Eles não se conhecem, mas as histórias do empresário Jair Dias e do médico Tony Tannous Tahan se conectam através da cirurgia de hérnia. Ambos acreditavam que o procedimento ainda era invasivo como antigamente, mas descobriram que a tecnologia mudou esse cenário. Com técnicas por vídeo e cirurgia robótica, a recuperação é mais rápida, menos dolorosa e quase sem cicatrizes. E com o Brasil agora integrado ao banco de dados americano sobre hérnias da parede abdominal, a tendência é de avanços ainda maiores.

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Foto: Ilustrativa.

O empresário Jair Dias, que passou por uma cirurgia de hérnia há seis meses, é um exemplo do sucesso desse novo modelo cirúrgico. “Eu já tinha feito uma cirurgia robótica para próstata, por causa de um início de câncer. Depois veio essa hérnia, do mesmo lado. Pela avaliação, o médico viu que ela já estava grande e não dava mais para esperar”, relembra.

A experiência com a nova cirurgia foi surpreendente. Jair contou que ficou apenas um dia no hospital, e nem parecia ter saído de uma cirurgia.

“No dia seguinte eu saí [de alta], sem nenhuma sequela, nenhuma dor. Dois dias depois eu já estava andando tranquilamente. Eu indicaria para qualquer pessoa”

afirma o empresário Jair.

Jair destaca a diferença em relação à cirurgia tradicional, que já havia feito no passado. 

“Aquela era aberta, com pontos e recuperação mais lenta. Agora, com a robótica, só dois furinhos, quase não parece nada. Veio pra ficar”

avalia Jair.
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Foto: Ilustrativa.

A praticidade da cirurgia minimamente invasiva também conquistou o médico Tony Tannous Tahan, de 51 anos, que virou paciente após conviver por mais de 15 anos com uma hérnia inguinal bilateral.

“Ela não incomodava muito, mas estava aumentando. Acabei adiando por receio. Mas a cirurgia foi tão tranquila que hoje penso: por que não fiz antes?”

conta o médico Tony Tahan.

Tony passou pelo procedimento há oito meses e saiu do hospital no mesmo dia. 

“Foi por vídeo, com um corte pequeno no umbigo e dois laterais, todos com menos de um centímetro. Em um mês e meio, minha vida já estava normal. É um privilégio viver essa era em que podemos tratar problemas sérios com mínima invasão”

afirma Tony.

Os dois pacientes ressaltam a importância de confiar na evolução da medicina. 

“Hoje tudo é moderno, desde o consultório do dentista até a sala de cirurgia. A tecnologia está aí e facilita muito. Se não fosse assim, eu teria um corte enorme na barriga”

diz Jair. 

Para Tony, a lição é clara: “Mesmo sendo médico, a gente também sente medo, mas é preciso aproveitar os avanços que temos. É seguro, eficaz e muda a vida da gente pra melhor”.

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Foto: Shutterstock.

Avanço na tecnologia

Embora pareça uma doença silenciosa, a hérnia afeta cerca de 25% da população brasileira. A cirurgia minimamente invasiva para correção de hérnias, especialmente com apoio da robótica e técnicas por vídeo, representa um marco na medicina moderna, oferecendo aos pacientes mais qualidade de vida e menos tempo de recuperação — sem abrir mão da segurança.

Por iniciativa da Sociedade Brasileira de Hérnia e Parede Abdominal (SBH), os cirurgiões do Brasil terão acesso ao banco de dados americano para levantamento e inclusão de informações sobre as cirurgias de tratamento das hérnias da parede abdominal. A ACHQC (Abdominal Core Health Quality Collaborative) ou Central de Colaboração de Qualidade de Saúde Abdominal é um programa iniciado nos Estados Unidos (EUA) que agora conta com a contribuição de seis cirurgiões de três estados brasileiros. 

Gustavo Soares, presidente da SBH, ressalta que o Brasil é o primeiro país do mundo a integrar a base de dados dos EUA sobre cirurgia de hérnias.

