O Partido dos Trabalhadores (PT) lamentou a invasão à Igreja Nossa Senhora do Rosário, no Largo da Ordem, liderada pelo vereador petista Renato Freitas neste sábado (05). Em nota, o partido afirma que não participou “nem da organização nem da decisão de adentrar o templo religioso”.

A ocupação aconteceu após protestos por conta da morte do congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, no Rio de Janeiro. Um vídeo mostra o vereador de Curitiba discursando no interior da igreja com um megafone.
No comunicado, o PT diz ainda que defende a liberdade de expressão e a liberdade religiosa, além de se solidarizar com a família de Moïse. Para o partido, os vídeos da invasão “evidenciam que no momento em que os manifestantes estiveram no interior da paróquia, a missa já havia terminado e o templo estava vazio”.
“O PT é defensor histórico da liberdade religiosa, aliás, entre outras frentes de luta, o PT nasceu dentro das comunidades eclesiais de base e das lutas pastorais, que é um partido plural e que reconhece na CNBB uma importante aliada no combate ao discurso de ódio e de intolerância que estão impregnados em nossa sociedade”, diz a nota.
Arquidiocese de Curitiba
A manifestação, que segundo a Arquidiocese de Curitiba aconteceu no mesmo horário da celebração da Missa, foi repudiada pela instituição nesta segunda-feira (7).
Em nota, assinada pelo arcebispo Dom José Antonio Peruzzo, os protestos foram classificados como agressivos. Além disso, afirmou que a Igreja Católica foi “profanada”.
Vereadores
Outros vereadores de Curitiba também se manifestaram sobre a invasão à Igreja Nossa Senhora do Rosário.
O vereador Eder Borges (PSD), que é vice-presidente do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara Municipal de Curitiba, disse à Banda B na manhã desta segunda-feira (7), que vai entrar com uma representação contra o vereador Renato Freitas e também contra a vereadora Carol Dartora, ambos do PT.
Em nota, a assessoria da vereadora Dartora disse que ela não se manifestou dentro da igreja.
O vereador Pier Petruzziello disse que vai tomar as medidas necessárias para pedir a cassação do vereador Renato Freitas.
“Vereador deve lutar pela defesa do patrimônio material e imaterial de sua cidade. Nesse caso violou os dois”, escreveu o parlamentar nas redes sociais.
Já o presidente da Câmara Municipal de Curitiba, Tico Kuzma, repudiou violações às liberdades religiosas e locais de culto e disse que os fatos serão apurados pela casa legislativa. A declaração foi dada em plenário durante a sessão desta segunda:
“Assim como apoiamos manifestações pacíficas e nos solidarizamos com vítimas de preconceito e barbárie, apoiamos a preservação das liberdades individuais e repudiamos violações às liberdades religiosas e locais de culto. Assim, esta Casa não se furtará em apurar quaisquer fatos postos à sua apreciação, com a devida isenção e orientada pelos limites impostos pela Constituição Federal, na medida em que todos se submetem às leis”, disse Kuzma.
Nota do Partido dos Trabalhadores (PT)
“No dia 05 de fevereiro de 2022, aconteceu em Curitiba uma manifestação convocada por Movimentos Sociais, para repudiar o brutal assassinato de Moïse Kabagambe, ocorrido em 24 de janeiro no município do Rio de Janeiro. Moïse era um jovem congolês, refugiado no Brasil, país no qual, junto de sua família, buscou amparo e melhores condições de vida. O jovem foi espancado até a morte por reivindicar salário que estava em atraso. Foi vítima de racismo, xenofobia e aporofobia, por algozes que continuam a reproduzir a ideologia escravagista.
No último sábado, aconteceram em diversas cidades do país, e até mesmo de outros países, manifestações para cobrar justiça e denunciar o racismo estrutural que lamentavelmente faz parte de nossa sociedade.
Em relação ao ato público que ocorreu em Curitiba, a Comissão Executiva Estadual do PT do Paraná lamenta o episódio e esclarece que não participou nem da organização nem da decisão de adentrar o templo religioso. Há, por parte da imprensa tendenciosa, a manipulação de fatos para prejudicar o Partido dos Trabalhadores, pois os vídeos evidenciam que no momento em que os manifestantes estiveram no interior da paróquia, a missa já havia terminado e o templo estava vazio.
Aproveitamos para reafirmar nosso compromisso com o direito à vida e contra toda e qualquer forma de discriminação. Defendemos a liberdade de expressão, nos solidarizamos com a família de Moïse e repudiamos o racismo e a xenofobia que devem ser extirpados de nossa sociedade, com uma luta diária e permanente, que deve contar com o afinco de todos e todas.
