O isolamento, o desemprego e a desorganização de rotinas causados pela pandemia estão levando a um aumento no consumo de álcool em diferentes locais do mundo. No Reino Unido, a organização British Liver Trust reportou um aumento de 500% na quantidade de ligações recebidas por seu centro de apoio ao alcoolismo desde o início da quarentena, em março.

No Brasil, uma pesquisa sobre comportamentos realizada pela Fiocruz entre abril e maio identificou, na época, um aumento médio de 18% no consumo de álcool, entre homens e mulheres. A faixa etária com o maior aumento (25%) era a de 30 a 39 anos.

Foto Pixabay

“O aumento no consumo de álcool foi associado à frequência de se sentir triste ou deprimido: quanto maior a frequência, tanto maior o aumento no uso de bebida alcoólica“, dizia a pesquisa.

A seguir, a BBC traz relatos de britânicos a respeito das dificuldades em enfrentar a dependência de álcool em plena pandemia.

Susan (nome fictício): ‘Meu marido bebe até seis garrafas de vinho por dia’

“Meu marido e eu estamos juntos há 19 anos e ele é um homem bom. Não escolheria (beber) se tivesse essa escolha.

Quando ele bebe, é como ‘o médico e o monstro’. Sóbrio, ele é gentil, generoso, leal, engraçado, amoroso. Assim que pega uma bebida, sua personalidade vira, se torna o oposto.

Ele nunca foi fisicamente violento comigo, mas é mentalmente muito abusivo e muito destrutivo daquilo que o rodeia.

Ele bebe até vomitar, quando obviamente já não consegue mais continuar bebendo. Ele vai de uma garrafa de vinho por dia até seis garrafas por dia, se não mais, e daí temos de chamar os paramédicos e ir ao hospital.

Quando ele volta do hospital, fica sem beber por cerca de um mês e meio. E daí começa tudo de novo.

Quando ele está bêbado, tenho que mantê-lo longe de objetos afiados, esse tipo de coisa. É como se eu estivesse cuidando de uma criança pequena.

Tivemos um episódio durante o lockdown em que a polícia apareceu. Ele estava chamando uma ambulância por telefone e precisou me dar o aparelho porque não conseguia nem falar. A telefonista o ouviu gritando e chamou a polícia.

Claro que a reabertura dos pubs dificultou tudo, agora ele está lá bebendo. E quem bebe muito não lembra de manter o distanciamento social.

Sei que não tenho controle sobre o alcoolismo dele, já aceitei que não há nada que eu possa fazer.

É a minha escolha. Só porque ele está doente não significa que eu deva deixá-lo. Aproveito os momentos em que ele está sóbrio, porque ele é o amor da minha vida.”

Tracy (nome fictício): ‘Consegui uma licença médica, para poder passar a quarentena bebendo’

“Com o lockdown (quarentena obrigatória no Reino Unido), pensei que todos fôssemos morrer, então fiquei bêbada durante uma semana inteira.

Me protegia para não perder meu emprego. Sabia que ia beber, então liguei para o trabalho (avisando) que eu tinha uma licença médica. A covid-19 era um bom acobertamento: ninguém está te vendo, dá para fazer tudo pelo telefone.

Como alcóolatra, sou muito manipuladora. E sou uma ótima mentirosa quando estou bêbada.

Comprei seis garrafas de vinho, uma de vodca e uma de conhaque. Eu só queria morrer. Realmente queria me matar. Me sentia um fracasso completo, e que não havia nenhum caminho adiante.

Mesmo enquanto bebia, tampava o meu nariz – eu nem gostava do sabor do álcool. Queria só beber rápido para cair no esquecimento.

Eu não tenho nenhum plano B. Ninguém vai me socorrer. Não tenho para onde me virar; sequer consigo ir à igreja aqui ao lado.

É difícil, mas uma vez que você aceita algo, que não pode mudar, tem que trabalhar com o que você tem.

Há muita esperança lá fora, tanta vida a ser vivida sem álcool ou drogas. E tudo o que sobrou na minha lista é a prisão ou a morte, e não quero nenhuma delas. Já perdi empregos por causa dele (álcool), perdi meus filhos, minha casa e minha dignidade.

Durante o lockdown, perdi a cabeça durante alguns dias. É o pior tipo de situação para qualquer pessoa, (mas) principalmente para alcóolatras, viciados e pessoas com problemas de saúde mental, na hora de se isolar.

Mas consegui retomar meu rumo. Estou sóbria há dois meses. A depressão ainda persiste. Se eu não beber, consigo lidar com ela. Mas, no minuto em que pego um drinque, já era.

Passo muito tempo em casa sozinha, e isso é difícil. Já tive recaídas antes, mas hoje em dia eu telefono para um amigo para conversar, eu leio. Graças a Deus a biblioteca foi reaberta, foi a minha salvação.

Alguns encontros dos Alcóolicos Anônimos ocorreram, mas restritos a 20 pessoas, por questões sanitárias. Eles estão tendo que ir contra uma de suas poucas tradições, que é a de não recusar (a entrada de) ninguém.

No começo (da pandemia), quando eu tive uma recaída, tinha na cabeça que todos íamos morrer. Agora já tenho outra perspectiva, e estou de volta no meu caminho.”

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