Quando a Covid-19 já atacava grande parte do mundo, mas ainda era novidade no Brasil, o presidente do CRM-PB (Conselho Regional de Medicina da Paraíba), Roberto Magliano de Morais, 56, tornou-se um dos primeiros infectados com o novo coronavírus no país.

No dia 12 de março, Morais foi a uma cerimônia de posse de uma comissão de ética hospitalar em uma maternidade de João Pessoa. Quatro dias depois, uma das pessoas presentes no evento morreu de Covid-19 e ele passou a apresentar os sintomas da doença, com dores de cabeça e no corpo, febre recorrente de 38ºC, falta de apetite, moleza e ausência de paladar.

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

“No sábado seguinte, fiz uma tomografia que mostrou uma lesão bem característica no pulmão direito. Aí fiquei mais preocupado, enquanto paciente e enquanto médico, com as implicações dessa doença”, diz. “É uma doença devastadora, perigosíssima, e não temos conhecimento para lidar com ela. Estamos aprendendo e só teremos daqui a alguns anos.”

Após procurar orientações de infectologistas, ele fez novos exames que comprovaram a doença viral e mostraram comprometimento na coagulação sanguínea e problemas em outros órgãos.

“Meio que desesperadamente, mesmo sem evidências, eles receitaram cloroquina e azitromicina, e eu melhorei dos sintomas. Hoje posso dizer que não precisei ser internado, mas a doença serviu para eu refletir sobre muitas coisas que estão ocorrendo no mundo. Vamos ter de nos reinventar como médicos, cidadãos e pessoas, sermos mais solidários”, comenta.

O médico ginecologista diz ter ficado preocupado porque no início de seus sintomas ele havia mantido contato com a esposa, Ana Karla, e os filhos Roberto Filho e Giulia. Mas os exames realizados por eles deram negativo.

“A maior fase de transmissão é a pré-sintomática, antes de manifestar os sintomas, quando a pessoa não sabe que está com a doença. Minha mulher e meus filhos deram negativo, mas tenho desconfiança desses testes rápidos. Não sei se são suficientes.”

Já recuperado, Morais pede que os governos não deixem os médicos e enfermeiros da linha de frente da briga contra o novo coronavírus sem equipamentos de proteção. E aproveita para deixar uma mensagem otimista para a população.

“Embora não se saiba o que vai acontecer, devemos acreditar na ciência. E devemos ter otimismo, porque a Covid-19 é uma doença que pode ser enfrentada.”