“É o fast food do sexo!”

A sexóloga basca Laura Morán refere-se assim à promessa que está em voga hoje em dia de atingir o orgasmo feminino em dois minutos, principalmente com os vibradores para clitóris.

Em um momento em que os números apontam para um aumento nas vendas de brinquedos sexuais, conversamos com a autora do livro Orgas (mitos) sobre como esses gadgets realmente são revolucionários e o impacto que podem ter em nossa sexualidade.

A sexóloga basca Laura Morán – Divulgação

“Na verdade, não devemos ter pressa, a menos que você tenha que atingir o orgasmo em dois minutos porque sua casa está pegando fogo”, disse ela em entrevista à BBC News Mundo, com seu estilo franco e direto.

Laura Morán – Não poder sair, trabalhar em casa e economizar tempo no transporte fizeram com que durante o confinamento muitas pessoas e casais, aqueles que reuniam as condições adequadas de espaço e privacidade, cuidassem da parte sexual de uma forma que antes não podiam.

Agora, nos países que saíram da quarentena, gostaria de acreditar que esses casais continuam encontrando tempo para dedicar mais atenção ao prazer.

Se eles estão conseguindo, não tenho certeza.

Eu mesma estou sobrecarregada de trabalho. Portanto, suspeito que trouxemos os antigos fatores estressantes para o novo normal.

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BBC – Um dos brinquedos mais vendidos em vários países são os conhecidos sugadores. Embora seja um produto que está no mercado há anos, recentemente cresceu de maneira significativa. Por que isso ocorreu? É marketing puro?

Morán – Eu sou daquelas que preferem chamá-los de estimuladores, porque senão as pessoas imaginam que vão fazer um slurp, como uma espécie de ventosa ou aspirador.

Na verdade, mesmo antes do boom desses aparelhos, havia estimuladores clitorianos externos que foram acoplados a um vibrador tradicional projetado para ser introduzido.

E havia também o que em minha casa chamamos de “bolinhas do amor”, vibradores do tamanho de uma pilha, bem pequenos, para estimular a glande do clitóris.

Os fabricantes de vibradores decolaram em uma campanha brutal, aproveitando o fato de que as mulheres têm cada vez menos medo de falar sobre masturbação.

Esse sucesso, não tenho dúvidas, foi puro marketing.

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BBC – Coincide, como dizem, que muitas mulheres começaram a falar com naturalidade e publicamente sobre a masturbação. Existem até mesmo aqueles que afirmam que uma mudança de paradigma está ocorrendo. O que você acha?

Morán – Estou de acordo. Estamos diante de uma possível mudança de paradigma, mas de algo que começou há muitos anos.

Na revolução sexual dos anos 1960 e 70, a reivindicação do prazer sexual feminino começou a ser incluída na equação.

O que acontece é que se reivindicava o prazer feminino desfrutado graças ao trabalho do pênis de borracha ou do parceiro. Tínhamos o direito de sentir, mas dependíamos desse prazer de outra pessoa.

Agora, com os brinquedos sexuais que não têm forma fálica e não penetram, que são feitos para o clitóris, podemos falar de uma mudança de paradigma.

E esse é o reflexo de uma mudança social e da luta dos movimentos feministas.

Se a sociedade não estivesse preparada para abraçar esses tipos de brinquedos, eles teriam sido um fiasco.

As pessoas que promovem os vibradores garantem que com eles você pode chegar ao orgasmo em dois minutos. Não está claro para mim se isso é bom ou ruim, se contribui para a revolução sexual das mulheres ou apenas o contrário.

O tempo deve ser deixado de fora da equação das relações sexuais. Se você alcançar o orgasmo em dois minutos, maravilhoso. Se você fizer isso em 20, ótimo. Se você não tiver sucesso, terá na próxima vez.

Parece-me um erro vender o orgasmo em dois minutos, principalmente para aquelas mulheres que não tiveram a oportunidade de experimentar sua sexualidade sozinhas.

Isso as leva a ter essa expectativa e a se perguntar: “O que acontece comigo, já que no anúncio eles dizem…? O que acontece comigo, já que minha amiga disse… e eu não consigo?”

Acho que ter objetivos de duração, frequência, número de orgasmos é sempre contraproducente, porque cada pessoa é diferente. Existem tantas sexualidades quanto pessoas, e nisso também há os orgasmos.

BBC – Ser capaz de atingir o orgasmo rapidamente é algo tradicionalmente atribuído aos homens. Está se tornando evidente que o corpo feminino tem uma capacidade de prazer que não era conhecida? Ou será que o mito de que as mulheres precisam de preliminares está sendo quebrado?

Morán – As mulheres não demoram para chegar ao orgasmo. Na verdade, podemos chegar lá em média em quatro minutos, se fizermos da melhor maneira.

E tivemos a capacidade de experimentar esse prazer antes do vibrador.

Não quero tirar o mérito dele, mas também não quero que ele leve toda a fama porque isso não corresponde ao aparelho.

Sobre as preliminares, o problema não é o que elas abrangem, que vai desde um convite para jantar até o sexo oral, mas o que esse conceito implica.

A preliminar é definida como o aquecimento que a mulher precisa para desejar o ato sexual, a penetração. Mas a penetração não é a técnica pela qual uma mulher atinge o orgasmo com mais facilidade.

Se alguém da Black & Decker — marca famosa de brocas e furadeiras — está tendo relações sexuais comigo por 30 minutos e o clitóris não é estimulado, não vou chegar ao clímax com ou sem preliminares.

As mulheres não precisam de preliminares. O que precisamos é praticar técnicas ou posições sexuais que achamos prazerosas.

O sexo oral não é uma preliminar, é sexo. Masturbar-se não é uma preliminar, é sexo. A relação sexual é mais uma técnica.

Não acho que o prazer rápido seja uma vantagem para vender mais.

Na verdade, não devemos ter pressa, a menos que você tenha que atingir o orgasmo em dois minutos porque sua casa está pegando fogo.

No caso dos homens, chegar ao clímax em dois minutos é até mal visto. É considerada uma ejaculação precoce.

Leia a entrevista completa da BBC AQUI