Ernani Buchmann foi presidente do Paraná Clube entre 1996 e 1997. Em sua gestão, o Tricolor conquistou o tetra e o penta do Campeonato Paranaense. Nomes importantes do futebol brasileiro comandaram a equipe, como Sebastião Lazaroni, duas vezes, Antônio Lopes e Rubens Minelli.

Mas também tiveram polêmicas. Entre elas, as saídas de Lopes e Minelli, além de jogadores que trocaram o Paraná por um rival do dia para a noite de uma forma um tanto obscura e a quase fusão do Trio de Ferro para originar um novo clube.

Advogado e jornalista, Ernani Buchmann, antes de ser paranista, era torcedor do Ferroviário, um dos clubes que geraram o Paraná Clube. Mas assumiu a presidência no final de 1995 meio por acaso, diante de várias situações que o levaram ao cargo. E logo no primeiro dia já viu o tamanho da crise financeira do Tricolor. A situação já se mostrava complicada 28 anos atrás, que levaram até o ostracismo atual.

Em entrevista exclusiva à Banda B, o ex-presidente revelou detalhes de bastidores sobre sua gestão, nas vitórias e nas derrotas. Alguns assuntos, nunca mencionados anteriormente. Outros reviverão a nostalgia daqueles que presenciaram um momento já difícil, mas que ainda era de glórias nos gramados. Confira a primeira parte da entrevista completa com Ernani Buchmann (a segunda sai na quinta-feira).

Ernani Buchmann, ex-presidente do Paraná Clube
Ernani Buchmann abriu o jogo e revelou bastidores do período em que foi presidente do Paraná, entre 1996 e 1997. Foto: Ricardo Brejinski/Banda B

O começo no Paraná Clube

“Em 1971 eu fui setorista do Ferroviário. Primeiro do Água Verde, e cobri a assembleia que transformou o clube em Pinheiros. Naquele mesmo ano passei a ser setorista também do Ferroviário e a assembleia da fusão com o Palestra e o Britânia, fundando o Colorado. 25 anos depois, virei presidente do clube que surgiu da fusão do Pinheiros e Colorado“, relembrou Buchmann, sobre a sua ligação mais profunda com os primórdios paranistas.

Anos mais tarde, acabou sendo convidado pela diretoria do Colorado para assumir um cargo na diretoria após duras críticas publicadas à equipe. Lá, conheceu futuros presidentes do Paraná Clube, como Darci Piana, mandatário entre 1992 e 1993, e o professor Miranda, que ficou no cargo de 2004 até 2007.

“Em 1985 o Colorado vivia uma fase muito ruim. Não podia jogar na Vila Capanema, jogava no Joaquim Américo. Era um desastre. Uma vez levou uma goleada do União Bandeirantes e eu escrevi contra a situação do Colorado e mandei publicar de graça no Correio de Notícias. Deram um destaque e o meu telefone toca no dia seguinte, era o pessoal que tinha sobrado da diretoria do Colorado, o professor Miranda e mais uns e me convidaram para ir lá. Chegando, pediram que eu ajudasse a sobreviver o Colorado. E foi nesta noite que conheci o Darci Piana”, contou ele.

Desde então, assumiu cargos como diretor de relações públicas e vice-presidente. Em 1988, foi procurado pelo publicitário Zeno Otto, com quem já havia trabalhado, sobre uma possível fusão com o Pinheiros.

“‘O Pinheiros tem patrimônio, mas não tem torcida, o Colorado tem torcida, mas não tem dinheiro, você não acha que dava para juntar os dois?’ O Pinheiros vinha de uma tentativa frustrada de fusão com o Coritiba, que seria uma incorporação. Eu liguei para umas pessoas e eles aprovaram. Passou um tempo, foi tudo muito lento, e em 1989 fui chamado para uma reunião para definir as duas assembleias“, explicou.

A origem do Paraná Clube

Em meio a muitas reuniões e desentendimentos, definições de símbolo e uniforme, o Paraná Clube nascia, após assembleias nos dois clubes, aprovando a fusão. Foi ai que o que era apenas para ele cumprir presença nos acordos o tornou mandatário do Tricolor por dois anos.

“Na mesma noite ocorreram as duas assembleias, e nos dois casos foram aprovados com folga, apenas com alguns votos contra. E também foi feita a divisão. A primeira gestão seria azul, o escolhido foi o Aramis Tissot, e depois foi vermelha, com o Darci Piana, a terceira seria azul novamente, o escolhido foi o Ocimar Bolicenho, e a quarta seria a última do acordo. Na época da fusão, foi criado um conselho normativo com ex-presidentes dos dois clubes, mas faltaram alguns presidentes e eu, mesmo tendo sido vice-presidente, fiz parte desse grupo”, disse Buchmann.

