Uma operação realizada pelo Ministério Público de Goiás sobre um esquema de manipulação de resultados mexeu com o futebol brasileiro. Desde a última terça-feira, somos bombardeamos por situações que teriam ocorrido em três partidas da última rodada do Campeonato Brasileiro da Série B do ano passado. Com muito dinheiro envolvido e atletas convencidos a participar da trama, o futebol brasileiro se vê extremamente ameaçado por um mal antigo e cada vez mais poderoso.

Desta vez, o mundo digital e a chance de apostar a dinheiro em qualquer partida de futebol pelo planeta nos deixa cada vez mais expostos à atitude de pessoas que buscam tirar esta prática do campo da diversão sadia e levá-la ao campo criminal. Nela, as quantias de dinheiro seduzem especialmente os atletas e dirigentes de equipes de menor investimento. Até porque, pela lógica, se a instituição não possui um grande patrimônio, os atletas também não tem. E aí a manipulação de resultados fica mais possível.

O que preocupa e nos deixa cada vez mais perplexos é que os apostadores ilegais estão, cada vez mais, perdendo o medo de praticar seus atos ilícitos. As práticas que antes eram restritas às divisões de um nível técnico baixíssimo, de caráter estadual e de interesse para times que, muitas vezes, nem torcedores possuem, agora sobem à Série B, o segundo maior escalação da prática do futebol no país. A manipulação de resultados, portanto, está cada vez mais presente nas vidas de atletas conhecidos, técnicos experientes e aos olhos de grandes emissoras que pagam altos valores para transmitir o torneio.

Novas formas de manipulação de resultados

Se a tática dos gols contra, das goleadas e dos árbitros corrompidos (como o esquema que manchou o Brasileirão de 2005) está quase vencida, os apostadores buscam não só a manipulação de resultados. O número de cartões, o número de escanteios e a marcação de pênaltis, fatos secundários e terciários que muitas vezes passam despercebidos pelos olhos da imprensa e dos torcedores são as novas miras destes que se interessam pelo dinheiro e não ligam para o carrossel de emoções que uma partida de futebol pode propiciar a todos.

O que irrita e entristece muito é a percepção de que há uma chance cada vez maior de estarmos incluídos dentro de um circo, onde o espetáculo é previamente combinado, bem maquiado e envolve os profissionais. Mas qual é o sentimento que fica quando nos damos conta da manipulação de resultados? E as emoções descarregadas por algo que alguém, em algum lugar, já sabia que iria acontecer?

Olho vivo

Devemos nos manter críticos e céticos com relação à prática do futebol e parar de criar uma credibilidade exagerada sobre uma partida de alto escalão. Não é porque o jogo é da Libertadores ou da Copa do Mundo que não pode acontecer a manipulação de resultados. Em âmbito nacional, que os órgãos competentes se mantenham rígidos e punam, com veemência, os envolvidos nos casos dos jogos da Série B. Seja atletas, dirigentes ou os próprios apostadores, o esquema foi financiado por alguém. A atenção deve ser extrema e uma força-tarefa deve ser criada para evitar, ao máximo, a proliferação dessa espécie de “vírus”. Antes que o nosso amor por esse esporte esteja em vias de acabar.

Ministério Público de Goiás explica detalhes de operação contra a manipulação de resultados.
A operação Penalidade Máxima escancarou o acesso que as gangues de apostas virtuais têm no futebol brasileiro. Foto: Divulgação/MPGO

* Lucca Marreiros é produtor do Esporte Banda B

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