“Misericórdia, estou com corona”, concluiu a corretora de imóveis Gabrielle Rodrigues Almeida dos Santos, 18, ao ter uma crise de falta de ar enquanto trabalhava, no início da semana passada, em Araras (a 168 km de São Paulo).

“Comecei a sentir muita ansiedade, muita falta de ar. Até mandei uma mensagem para a minha mãe perguntado se eu poderia ir ao hospital, que era ali perto, para ver se eu estava com os sintomas do coronavírus”, conta. “Aí, minha mãe me acalmou e disse que era só a falta de ar por causa do meu transtorno de ansiedade”, diz Gabrielle, que acabou não indo ao hospital.

A dificuldade para respirar, associada a febre e tosse, é um dos principais sintomas da Covid-19, doença causada pelo Sars-CoV-2, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde). O problema é que a falta de ar também é um dos principais sintomas dos transtornos de ansiedade.

“Nesses casos, a falta de ar é mais episódica, não é constante nem piora com pequenos esforços”, explica Márcio Bernik, psiquiatra e coordenador do Programa de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo).

 

(Foto: Aloisio Mauricio /Fotoarena/Folhapress) 

 

“Se você está com um problema realmente físico, como a Covid-19, você vai sentir exaustão ao subir alguns degraus de escada, por exemplo. E a grande diferença, que falo para os meus pacientes, é que a ansiedade não causa febre. Então a ausência de febre, de um modo geral, pode sinalizar que a sua falta de ar é mais associada à ansiedade, especialmente no caso de um paciente que já tem diagnóstico de um transtorno ansioso”, afirma.

O psiquiatra destaca que, nas crises de síndrome do pânico, que costumam durar até 30 minutos, a respiração fica mais curta e pesada. “As pessoas falam até em ‘fome de ar’, de tanto que o paciente fica desesperado com suspiros ou respirações profundas, tentando buscar oxigênio e expelindo dióxido de carbono. Isso até, para muitos médicos, é uma das etiologias do transtorno do pânico, uma alteração na percepção do CO2 do sangue pelos receptores químicos do cérebro”, explica.

Gabrielle diz que sofre de transtorno de ansiedade há cinco anos e faz terapia de barras de access, uma técnica terapêutica corporal. Ela tem evitado acompanhar os noticiários sobre a pandemia. “Fico agitada e me sinto muito mal emocionalmente ao ver tantas notícias sobre coronavírus”, revela.

Para Márcio, é importante distanciar-se um pouco do excesso de informação. “Evite aquele ‘rush’ de adrenalina do noticiário hiperdramático. Procure um pouco de informação calma e segura em lugares como os canais de WhatsApp disponibilizados pelo Ministério da Saúde e pela OMS”, diz.

Paulo Lima, 40 anos, editor de um site de música, diz que sofre de transtorno de ansiedade e depressão há cinco anos e toma medicação prescrita por seu médico.

“A quarentena está sendo horrível”, conta. “Estou tendo picos de ansiedade muito altos. O que sempre me ajudou foi correr, só que agora estou confinado. Então estou tentando fazer algumas coisas em casa, como ioga online, alongamento e alguns exercícios que dá para fazer dentro de casa”, conta.

“Acho que o segredo é tentar manter o foco em alguma coisa. Quando a ansiedade bater, você já tem que ter uma rotina pronta para tentar contornar isso. Tenho uma filha de 10 anos, e cuidar dela me ajuda a tirar o foco daquilo [com] que a minha cabeça está tentando me enganar.”

A rotina, segundo Márcio, é um salva-vidas durante a quarentena. “Ter um horário para dormir e para acordar é muito importante. Quarentena não é férias. Pelo contrário. Agora é o momento de agir como uma família americana, em que o pai tira o lixo, um filho lava a louça, o outro filho enxuga, a mãe põe a mesa, e assim nós vamos fazendo rotinas pessoais e familiares.”

Elisa Zaneratto Rosa, psicóloga e professora de psicologia social da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), ressalta que quem está de quarentena ao lado de uma pessoa ansiosa deve estar atento para as situações que a desestabilizam.

A psicóloga indica ações que tirem o foco da pandemia, como oferecer ajuda no home office e sugerir um programa de lazer ou um exercício em que as pessoas fiquem juntas e se distraiam. “Então acho que tem uma questão de poder identificar o que ajuda aquela pessoa a sair da crise e favorecer isso para ela.”

Para quem tem um amigo ou parente que sofre com o transtorno mas está distante, Elisa pondera que a preocupação em excesso pode gerar mais ansiedade.

“A gente deve oferecer ajuda sem deixar a pessoa ansiosa. Porque, às vezes, a gente fica querendo conferir o tempo inteiro como a pessoa está, e isso pode produzir uma ansiedade, um medo, que de repente a pessoa nem está sentindo, nem percebeu ainda”, observa.

Mas se o ansioso não estiver se sentindo bem, é possível acionar redes de proteção. “Agora, eu não posso estar perto, mas sei que tem uma vizinha que pode ajudá-lo em alguma coisa, sei de alguém que está lá de retaguarda e posso mediar esse contato. Isso é muito importante.”