O PT é defensor histórico da liberdade religiosa, aliás, entre outras frentes de luta, o PT nasceu dentro das comunidades eclesiais de base e das lutas pastorais, que é um partido plural e que reconhece na CNBB uma importante aliada no combate ao discurso de ódio e de intolerância que estão impregnados em nossa sociedade.
Executiva Estadual do Partido dos Trabalhadores do Paraná
Arilson Chiorato, presidente do PT-PR
Angelo Vanhoni, presidente do PT Curitiba“
Nota do vereador Renato Freitas
Nota na íntegra
“Na tarde do último sábado (5), nos reunimos no Largo da Ordem, em frente a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de São Benedito, em um ato organizado pelo Coletivo Núcleo Periférico, contra o racismo, a xenofobia e pela valorização da vida.
O local do ato foi escolhido por sua relação histórica com a população negra curitibana. A Igreja, inaugurada em 1737, foi construída por e para pessoas escravizadas, uma vez que negros e negras não poderiam entrar em outras igrejas de nossa cidade.
A manifestação foi realizada em memória e por justiça para Moïse Kabagambe (24) e Durval Teófilo Filho (38), dois homens negros brutalmente assassinados nos últimos dias. O ato contou com a participação de representantes do movimento negro, movimento de mulheres e diversos imigrantes que residem em Curitiba e relataram violências racistas nesta cidade.
urante o ato, um diácono responsável pela igreja, solicitou que os manifestantes fossem para outro local, sob a justificativa de que o ato não deveria coincidir com a saída dos religiosos da missa que havia se encerrado.
Como parte simbólica da manifestação, entramos juntos na Igreja que estava vazia, de forma pacífica, relembrando que nenhum preceito religioso supera o amor e a valorização da vida.
Pacificamente, assim como entramos na igreja, saímos e seguimos com a manifestação, reivindicando políticas públicas para imigrantes e de combate ao racismo na cidade.
Nos surpreende perceber que exaltar o amor e a valorização da vida em uma igreja causa mais indignação que o assassinato brutal de dois seres humanos negros no Brasil.“, diz a nota
Confira a nota da Arquidiocese de Curitiba na íntegra
“No dia 05 de fevereiro de 2022, em torno das 17.00hs, um grupo apresentou-se junto à porta da Igreja do Rosário, para protestar contra a violência havida no estado do Rio de Janeiro, cujo desdobramento final foi a morte de um cidadão congolês e, em outro caso, a morte de um brasileiro afrodescendente. Era no mesmo horário da celebração da Missa. Solicitados a não tumultuar o momento litúrgico, lideranças do grupo instaram a comportamentos invasivos, desrespeitosos e grotescos.
É verdade que a questão racial no Brasil ainda requer muita reflexão e análises honestas, que promovam políticas públicas com vistas a contemplar a igualdade dos direitos de todos. Mas não é menos verdadeiro que a justiça e a paz nunca serão alcançados com destemperos ou impulsividades desequilibradas.
Desde a sua primeira inauguração, em 1737, a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos sempre foi um lugar de veneração e de celebração da fé. Foram os escravos a edificá-la. Hoje, muitos afrodescendentes, a visitam. E o fazem em grupos ou individualmente. Sempre primaram pelo profundo respeito, até mesmo quando não católicos.
Infelizmente, o que houve no último sábado foram agressividades e ofensas. É fácil ver quem as estimulou.
A posição da Arquidiocese de Curitiba é de repúdio ante a profanação injuriosa. Também a Lei e a livre cidadania foram agredidas. Por outro lado, não se quer “politizar”, “partidarizar” ou exacerbar as reações. Os confrontos não são pacificadores. O que se quer agora é salvaguardar a dignidade da maravilhosa, e também dolorosa, história daquele Templo.
Curitiba, 07 de fevereiro de 2022.
Dom José Antonio Peruzzo
Arcebispo“
Confira a nota da Secretaria de Estado da Comunicação e Cultura do Paraná
“Respeito é uma palavra forte e que deve ser repetida diariamente nas nossas vidas. Respeito pela vida humana, pelo próximo, pela liberdade, pelas religiões, pela fé alheia, pela comunidade. Respeito é um sentimento que nos irmana apesar de todas as diferenças, inerentes a qualquer sociedade.
Por isso, devemos ter respeito pela família do jovem congolês Moïse Kabagambe, brutalmente assassinado no Rio de Janeiro. Respeito pelas manifestações pacíficas que pedem justiça e denunciam mais um caso de racismo no Brasil.
E lamentavelmente condenar a falta de respeito de parte de um grupo que entrou na Igreja do Rosário, no último domingo, em Curitiba, com bandeiras políticas e palavras de ordem, em uma cena de manifesto DESRESPEITO com a fé alheia.
A busca pela justiça é um dever. A luta contra excessos, também.
João Evaristo Debiasi
Secretário de Estado da Comunicação e Cultura do Paraná“
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