com a chegada dos medicamentos injetáveis de longa duração, que podem ser aplicados mensalmente, a cada dois meses — ou até apenas duas vezes por ano.

A proposta é substituir a rotina de comprimidos diários por aplicações periódicas, facilitando a adesão e melhorando a qualidade de vida de quem vive com o vírus.
Essas novas terapias já avançam no Brasil do ponto de vista regulatório, com aprovações recentes pela Anvisa, mas ainda enfrentam desafios para se tornarem amplamente acessíveis, especialmente no Sistema Único de Saúde (SUS).
Como funcionam os medicamentos injetáveis contra o HIV
Os medicamentos de longa duração foram desenvolvidos para permanecer no organismo por mais tempo do que os antirretrovirais tradicionais, liberando a substância de forma gradual.
Em entrevista à Banda B, a infectologista Camila Rodrigues explica que o principal esquema injetável para tratamento do HIV atualmente é a combinação de cabotegravir com rilpivirina.
“Em vez de comprimidos diários, a pessoa recebe aplicações em intervalos maiores — mensalmente, a cada dois meses ou até semestralmente, dependendo da estratégia”
explica a médica.
De acordo com ela, esses medicamentos atuam bloqueando etapas essenciais da replicação do vírus: o cabotegravir inibe a integrase e a rilpivirina bloqueia a transcriptase reversa. Essa combinação impede que o HIV se multiplique no organismo.
Além do tratamento, alguns desses medicamentos também vêm ganhando espaço na prevenção da infecção (PrEP). É o caso do cabotegravir isolado e do lenacapavir, este último aprovado pela Anvisa em janeiro de 2026 para uso semestral na prevenção.
Quais são as principais vantagens
Uma das maiores mudanças trazidas por essas terapias é a redução da carga do tratamento no dia a dia.
“Para muita gente, tomar remédio todos os dias é simples; para outras, pode ser difícil por rotina irregular, estigma ou cansaço do tratamento crônico”
afirma Rodrigues.
Entre os principais benefícios, estão menos doses ao longo do tempo, maior adesão ao tratamento, mais privacidade e melhora na qualidade de vida.
A própria Organização Mundial da Saúde já recomenda o uso de esquemas de longa duração como alternativa para pacientes com supressão viral estável, especialmente aqueles com dificuldade de manter o uso diário de comprimidos.
Outro ponto importante é o impacto psicológico. “O tratamento deixa de ser um lembrete diário da infecção, o que pode melhorar muito a qualidade de vida”, destaca a médica.
Nem todos os pacientes podem usar
Apesar das vantagens, o uso desses medicamentos ainda é bem específico.
Hoje, eles são indicados principalmente para:
- pessoas com HIV que já têm carga viral controlada
- pacientes sem histórico de resistência aos medicamentos
- casos com acompanhamento médico regular
A infectologista alerta que a estratégia exige organização:
“Não é uma opção mais fácil em todos os casos. É preciso comparecer ao serviço de saúde nas datas corretas, com controle rigoroso dos intervalos.”
Também há cuidados importantes, como:
- risco de resistência se houver atraso nas aplicações
- necessidade de avaliação de interações medicamentosas
- possíveis reações no local da injeção
Além disso, o esquema não é indicado para pessoas com hepatite B ativa, já que não trata o vírus como alguns medicamentos orais.
Prevenção também ganha reforço
Além do tratamento, os medicamentos de longa duração também representam um avanço importante na prevenção do HIV.
O cabotegravir injetável já foi aprovado no Brasil para PrEP, enquanto o lenacapavir surge como uma nova alternativa com aplicação semestral.
Essas opções podem ser especialmente importantes para pessoas com maior risco de exposição ao vírus e quem tem dificuldade de manter a PrEP oral diária.
Quando os medicamentos chegam ao SUS?
Apesar dos avanços científicos, o acesso ainda é limitado no Brasil.
Segundo Camila Rodrigues, a aprovação pela Anvisa é apenas o primeiro passo.
“Para que essas terapias cheguem de forma mais ampla, especialmente no SUS, ainda é preciso definir preço, avaliar custo-efetividade e passar pela análise da Conitec e do Ministério da Saúde”
explica a infectologista.
Na prática, a disponibilidade depende de quatro fatores principais:
- custo dos medicamentos
- incorporação ao SUS
- capacidade dos serviços de saúde
- definição de públicos prioritários
Hoje, o cabotegravir para PrEP já está na rede privada, mas o acesso público ainda deve acontecer de forma gradual.
O futuro do tratamento do HIV
Os medicamentos injetáveis representam uma das maiores mudanças recentes no cuidado com o HIV, ao oferecer alternativas mais práticas e adaptadas à realidade dos pacientes.
“Eles podem reduzir a carga do tratamento diário, mas o uso ainda precisa ser bem individualizado”
resume a especialista.
A expectativa é que, com o avanço das políticas públicas e negociações de custo, essas terapias se tornem cada vez mais acessíveis, ampliando o controle da infecção e fortalecendo a prevenção no país.
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