“O objetivo é registrar todos os resultados de hérnias de cirurgiões voluntários, para termos um mapa e saber o que realmente está acontecendo com a doença. Desde 2014, esse banco de dados tem sido aprimorado e, em 2023, depois de muitas negociações, o Brasil foi aceito como membro desse banco. Nós somos a primeira entidade fora dos Estados Unidos a pertencer a esse programa”

explica Gustavo Soares, presidente da SBH.
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Foto: Ilustrativa.

A negociação entre os dois países foi longa, pois era necessário alinhar questões legais, seguindo as legislações brasileira e americana. As diretrizes para preenchimento do banco estão adequadas, por exemplo, com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) vigente no Brasil desde 2018.

“Isso representa um marco para a sociedade acadêmica brasileira, em que demos mais um passo de internacionalização mostrando a nossa capacidade de integrar cientificamente com um país tão avançado como os Estados Unidos, que é extremamente criterioso na sua parte científica. Além disso, dá acesso aos brasileiros envolvidos no tratamento da parede abdominal a um banco de dados gigantesco para produção de ciência”

destaca Soares.

O banco de dados sobre cirurgia de hérnias conta com mais de 475 cirurgiões e 127 mil pacientes cadastrados. Nele são incluídas informações sobre quadro de saúde, características físicas e histórico do paciente; detalhes sobre a hérnia e tratamentos realizados; além do comportamento da lesão no pós-operatório.

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Foto: Ilustrativa.

O médico curitibano Christiano Claus, é especialista em Cirurgia do Aparelho Digestivo e um dos profissionais que colabora com a base de dados nos EUA. Na avaliação dele, a cooperação entre os cirurgiões melhora o resultado que é entregue aos pacientes.

“Muito daquilo que a gente consegue construir hoje como entendimento do que é melhor, do que é pior, vem através de estudos científicos […] Quando monta-se um banco de dados você consegue analisar aquilo que os cirurgiões estão fazendo, as diferentes técnicas que eles estão usando, os diferentes produtos que estão sendo utilizados, e como esses pacientes estão incluídos também nos resultados pós-operatórios, aquilo que acontece com o paciente na sequência da cirurgia. A gente consegue determinar se uma técnica é melhor do que a outra, se um produto é melhor do que o outro”

considera Christiano Claus, um dos profissionais que colabora com a base de dados nos EUA.

Christiano Claus pontua que todos os pacientes que participam do banco de dados assinam um termo de consentimento concordando em contribuir com a ciência.

“Eu gosto muito de uma frase: onde se produz ciência, os pacientes são melhores tratados. Porque a gente vai tomar as nossas decisões baseadas em evidência e não baseada em achismo. E não só na medicina. Se a gente for extrapolar o que acontece hoje em outras áreas, todo mundo procura métrica para que você possa tomar suas ações baseadas em dados que sejam concretos e não em coisas que sejam baseadas em suposições”

finaliza Christiano.
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Foto: Ilustrativa.

Assunto pouco falado

As hérnias da parede abdominal atingem, em média, 28 milhões de brasileiros, de acordo com dados da Sociedade Brasileira de Hérnia e Parede Abdominal (SBH). De 2022 para 2023, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou crescimento de 13% no número de cirurgias feitas para o tratamento da doença, foram 397 mil procedimentos no período. Apesar dos números expressivos, o presidente da SBH considera que o assunto ainda é pouco debatido.

“Por ser um problema que atinge tantos brasileiros e pelo impacto que tem na sociedade, eu acho que é pouco discutido. Isso se reflete, inclusive, em problemas pontuais se você imaginar que no Brasil temos, por exemplo, uma fila muito grande para tratar pacientes de hérnia. A medida que você traz para discussão esses problemas têm mais facilidade de serem resolvidos”

afirma Gustavo Soares, presidente da SBH.

Por isso, a SBH propôs um projeto de lei no Congresso Nacional para a criação do Dia Nacional de Conscientização Sobre as Hérnias da Parede Abdominal. A ideia é ter uma data para informar e conscientizar a população.

“Ter esta data no calendário oficial aumenta a possibilidade do direcionamento de verbas públicas, como emendas parlamentares para os pacientes afetados pelas hérnias, além de permitir maior conscientização da população sobre os sintomas, risco e importância do tratamento da doença. É mais uma maneira de trazer o debate para tentar achar soluções para um problema que é muito frequente”

conclui Gustavo.

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