Ernani Buchmann, ex-presidente do Paraná Clube
Ernani Buchmann posa com a taça de campeão paranaense de 1996 ao lado de outros ex-presidentes: Darci Piana, Aramis Tissot e Ocimar Bolicenho. Foto: Arquivo pessoal

“Eram 34 membros, 17 de cada lado. Quando nós chegamos para escolha do quarto presidente, nosso candidato era o Sidney Catenacci, que tinha sido segundo vice do Piana e primeiro do Bolicenho. Era a vez dele, ele aceitou começou a frequentar o clube e em um determinado momento voltou atrás. Isso era novembro de 1995. O que houve foi uma intercorrência, a introdução do plano real, que quebrou o clube, bancos, várias lojas, muita gente do Brasil inteiro. O clube deixou de ter o dinheiro da aplicação financeira. A ciranda financeira, que era aplicar hoje e retirar daqui três dias com juros significativos, deixou de existir”, ressaltou, explicando um dos motivos que levaram o Paraná a ter uma derrocada financeira.

“Quando chegou no fim de 1995, no fim da gestão do Ocimar, já havia uma necessidade de se colocar dinheiro para fazer um fluxo de caixa. O Sidney, então, não quis assumir. Nos reunimos e ficou definido que o Dilso Rossi seria o candidato. Ele reuniu o conselho consultivo e pediu que cada membro do conselho assinasse uma nota promissória de R$ 30 mil. Com isso, ele conseguiria R$ 1 milhão. Ele iria descontar esse dinheiro no mercado de recebíveis e poderia tocar o clube. Mas as pessoas não têm R$ 30 mil disponíveis e o Dilso Rossi levou um corridão do conselho”, contou.

“E aí fica aquela coisa de quem seria o presidente. Eu tinha vendido a minha empresa e estava em uma situação confortável. Aí vieram o Darci Piana e os irmãos Trombini, me fizeram o convite e eu aceitei para assumir aquele período e cumprir o acordo. Considerando toda a minha história com o Colorado, passado como repórter e conhecimento de futebol, acabei aceitando“, revelou.

Ernani Buchmann, ex-presidente do Paraná Clube
Ernani Buchmann foi eleito presidente do Paraná em dezembro de 1995. Foto: Arquivo pessoal

Dificuldades financeiras

Embora viesse de um tricampeonato paranaense (1993, 1994 e 1995), além de estar esse mesmo período na primeira divisão nacional, o Paraná já vivia um momento turbulento nos bastidores, com salários e premiações de jogadores atrasados e dívidas que iam se acumulando com o passar do tempo.

Logo no primeiro dia de trabalho, às 9 horas da manhã, recebi a visita do Enio Ribeiro, que depois foi presidente do Paraná Clube. Ele foi me procurar como diretor do Bamerindus e tinha um contrato de renovação de cheque especial de R$ 300 mil, que havia sido sacado. Então o clube devia R$ 300 mil naquele momento e, na troca do comando, o antigo presidente deixou de ser responsável e eu virei avaliador daquele valor. O prêmio do tricampeonato não tinha sido pago ainda, tinha 13º atrasado, coisas normais do futebol. Aquilo não me assustou muito, mas tinha que fazer economia, investimento”, reforçou.

Buchmann recebeu um Paraná, que, no campo, tinha dado passos largos em 1995. Pela primeira vez, o clube havia liderado uma rodada do Brasileirão, sob o comando de Vanderlei Luxmeburgo, que era o então bicampeão brasileiro pelo Palmeiras. Um investimento alto da gestão Bolicenho.

Todos nós achávamos que o clube iria nadar em dinheiro. Não nadou, por vários motivos. A questão do Luxemburgo não pesou tanto. Claro, se todos soubessem a situação do clube, a contratação do Luxemburgo não seria aprovada. Mas o Ocimar queria dar passos largos e vendeu um cenário para o Luxemburgo muito colorido. Mas no campo isso não se refletiu. O Ocimar ficou muito irritado e não sabia mais o que fazer com o Luxemburgo. Ele não sabia como se livrar, mas o Palmeiras foi uma grande salvação. Tínhamos uma dívida de R$ 100 mil pelo Gil Baiano e ali se acertou tudo”, reforçou.

