Adolescentes precisam dormir entre oito e dez horas por dia. É o que recomenda a Academia Americana de Medicina do Sono (AASM), referência em pesquisa e prática clínica sobre o tema. Mas cumprir essa meta não é simples. Entre o uso constante de telas e horários escolares nada amigáveis, o sono é frequentemente negligenciado. 

Adolescentes que dormem pouco tem pior desempenho escolar, mostra pesquisa
Redução nas horas de sono piora o rendimento escolar. (Foto ilustrativa: Freepik)

A aluna do 4º ano de Medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Gisele Alves de Souza, orientada pela professora Beatriz Elizabeth Bagatin Veleda Bermudez, do Departamento de Medicina Integrada da instituição, buscou compreender como esses fatores interagem, e identificar quais têm mais peso sobre a duração do sono na adolescência. 

A ciência já sabe que o uso excessivo de eletrônicos, especialmente à noite, prejudica o sono ao inibir a melatonina, hormônio que regula o ciclo sono-vigília e sinaliza ao organismo o momento de descansar, diz a aluna. 

“Analisamos idade, horas de tela, desempenho escolar, atividade física, índice de massa corporal e queixas de sono, em um mesmo grupo de adolescentes brasileiros atendidos em um ambulatório hospitalar”. 

Gisele Souza participa do projeto de pesquisa que busca traçar um panorama epidemiológico, ou seja, relativo aos riscos à saúde, de pacientes do ambulatório de adolescentes do Complexo do Hospital de Clínicas (CHC) da UFPR, em Curitiba.

Por meio desse projeto, analisou 61 prontuários de adolescentes de 11 a 19 anos atendidos no complexo, de abril a julho de 2025. Os documentos continham informações sobre horas de descanso, tempo de tela diário e queixas sobre o sono. Foram excluídos aqueles incompletos ou com dados inconsistentes.

Resultados reforçam relação entre qualidade do sono e aprendizagem

Pela amostra analisada, Souza não identificou uma associação direta entre o tempo de tela e a redução do sono entre adolescentes. Entretanto, o desempenho escolar apresentou uma relação nítida com a duração do sono: adolescentes que relataram rendimento ruim dormiam, em média, 50 minutos a menos por noite.

“Isso reforça como o sono e o aprendizado estão interligados”, diz a pesquisadora. 

De acordo com Souza, as evidências científicas de que o sono interfere na aprendizagem são fortes, já que é durante o descanso que ocorrem processos neurobiológicos essenciais, como a consolidação da memória e a reorganização sináptica.

“Assim, dormir pouco afeta diretamente a atenção, a memória de trabalho e o aprendizado, resultando em pior desempenho escolar”. 

A discente destaca a importância de detalhar melhor algumas variáveis. Estudos futuros poderiam investigar, por exemplo, o tipo de conteúdo consumido, o horário de uso, especialmente à noite, e o tipo de dispositivo. 

“Estudos mostram que adolescentes que dormem menos têm maior propensão ao sobrepeso e à obesidade. Isso ocorre por mecanismos biológicos, como alterações hormonais que aumentam a grelina (o hormônio da fome) e reduzem a leptina (o hormônio da saciedade), além de aumentar a resistência à insulina”, diz. 

Familiares podem ajudar a promover melhores hábitos de sono

Souza orienta que a promoção de bons hábitos de sono comece dentro de casa. Segundo a pesquisadora, os pais podem ajudar a estabelecer rotinas noturnas regulares e limites para o uso de telas antes de dormir, principalmente evitando celulares e tablets na cama.

 “Ter um horário fixo para se deitar, reduzir estímulos luminosos e sonoros à noite e encarar o sono como parte da saúde, assim como a alimentação e a atividade física, faz muita diferença”.

A aluna destaca ainda que o exemplo dos próprios pais é uma ferramenta poderosa. “Quando os adultos valorizam o descanso e adotam hábitos mais saudáveis, os adolescentes tendem a reproduzir esse comportamento. O sono não é perda de tempo, é investimento em saúde, aprendizado e bem-estar”, conclui.