O momento em que o grupo de manifestantes, liderado pelo vereador Renato Freitas (PT), invadiu a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, neste sábado (5), em Curitiba, foi transmitido ao vivo na internet pelo canal da Igreja no YouTube. O padre Luiz Haas afirmou, em meio ao ato litúrgico, crer que o protesto seria “para atrapalhar a missa” propositalmente.

“Vocês acham correto isso?”, indaga o sacerdote aos fiéis ao se referir à manifestação que ocorria em frente à igreja. “Isso é de propósito para atrapalhar a missa. Não sei que grupo é. Descobriram?”, questiona ele novamente.

Durante a repreensão do ato, Haas diz não julgar o protesto, mas destacou que este não deveria ser feito durante o horário da celebração.

“Desde 1737 que se celebra a missa aqui. […] Nós temos todo o direito de ter nossa paz, tranquilidade, para fazer nossas celebrações. Nenhum grupo, até hoje, atrapalhou a nossa missa aqui. É a primeira vez desde que estou aqui, desde 2016”, prosseguiu o padre.

Ele também diz não saber se os manifestantes tinham autorização para promover o ato em tal horário.

Após as declarações sobre a movimentação do grupo liderado pelo vereador Renato Freitas, o padre conclui a missa e deixa o púlpito. Seis minutos depois, o parlamentar aparece entrando na igreja e, em seguida, discursando com auxílio de um microfone enquanto é fotografado.

Manifestantes seguem o vereador e o padre Luiz Haas assiste à invasão. Em determinado momento, algumas pessoas dirigem a palavra ao sacerdote, mas o áudio não é captado pela câmera que transmitiu a missa.

Na maior parte do tempo, Haas, que acompanha toda a manifestação, aparece com os braços para trás. A invasão dura cerca de 13 minutos. Após todo o grupo deixar a igreja, o padre também deixa o local.

Invasão à Igreja e repúdio

O grupo de manifestantes coordenado pelo vereador Renato Freitas (PT) se reuniu, no sábado (5), no Centro Histórico de Curitiba, para protestar contra a morte do congolês Moïse Kabagambe, ocorrida no Rio de Janeiro.

Durante o protesto, o bando invadiu a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. O ato foi repudiado pela Arquidiocese de Curitiba nesta segunda-feira (7). Em nota assinada pelo arcebispo Dom José Antonio Peruzzo, a Arquidiocese disse lamentar o ocorrido e classificou a ação como “agressiva”, além de afirmar que a Igreja Católica foi “profanada”.

'Isso é de propósito para atrapalhar a missa', disse padre sobre manifestação antes de invasão à igreja; veja vídeo
Foto: Reprodução

“A posição da Arquidiocese de Curitiba é de repúdio ante a profanação injuriosa. Também a Lei e a livre cidadania foram agredidas. Por outro lado, não se quer “politizar”, “partidarizar” ou exacerbar as reações. Os confrontos não são pacificadores. O que se quer agora é salvaguardar a dignidade da maravilhosa, e também dolorosa, história daquele Templo (…) Infelizmente, o que houve no último sábado foram agressividades e ofensas. É fácil ver quem as estimulou”, diz a nota.

Conselho de Ética da Câmara

No mesmo dia em que a Arquidiocese de Curitiba se manifestou contra o ato liderado pelo parlamentar eleito com pouco mais de 5 mil votos, os vereadores Éder Borges (PSD), Pastor Marciano Alves (Republicanos) e Pier Petruziello (PTB) protocolaram representações por quebra de decoro contra Freitas na Câmara Municipal de Curitiba.

PT lamenta invasão à igreja

Em nota, o Partido dos Trabalhadores (PT) lamentou a invasão à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. A legenda afirmou que não participou “nem da organização nem da decisão de adentrar o templo religioso”.

Para o partido, porém, os vídeos que mostram a invasão “evidenciam que no momento em que os manifestantes estiveram no interior da paróquia, a missa já havia terminado e o templo estava vazio”.

'Isso é de propósito para atrapalhar a missa', disse padre sobre manifestação antes de invasão à igreja; veja vídeo
Foto: Reprodução

“O PT é defensor histórico da liberdade religiosa, aliás, entre outras frentes de luta, o PT nasceu dentro das comunidades eclesiais de base e das lutas pastorais, que é um partido plural e que reconhece na CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil] uma importante aliada no combate ao discurso de ódio e de intolerância que estão impregnados em nossa sociedade”, diz a nota.

Governo do Paraná se manifesta sobre ato

O governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), disse nesta terça-feira (8) que o ato dos manifestantes foi “de barbaridade e ódio”, e afirmou que o episódio foi sem precedentes na história do Estado.

“Quero manifestar minha tristeza pelo acontecido na Igreja do Rosário, em nossa querida capital. Um ato de barbaridade e ódio que não tem precedentes em nosso estado. Eu sempre defendi e sou a favor de manifestações pacíficas, todos tem o direito de se expressar livremente em um país democrático como é o nosso, mas o que não podemos admitir é a intolerância e o ódio. Que esse tipo de acontecido não tenha mais em nosso estado”, afirmou Ratinho Júnior.

Governo Federal reage à invasão da igreja

O presidente Jair Bolsonaro (PL) usou uma rede social para repudiar a manifestação do grupo, no domingo (6).

O mandatário revelou que pediu para que os ministérios da Justiça e Segurança Pública e da Mulher, Família e Direitos Humanos acompanhem o caso.

Na publicação feita no Twitter, Bolsonaro divulgou o vídeo da manifestação e condenou a ação, além de classificar a invasão à igreja “como um desprezo às tradições do nosso povo”.

Posicionamento de Renato Freitas

O vereador Renato Freitas se pronunciou, por meio de um comunicado, sobre o ato liderado por ele. O parlamentar justificou a escolha pelo local da manifestação, e alegou que o grupo entrou na igreja após a saída dos fiéis (leia a nota na íntegra abaixo):

Na tarde do último sábado (5), nos reunimos no Largo da Ordem, em frente a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de São Benedito, em um ato organizado pelo Coletivo Núcleo Periférico, contra o racismo, a xenofobia e pela valorização da vida.

O local do ato foi escolhido por sua relação histórica com a população negra curitibana. A Igreja, inaugurada em 1737, foi construída por e para pessoas escravizadas, uma vez que negros e negras não poderiam entrar em outras igrejas de nossa cidade.

A manifestação foi realizada em memória e por justiça para Moïse Kabagambe (24) e Durval Teófilo Filho (38), dois homens negros brutalmente assassinados nos últimos dias. O ato contou com a participação de representantes do movimento negro, movimento de mulheres e diversos imigrantes que residem em Curitiba e relataram violências racistas nesta cidade.

Durante o ato, um diácono responsável pela igreja, solicitou que os manifestantes fossem para outro local, sob a justificativa de que o ato não deveria coincidir com a saída dos religiosos da missa que havia se encerrado.

Como parte simbólica da manifestação, entramos juntos na Igreja que estava vazia, de forma pacífica, relembrando que nenhum preceito religioso supera o amor e a valorização da vida.

Pacificamente, assim como entramos na igreja, saímos e seguimos com a manifestação, reivindicando políticas públicas para imigrantes e de combate ao racismo na cidade.

Nos surpreende perceber que exaltar o amor e a valorização da vida em uma igreja causa mais indignação que o assassinato brutal de dois seres humanos negros no Brasil.”

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