“Houve um choque de realidade. Na saída do Luxemburgo a diretoria mandou uma série de jogadores embora e foi mantendo o pessoal mais da casa, o Paquito virou treinador e foi esse o time que peguei. Mas tinha Claudinho, Saulo, Hélcio, Régis, Edinho Baiano, tinha qualidade”, acrescentou o ex-mandatário paranista.

No campo, resultados

Apesar das dificuldades, aos trancos e barrancos o Paraná Clube conseguiu resultados importantes, como os dois títulos paranaenses, em 1996 e 1997, além de ter se mantido na elite nas duas temporadas. Em 1997, inclusive, liderou várias vezes, até a 11ª rodada. Porém, depois venceu só mais dois jogos e se contentou com a fuga da queda.

Ernani Buchmann, ex-presidente do Paraná Clube
Buchmann conquistou os títulos do Paranaense de 1996 e 1997. Foto: Arquivo pessoal

Ganhamos o tetra e o penta com três meses de salário atrasado. No tetra, ainda no vestiário da Arena, eu paguei com cheque os jogadores. No dia seguinte tive que fazer um empréstimo no banco para honrar os cheques“, afirmou Ernani, que chegou a ter 1,8 milhão de dólares em dívidas do clube em seu nome.

“Ficar na primeira divisão em 1996 foi um grande negócio. Em 1997, com o time mais ajeitado, achei que daria para ficar entre os oito primeiros, mas não deu. Não tínhamos de onde tirar dinheiro. Recebemos um dinheiro do Bordeaux (da França) pela venda do Ricardinho, pagamos várias dívidas, recebi um dinheiro da TVA, cheguei em Curitiba, depositei o cheque e foi um alívio”, apontou o ex-presidente

Culpados pelo momento do Paraná Clube?

Para Ernani Buchmann, o que faltou ao Paraná Clube foi experiência entre aqueles que o comandaram por muito anos. E, com o passar do tempo, a bola de neve só foi aumentando, até chegar ao ponto em que está atualmente, precisando retornar à elite estadual para tentar recuperar um status alcançado anos atrás.

“Faltou muito ao Paraná Clube qualidade na sua gestão. Não tivemos gestores qualificados. Dirigir um clube é muito complicado. Você precisa ser um visionário. Ninguém é obrigado a ser um Petraglia, mas um pouco visionário precisa ser. Se não, não consegue coordenar a presidência de um clube”, afirmou.

A partir da gestão do Miranda, quando o clube foi para a Libertadores, ele se reelegeu e aí começou a derrocada. Veio à tona a questão do cheque do Luis Alberto (no caso Thiago Neves) e a partir dali se perdeu o rumo. Todo mundo que chegou, tentou resolver. Mas quando o Miranda assumiu, o clube não tinha mais conta bancária, vinha tudo na conta dele. Então não se tinha controle do que entrava, do que era dele. É uma situação já de desespero”, ressaltou.

Ernani Buchmann, ex-presidente do Paraná Clube
Ernani Buchmann lamenta situação atual do Tricolor. Foto: Ricardo Brejinski/Banda B

Nós mantivemos o clube mais dez anos após minha gestão, que já foi sem dinheiro. E no Miranda chegou ao ápice. Foi pra Libertadores, campeão Paranaense, mas financeiramente já foi um desastre”, acrescentou.

Futuro do clube

Ainda de acordo com o ex-presidente, o pior já passou para o Paraná Clube, que, agora, vai tentando reconstruir sua história. E a possível transformação em SAF é o que cria esperança a ele.

“Agora vejo com alguma expectativa. Esse ano ainda será muito difícil, até acertar a questão da SAF. Tem uma segunda divisão do Paranaense pela frente e não adianta tentar chegar na primeira sem subir. Essa coisa da compra de CNPJ não deu certo. Vai ter que passar pelo purgatório”, afirmou.

No entanto, Buchmann pede paciência ao torcedor. O ex-dirigente não espera o Paraná rapidamente onde quer chegar. Para isso, vai demandar tempo para que o clube, que um dia já foi gigante, possa chegar perto do que esperava ser nos anos 1990.

É algo que vai levar seis, sete anos, para tentar chegar lá. A subida é muito árdua. Para a descida, basta um empurrãozinho. Mas é o que sobrou de um grande clube. Eu tenho orgulho de dizer que o Paraná tinha sete, oito sedes e não vendi nenhuma”, finalizou.

Confira, nesta quinta-feira (21), a segunda parte da entrevista com Ernani Buchmann, sobre negociações de jogadores, proximidade com os rivais e até a quase fusão dos três.