A família ganhadora da Mega-Sena do ano de 2010, que se envolveu em uma confusão no condomínio que mora, na Cidade Industrial de Curitiba, na última semana, alega que sofreu preconceito racial e presenciou protecionismo por parte da Polícia Militar (PM). O advogado agredido pelos filhos do casal milionário é ex-policial militar e dez viaturas da Polícia Militar (PM) ficaram à disposição da confusão, que durou cerca de duas horas. Segundo a família, o advogado não admite morar próximo a uma família negra, que não trabalha.

 

Solene foi agredida pelo advogado com um soco na boca, segundo ela. Foto: AN/Banda B

 

“Macacos, encardidos, negrinhos sujos, favelados. Todos esses xingamentos foram ditos na frente de todos esses policiais e nada foi feito contra ele. Meus filhos não tem razão por ter agredido esse cidadão preconceituoso, mas toda essa injúria racial que sofremos não foi dita em lugar alguma”, disse Solene Tomaz Rosa, a mãe dos jovens presos na confusão, que desmaiou após ser agredida pelo advogado – segundo ela –  com um soco na boca. “Acordei na ambulância e também nada foi feito contra ele”, critica.

A versão da família foi dada à Banda B no escritório do advogado que representa a família, no bairro Batel, na manhã de hoje (24). Ainda com os lábios cicatrizando, Solene contou a versão da família para a confusão no condomínio. “Meu filho estava completando 18 anos e fizemos uma festa surpresa para ele, com alguns amigos. Isso aconteceu no salão de festa do condomínio. Depois de um tempo, reclamaram do som alto, o síndico foi lá, meu marido falou com ele, foi reduzido o volume, concordamos porque, realmente, era cerca de onze da noite”, disse.

Solene em foto do arquivo pessoal no dia seguinte à confusão

Entretanto, segundo ela, em menos de dez minutos, várias viaturas chegaram no local. “Quando a polícia chegou, resolvemos acabar com a festa. Meu marido assinou um documento, a polícia entendeu, ficamos todos conversando ali na frente, estava o síndico junto. De repente, esse cidadão, que diz ser policial, chegou dando de dedo e xingando, dizendo que ‘ou era ele ou éramos nós no condomínio’. Ele nos xingou de ‘macacos, de negros sujos e malditos, que deveríamos voltar da favela onde saímos, que deveríamos subir no caminhão de banana em que caímos. Ele ameaçou a gente, ali na frente de todos, dizendo que ia dar dois tiros na cara do meu marido, se aquela festa não acabasse, que já tinha acabado já há algum tempo”, completou a mulher.

Durante a confusão, ela foi agredida com um soco na boca pelo advogado. “Eu estava pedindo calma, que eles fossem embora que já estava tudo resolvido, que a festa tinha terminado, que eles poderiam ir embora, mas senti quando ele me deu um surro na boca. Desmaiei e acordei um tempo depois. Nisso, meu filho empurrou esse homem, para que ele se afastasse. Os colegas dele viram e fomos para cima dele. Não foram nada de trinta, foram apenas os amigos dele. Não estou dizendo que eles fizeram certo, mas toda essa injúria racial que sofremos não foi dita em lugar alguma”,

Preconceito

Para Solene, o preconceito que alguns moradores têm contra eles é nítido no dia a dia. “Nunca tínhamos feito festa naquele salão. Eles fazem questão de dizer que não fazemos parte daquele condomínio. Olham para a gente com nojo, com preconceito. O fato de estarmos ali incomoda eles, mas é nosso direito. Com ou sem prêmio, é direito das pessoas morarem onde querem, afinal, somos trabalhadores. Não somos marginais”, critica.

Segundo a milionária, pessoas brancas podem presentear os filhos, viajar, optar por não trabalhar sem serem julgados. “Meus filhos não podem ter um carro bom porque são negros? Meus filhos não podem ter uma roupa de marca? Hoje, temos condições de estar onde estamos, não foi fazendo nada errado. Viemos de um outro condomínio que nunca tinha acontecido absolutamente nada disso. Por que nesse nós não podemos? Por que ali não? Ali, sim. Eles não são melhores que nós”, defende.

Antes do prêmio

Antes de embolsar a quantia milionária de R$ 47 milhões, a rotina da família era praticamente igual a de muitos trabalhadores. Ela era confeiteira e ele exercia a profissão de padeiro, por anos a fio. “Saíamos de casa às 4 horas da manhã para trabalhar. Conheci meu marido no ônibus porque saíamos no mesmo horário para ir trabalhar, nem amanhecido tinha ainda. Trabalhei vinte anos nesse lugar e até hoje temos um ótimo relacionamento com nossos ex-patrões. Trabalhamos a vida toda”, finalizou.

Outro lado

A Banda B deixa o espaço aberto para a manifestação do vizinho agredido e também para a Polícia Militar em relação as denúncias feitas na reportagem.

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