Já imaginou: você guarda dinheiro por um tempo e resolve confiar em um profissional que se mostra entendido do assunto para investir. A proposta nem é de “mundos e fundos” e lucros excessivos, mas sim de certa segurança no investimento. Acontece que, em determinado momento, esse profissional passa a não cumprir com o básico do trato: devolver o dinheiro quando fosse solicitado.
Um profissional de Curitiba, suspeito de aplicar golpe em pelo menos 12 pessoas, está sendo investigado pela Polícia Civil. Nos meses de março a outubro de 2023, as pessoas começaram a perceber que foram vítimas de um golpe financeiro, e a casa de vidro do tal profissional começou a quebrar. Juntas, as perdas podem ultrapassar os R$ 2 milhões.

Entre as vítimas, existem pessoas de várias classes sociais como médico, representante de laboratório de medicamentos, etc. Todas as pessoas perderam valores altos, sempre passando dos R$ 100 mil.
A Banda B conversou com duas dessas vítimas, que pediram para não serem identificadas. Uma delas é um advogado que perdeu ao todo R$ 319 mil. Ele fez nove aportes, o primeiro em agosto de 2021 e o último em janeiro de 2023.
“Conheci ele dando aulas de inglês, sempre se apresentou como professor e consultor financeiro. Meio que oferecia os trabalhos de consultor financeiro. Eu falei que também operava na bolsa de valores, tinha alguns prejuízos e ele falou que fazia para várias pessoas, prometeu tentar salvar o prejuízo. Começou fazendo operações, reportava todo mês os resultados, nunca reportou nenhum prejuízo. Chegou determinado momento, eu falei que queria resgatar o valor investido, aí começaram várias desculpas, saúde, problema no computador, mensagem que ele tinha trocado com gerente de banco – que descobri que eram falsas. Vi que se tratava de um golpe”.
contou o advogado, que perdeu R$ 319 mil.
Segundo o advogado, o que chama a atenção é que a proposta do suspeito não era de grandes lucros, mas sim de certa segurança ao fazer o investimento.
“Não era nada absurdo, porque a gente conhece as condições de mercado. Era um juros de bolsa de valores, que é um pouquinho mais que o CDI. Dava a conotação de veracidade para o negócio, com juros compatíveis com B3”.
disse o advogado.
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Ao ser cobrado, na tentativa de ganhar tempo, o suspeito sempre tentava dar uma desculpa, colocava prazo para devolução dos valores, mas não os cumpria.
“Fiz o boletim de ocorrência e começaram as investigações. Viram que tinha outras vítimas e orientaram a fazer o BO. As desculpas eram sempre as mesmas, o mesmo modus operandi. Basicamente se trata de uma pirâmide financeira: pegava dinheiro com uma pessoa, às vezes pagava, às vezes não”.
contou o advogado, que perdeu R$ 319 mil.

Vergonha pelo dinheiro perdido
Outra vítima é um economista aposentado, que perdeu R$ 100 mil. Com vergonha, ele também pediu para não ser identificado.
“Eu tenho vergonha de ter caído num golpe, sendo que a gente se considera um pouco esclarecido. Cair num golpe de um cara assim, a gente ouve falar tanta coisa, já viveu um certo tempo, dá vergonha mesmo”.
contou o economista, que perdeu R$ 100 mil.
O economista contou que conheceu o suspeito através de um amigo em comum, que também atuava com mercado financeiro. Primeiro, o homem buscou se aproximar e criar um laço de amizade, só depois agiu.
“Em determinado momento, ele se colocou como consultor financeiro, mostrou telas de aplicação, que sabia atuar no mercado financeiro, ele dizia que conhecia e queria formar um clube de investimento. Eu tinha um dinheiro guardado, que recebi quando me aposentei, resolvi investir”.
disse o economista.
Em princípio, o homem dava retorno e, segundo a vítima, nunca trazia informações negativas. Nos primeiros meses chegou até a devolver o rendimento.
“Passou-se o tempo, uns seis meses mais ou menos, ele parou de fazer as devoluções e aí eu comecei a cobrar. Aí começou um monte de desculpas, sempre com histórias convincentes. Em determinado momento comecei a perceber algumas coisas que não eram muito convincentes e comecei a cobrar”.
contou o economista, que perdeu R$ 100 mil.
No meio do caminho, o economista passou por um problema de saúde familiar, com a esposa internada, e se viu ainda mais frágil. Mas quando a esposa melhorou, voltou a cobrar, e percebeu que uma amiga que ele indicou se afastou dele.
“Um dia ela deu retorno e falou que o suspeito não era quem achávamos que ele era. Ele deu um golpe nela”.
lembrou o economista.
Por conta das cobranças, o homem chegou a simular uma tentativa de suicidio. Mas não convenceu.
“Ele disse que preferia morrer porque não conseguia devolver o dinheiro das pessoas. Ele é um autêntico vilão de novela, de filme. Dissimulado, pilantra, manipulador, eu só pensei que existia em filme. Mas é ele. Eu estava perdendo a minha esposa e ele tentando tirar mais dinheiro”.
contou o economista, que perdeu R$ 100 mil.

Investigações
A reportagem apurou que já há um inquérito aberto, em andamento no 6º Distrito, onde inclusive o suspeito já foi ouvido.
A investigação, ainda em andamento, apura os crimes de estelionato, apropriação indébita, falsidade ideológica, falsificação de documento e associação criminosa, com possível participação de sua mãe e do padrasto neste esquema fraudulento.
A Banda B conversou com o suspeito, que disse que antes de dar a versão iria consultar o advogado. O espaço segue aberto.
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