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Enquanto a vacinação contra a Covid-19 caminha a passos lentos no Brasil, a desinformação e o disparo de teorias conspiratórias ainda permanece a todo o vapor no país. Os grupos antivacina crescem consideravelmente e reaproveitam conteúdos prévios de fake news que já tinham sido produzidos e são adaptados ao coronavírus.

Recentemente, países como a França tem sofrido com protestos de pessoas que não querem se vacinar contra a Covid. Até agora, pouco mais de 50% dos franceses estão com imunização completa mas algumas pessoas ainda preferem pagar centenas de euros para obter falsos atestados. Enquanto isso, outros manifestantes, mais radicais, atacam postos de saúde.

De acordo com o historiador, doutor em filosofia e professor da Universidade Positivo (UP) Antonio Djalma Braga Junior, os decretos do presidente Emmanuel Macron para conter a expansão da variante Delta (cepa indiana) são os fatos geradores de revolta. Afinal, o chefe do executivo francês conseguiu aprovar no Congresso Nacional o chamado Passe Sanitário.

A ideia é exigir comprovante de vacinação para locais como museus e cinemas. A partir da próxima semana, também haverá essa exigência em bares e restaurantes.

O professor destaca que governantes no país estão em busca de soluções para frear uma possível quarta onda da doença.

Medidas restritivas na história do Brasil

Movimentos antivacina estão no Brasil há muito tempo, diz especialista. Foto: Hully Paiva/SMCS

Para falar sobre vacina no Brasil, o historiador retoma o que aconteceu durante a Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro, em 1904. Na ocasião, o país registrava 7 mil casos da varíola, números considerados chocantes para a época. Além disso, havia muita subnotificação assim como acontece nos tempos de Covid-19.

Atualmente, as medidas restritivas de circulação, uso de máscaras e álcool gel podem funcionar como mecanismos para barrar o contágio da Covid-19. No entanto, essas estratégias para dar fôlego e proteger contra o vírus não existiam no início do século XX.

“De modo muito semelhante, em 1904 nós também tinhamos leis que impunham restrições de maneira rigorosa”, diz

Além das próprias medidas restritivas contra doenças, outra discussão que não é atual é a da obrigatoriedade da vacinação. Em junho de 1904, o médico sanitarista Oswaldo Cruz motivou o governo a enviar ao Congresso um projeto para reinstaurar a obrigatoriedade da vacinação em todo o território nacional. A imunização obrigatória nunca tinha sido cumprida, já que a varíola era um problema antes desse surto.

O professor Djalma explica que o projeto de Oswaldo incluía multas para quem não se vacinasse, comprovante de vacinação para quem iria arrumar empregos, viajar para o exterior, fazer casamentos, entre outros.

Com isso, o episódio mostra que a história já trazia questões semelhantes ao que está acontece em vários países na atualidade.

Politização do tema

Restrições em 1904 resultaram em protestos contra o presidente. Foto: Pixabay

O professor acredita que é preciso olhar para temas que vão muito além da vacinação quando estamos falando em manifestações contra imunizantes. Por exemplo, as medidas de 1904 resultou em protestos já que o então presidente Rodrigues Alves promoveu despejos da população por conta de obras públicas. Essa desaprovação não se repetiu em 1908 apesar da campanha de vacinação ter sido maior.

“É preciso atentar para itens que estão para além da vacina quando a gente olha esses movimentos e esses protestos”, afirma

Efeitos da desinformação

Fake news é arma para os grupos antivacina. Foto: Pixabay

Djalma ressalta que a divulgação de informações falsas não é um fenômeno novo, mas a propagação atingiu a níveis jamais vistos na história. Os brasileiros contam com milhares de celulares e os alcances das campanhas de fake news é muito grande. O professor cita que o livro de George Orwell, batizado de 1984, mostra o poder dessas informações falsas sobre as pessoas.

Na obra, o autor destaca que o poder de manipulação do governo era feito pelo “Ministério da Verdade”, que atenderia as demandas de divulgar ideologias e informações falsas que interessavam a grupos em específico.

O professor explica que toda e qualquer informação comprovada pela ciência pode tentar ser desmascarada, falseada ou manipulada para fins ideológicos e políticos. Na visão do historiador, esse é o maior problema já que há dificuldade de levar informação adequada para fazer um combate sério a uma pandemia que está matando tantas pessoas no Brasil.

Realidade ameaçadora

Desinformação prejudica a saúde pública como um todo, diz especialista. Foto: Agência Brasil

De acordo com o professor, a desinformação traz riscos graves à saúde pública como um todo. Segundo Djalma, no momento em que medicamentos sem comprovação científica são receitados ou quando um goveno menospreza a gravidade da pandemia, os impactos sociais podem ser gigantescos.

“A grande questão é que as medidas restritivas trouxeram resultados surpreendentes”, afirma

O especialista destaca que os números mostram que quando as restrições acontecem há a queda no contágio e no número de mortes. Para salvar a economia, Djalma pede atenção para a necessidade de se promover políticas públicas eficientes.

“Na própria ditadura militar, militares no poder fizeram campanhas de vacinação muito eficientes. Foi no próprio governo militar que a varíola foi erradicada e nós até ganhamos um selo de prestígio que garantia propaganda positiva aos militares”, diz

Djalma ressalta que a história mostra que com campanhas efetivas, políticas públicas e decretos alinhados, toda a população vai se beneficiar. “Nós estamos engatinhando e se vacilarmos teremos uma terceira onda facilmente. Precisamos entender que vacina é um direito coletivo”, reforça o especialista.

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