Os brasileiros estão tendo que rever alguns hábitos na hora de fazer compras para tentar minimizar a alta nos preços dos alimentos. Esse aumento generalizado nos preços tem apertado cada vez mais o orçamento dos brasileiros que não estão vendo os seus salários acompanharem o ritmo acelerado da inflação. Menos renda e desemprego elevado fizeram com que as famílias diminuíssem a qualidade do prato no país.

O Brasil passa pela maior seca dos últimos 91 anos. A falta de chuvas já provocou queda na produção de diversas culturas como milho, feijão, laranja e cana-de-açúcar. A redução de oferta e o aumento da demanda também é prejudicial já que baixo nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas fez com que o governo acionasse as termelétricas, que produzem energia mais cara (energia que funciona com base na queima de combustíveis fósseis).

Preços dos mais diversos tipos de alimentos não para de aumentar. Foto: Agência Brasil

Com isso, além do aumento nos preços do arroz, carne e frango, os brasileiros também estão tendo que passar por crescimento na tarifa da energia elétrica. Além disso, os combustíveis também estão mais caros. De acordo com o economista e coordenador do curso de Economia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-PR), Jackson Bittencourt, o aumento expressivo nos preços está relacionado a uma série de fatores.

Em agosto, os preços dos alimentos subiram em média 1,21% só em Curitiba. Nos últimos 12 meses, o aumento foi de 12,08%. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) faz a pesquisa da inflação em 10 grandes regiões do Brasil e chega ao cálculo do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que é um instrumento matemático capaz de medir preços que subiram, se tornaram constantes e desceram.

“Na PUC a gente faz uma avaliação mensal da inflação e está se tornando assustador mesmo”, diz o especialista

Segundo o professor, a maioria das regiões já estão com inflação acima de 10%. No caso de Curitiba, o número está em 12%. Por conta da grande estiagem que atinge o sul do Brasil, a capital paranaense tem sido bastante prejudicada na produção dos alimentos. A falta de chuvas tem um efeito multiplicador e preços de hortaliças, carne e do frango também tem subido de maneira considerável.

Jackson destaca que alguns componentes na inflação podem resultar no aumento de preços, algo que era comum até o ano de 2020, no entanto, isso já não faz mais parte da realidade. Agora está tudo subindo”, afirma o professor.

A falta de água em todo o Brasil também provocou mudanças na geração de energia. Com a baixa dos reservatórios das hidrelétricas, o governo brasileiro acionou as termoelétricas. Com o maior acionamento desse tipo de usina, a conta de luz ficou mais pesada para o brasileiro.

Aumento no dólar

Brasil importa muitos produtos, diz especialista. Foto: Agência Brasil

Outro fator apontado pelo especialista é o aumento na taxa de câmbio, que é a relação entre moedas de dois países que resulta no preço de uma delas medido em relação à outra. Com isso, há a elevação do dólar, que dificulta as importações de produtos do agronegócio. No Paraná, sementes, defensivos agrícolas e componentes costumam ser importados.

“Quando a taxa de câmbio sobe, produzir alimentos se torna mais caro”, explica o professor

Quando a taxa sobe muito, também é comum que o empresário brasileiro ganhe mais dinheiro exportando (vendendo para fora do Brasil) do que atendendo ao mercado interno. “Isso aconteceu com a carne bovina, o pessoal a desabastecer o mercado interno”, diz.

Jackson ressalta que parte da carne bovina brasileira foi direcionada para outros mercados, como é o caso da China. Com isso, houve a queda na oferta e os preços começaram a subir. “A lei da oferta e demanda não perdoa”, diz.

Mudanças nos hábitos das famílias

Famílias brasileiras sofrem com o aumento nos preços. Foto: Agência Brasil

De acordo com o professor, os brasileiros estão tendo que fazer escolhas diferentes no supermercado para que as compras do mês estejam adequadas ao orçamento. Segundo ele, não são apenas as pessoas estão mudando os próprios hábitos, mas também os restaurantes estão fazendo isso. “O ideal é a gente fazer substituições”, diz.

Jackson destaca que a carne de frango subiu, em média, 40% em Curitiba no último. No entanto, alguns cortes da carne bovina chegaram a crescer 80%. Segundo ele, o preço do frango teve aumentos menores já que os donos de granjas não esperavam o aumento da demanda. Os ovos cresceram em 15% nos últimos 12 meses.

“O ideal é antes de você ir ao supermercado é pesquisar um pouco dos preços. Tem várias alternativas você pode ir na feira preparar o cardápio de casa e aproveitar”, sugere o professor

Na visão do especialista, as pessoas no mundo inteiro costumam jogar a comida fora com muita frequência. Com isso, ele sugere que a população procure por formas de aproveitar melhor os alimentos. Jackson também recomenda que todos façam consultas na internet para verificar possíveis substituições para alguns alimentos que ficaram mais caros. “Não jogar comida fora, eu começaria por ai. Isso vai diminuir o seu custo no consumo de alimentos”, afirma.

Aumento de preços deve continuar?

Orçamento precisa ser organizado para as compras. Foto: Agência Brasil

Para o professor Jackson, o aumento na energia elétrica deve ser a maior preocupação para os próximos meses. Ele recomenda que o consumidor procure economizar energia. Afinal, as atividades produtivas costumam consumir maior eletricidade. “Estando mais alto esse preço, a indústria começa a repassar esse preço, o que gera um custo para ela e pode agravar o processo inflacionário”, afirma.

O especialista destaca que ainda não há uma previsão de que a seca e a taxa de câmbio melhorem a curto prazo. Segundo ele, existem atitudes que podem ser tomadas para minimizar o problema. O Banco Central, por exemplo, recentemente elevou a taxa de juros.

“Demora um pouco mas ele consegue frear o aumento nos preços. Fica mais caro o crédito, fica mais caro produzir, então tanto os empresários quanto os consumidores reduzem esse consumo”, explica

Apesar da medida que pode ajudar a melhorar a inflação, o professor fez um alerta quanto ao custo social do juro mais alto. O Brasil conta com alta taxa de desemprego – 14,4 milhões segundo o IBGE – e a tendência é não conseguir reverter isso a curto prazo.

Para 2022, a ideia é que os preços sejam mais estáveis, mas ainda sem grande crescimento econômico. “Preços mais altos e desemprego, a gente vai ter que revisar o nosso planejamento financeiro. Todos nós, não interessa o nível de renda”, diz o professor Jackson.

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