O advogado André Portugal, que defende quase 50 vítimas do “Sheik dos Bitcoins”, explicou à Banda B como seria o “modos operandi” da empresa ligada ao curitibano Francisley Valdevino da Silva, alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) ao longo desta quinta-feira (6).

Segundo Portugal, a partir do momento em que os clientes buscavam aportar quantias pelo aluguel das criptomoedas, a empresa “convertia o Real em um lixo”.

Sheik dos Bitcoins criptomoedas
O curitibano Francisley Valdevino da Silva, que é chamado de “Sheik dos Bitcoins”. Foto: Reprodução/Redes Sociais

Portugal destacou que a empresa, inicialmente, apresentava um mercado sério aos clientes com a operação de criptomoedas conhecidas – como as Bitcoins, por exemplo. Segundo o advogado, essas moedas apresentam “lastro e liquidez” ou, em outras palavras, possuem atratividade para possíveis negócios.

O problema, de acordo com o entrevistado, teria começado a partir de dezembro de 2021. Ele acusou a empresa do “Sheik dos Bitcoins”, que é suspeito de comandar uma série de fraudes com clientes no Brasil e nos Estados Unidos, de criar as próprias criptomoedas e vinculá-las aos contratos de aluguéis dos proprietários.

“Só que o problema era que essas moedas criadas não tinham lastro e nem liquidez. Então, basicamente, você estava convertendo seu Real em um lixo. Ninguém quer comprar, ninguém quer vender, e você pode estar sujeito a este golpe, a esta fraude, que foi exatamente o que aconteceu”, iniciou.

Segundo o apurado, o “Sheik dos Bitcoins” alugava criptomoedas com a promessa de lucros mensais que poderiam alcançar até 20% do capital investido. A organização criminosa teria movimentado, no Brasil, cerca de R$ 4 bilhões pelo sistema bancário oficial.

Mas, conforme ressaltou o advogado, a situação se agravou na medida que o lucro prometido pela empresa, que tinha o objetivo de suportar o pagamento dos rendimentos aos clientes, deixou de ser repassado a eles.

“Então, as pessoas passaram a ser lesadas no momento em que o grupo criou a própria criptomoeda e passou a vincular os contratos a elas. Moedas que não tinham lastro, liquidez. Aí as inadimplências começaram, o bolo foi crescendo e culminou nesta operação da PF”, explicou.

E para onde iria o dinheiro dos clientes?

Ao ser questionado sobre a situação acima, a partir do momento que os advogados começaram a ser contratados para verificar possíveis irregularidades, Portugal disse que fez uma pesquisa e descobriu que Silva teria cerca de 90 CNPJs no próprio nome.

Segundo o advogado, o dinheiro dos clientes era alocado nessas empresas.

“Basicamente, ele tirava patrimônio dessas empresas oficiais e alocava esse patrimônio nessas holdings. E ninguém sabia disso. Então a gente fez essa pesquisa e descobriu. Na Justiça, conseguimos bloquear bens dessas empresas que formalmente não faziam parte desse grupo.

Daí, os resultados começaram a vir e, em paralelo, a inadimplência continuava. As empresas, já que os nossos principais clientes são PJs, pessoas que investiam, aqueles que foram lesados de fato por esse caso, começaram a cair na real e perceber que, de fato, tinham que agir rápido”, detalhou.

Como estão os clientes?

Portugal ainda revelou que muitas pessoas ficaram desesperadas e perplexas após descobrirem a operação da Polícia Federal. Muitas delas, segundo o advogado, chegaram alocar o todo o dinheiro que possuíam junto aos contratos das criptomoedas.

Foto: TRF-4

“Não são todas, são muitas que não passam por esta situação. Mas tem muitas que, de fato, vivem em situações difíceis. A esperança de recuperar estes valores é o que as movem. O importante é agir mais rápido que os demais porque há muitos credores, mas, certamente, não há bens para todos. Então, quem ajuíza e obtém as penhoras antes, tem, como regra, uma certa preferência para cobrar os valores”, disse ele.

O advogado disse ainda que cerca de R$ 100 milhões, aproximadamente, é o valor que ele e seus colegas advogados já conseguiram de penhoras/bloqueio de bens desta empresa/grupo empresarial. Por sua vez, o valor total de prejuízo às vítimas está na casa dos R$ 130 milhões.

Operação PF

O curitibano Francisley Valdevino da Silva, que comandava uma organização suspeita de praticar fraudes com criptomoedas no Brasil e nos Estados Unidos, foi alvo da Operação Poyais deflagrada, na manhã desta quinta-feira (6), pela PF.

Segundo a Polícia, a ação buscou o aprofundamento da apuração da prática de crimes contra a economia popular e o sistema financeiro nacional, de estelionato, de lavagem transnacional de dinheiro e de organização criminosa.

Cerca de 100 policiais federais e servidores da Receita Federal cumprem 20 mandados de busca e apreensão, expedidos pela 23ª Vara Federal de Curitiba. Além disso, houve a decretação judicial de sequestro de imóveis e bloqueio de valores. As ordens judiciais são cumpridas nas cidades de Curitiba/PR, São José dos Pinhais/PR, Governador Celso Ramos/SC, Barueri/SP, São José do Rio Preto/SP e Angra dos Reis/RJ.

Leia mais sobre a operação feita pela PF.

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