JULIANA GONÇALVES

LONDRINA, PR (FOLHAPRESS) – Entre 2019 e 2020, o Paraná enfrentou a pior epidemia de dengue da sua história, com 227.724 casos positivos e 177 óbitos. Os dados do novo ano epidemiológico, porém, já superam os registros anteriores.

O mais recente boletim estadual sobre a situação da dengue aponta 3.803 casos prováveis (somados os confirmados e sob investigação) entre agosto e a segunda quinzena de outubro, contra 3.474 do mesmo período em 2019.

Foto AEN

O ano epidemiológico da dengue no estado começa em julho ou agosto, e se encerra 12 meses depois, para que a contagem não comece no verão, pico da doença. De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde do Paraná, as piores epidemias foram registradas nos períodos 2019/2020, 2012/2013 e 2015/2016.

O monitoramento em vigor começou em agosto. Nesse intervalo, além dos casos positivos e suspeitos, é maior o número de municípios com notificações e com casos confirmados -277 e 126, respectivamente, contra 234 e 109 no ano anterior.

Além disso, três óbitos por dengue já foram confirmados -não havia nenhum no mesmo período de 2019.

Embora o intervalo de análise seja pequeno, os índices atingidos preocupam o poder público. Para a coordenadora de Vigilância Ambiental da Sesa, Ivana Belmonte, são grandes as chances de uma nova epidemia, especialmente devido à alteração do sorotipo do vírus predominante.

O vírus da dengue possui quatro sorotipos, que podem circular isolados ou simultaneamente. Em 2020, o sorotipo 2 foi o mais detectado nos exames laboratoriais, presente em 79,7% das amostras.

“A alteração do sorotipo predominante, como houve em 2019, faz com que o novo tipo de vírus encontre uma população mais suscetível, porque as pessoas ainda não possuem imunidade a ele”, diz Belmonte. Isso traz grandes chances de epidemias sucessivas, por até quatro ou cinco anos seguidos.

Distanciamento

O distanciamento social imposto pela pandemia afetou diretamente o controle do mosquito transmissor da dengue, o Aedes aegypti.

O Ministério da Saúde suspendeu, em todo país, o LirAa (Levantamento Rápido do Índice de Infestação por Aedes aegypti). Esse estudo, feito a cada três meses pelos municípios, é utilizado para identificar, por amostragem, localidades com mais focos e os tipos mais comuns de criadouro.

Ainda assim, a Sesa sugeriu aos municípios paranaenses que executem o LirAa em novembro, desde que haja segurança contra a Covid-19 para os agentes.

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Cidades como Foz do Iguaçu, Cascavel, Londrina e Maringá, todas com alto índice de casos, intensificaram as ações em busca de focos do Aedes, mas são os pequenos municípios, com menos de 10 mil habitantes, que concentram as incidências mais altas. O índice calcula a proporção de casos para cada 100 mil habitantes. Nas três primeiras posições estão São Tomé, com incidência de 193,22, Porto Rico, com 156,19, e Pérola d’Oeste, com 124,86.

O Ministério da Saúde estabelece três níveis de incidência: baixa (menos de 100 casos/100 mil habitantes), média (de 100 a 300 casos/100 mil habitantes) e alta (mais de 300 casos/100 mil habitantes). A última caracteriza epidemia.

Tanto o LirAa quanto o fumacê são práticas tradicionais e difundidas no país para o controle do Aedes, mas desaconselhadas por pesquisadores.

Há ressalvas quanto aos efeitos do inseticida no meio ambiente. O mosquito desenvolve resistência, o que resulta na troca por substâncias cada vez mais nocivas. Bioinseticidas ou biolarvicidas são uma alternativa, porque não geram resíduos tóxicos e têm risco baixo de afetar outros organismos. Eles utilizam micro-organismos, como bactérias, para eliminar o Aedes na fase adulta ou larval.

Segundo João Zequi, biólogo e professor da UEL (Universidade Estadual de Londrina), as ações tradicionais deveriam ser complementadas por ferramentas mais eficazes e mais seguras em tempos de Covid-19.

“O mais adequado é fazer o monitoramento em fase inicial, para não ter mosquitos adultos carregando o vírus.” Ele sugere as ovitrampas, armadilhas de captura que poderiam ser utilizadas com o LirAa. “Os inseticidas têm que ser usados com cautela e são aplicados basicamente quando já se perdeu o controle da situação.”

Como o Aedes é domiciliar e prefere ficar dentro dos imóveis, o fumacê acaba sendo menos eficaz, já que os moradores fecham as portas e janelas.

Soma-se ao quadro o fato de que o Paraná enfrenta a pior estiagem dos últimos 50 anos. Diante do rodízio no abastecimento em várias cidades, os objetos utilizados para armazenar água são potenciais criadouros.

Camila Lorenz, doutora em ciências pela Faculdade de Saúde Pública da USP, reforça a necessidade de novas metodologias para detectar o Aedes em fases iniciais, como o uso de imagens de satélite para monitorar áreas de grande infestação.

“Há anos tem sido feita a mesma coisa, com esforços que geram muito custo, muito trabalho, mas cujo efeito real para prevenir uma epidemia é muito pequeno. Mudar depende muito da boa vontade do poder público, porque temos tecnologias aplicáveis, factíveis e com resultados promissores.”

Em pesquisas, Lorenz identificou que monitorar somente o mosquito nas primeiras fases de vida, como faz o LirAa, não previne a ocorrência das epidemias. “O LirAa mede, por amostragem, os focos de larvas, mas muitos deles podem não completar o ciclo. Estudos apontam que os índices do levantamento nem sempre são diretamente ligados ao número de casos de dengue.”

Para a cientista, a atuação da população é a maior e melhor ferramenta para conter o avanço das doenças que o Aedes transmite. “E não só no verão e nas epidemias, mas o ano inteiro. Tem que virar uma rotina.”

Esta reportagem foi produzida no âmbito do Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde, que conta com o patrocínio do Laboratório Roche e da Rede D’Or São Luiz.