A adesão à vacinação contra a Covid-19 caiu em quatro grandes capitais brasileiras, como mostra pesquisa Datafolha realizada com eleitores de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife. O apoio à imunização obrigatória também registrou queda nesses locais.

Mesmo assim, a fatia dos que pretendem se vacinar, uma vez que um imunizante seguro e eficaz esteja disponível, e dos favoráveis à obrigatoridade da aplicação das doses ainda é majoritária na pesquisa.

O Datafolha ouviu 1.260 eleitores a partir de 16 anos na capital paulista, 1.064 na fluminense, 868 na mineira e 924 na capital pernambucana, nos dias 3 e 4 de novembro. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95% para todos os casos.

 

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Em comparação com levantamento do instituto feito em outubro, todas as capitais apresentaram redução no percentual dos que afirmam ter interesse em se imunizar. A taxa de recifenses que pretendem se vacinar caiu de 75% para 65% agora em novembro. No mesmo período, subiu de 20% para 30% a parcela dos que não pretendem tomar a vacina.

Tanto São Paulo (72%), quanto Belo Horizonte (74%) e Rio de Janeiro (73%) viram a taxa de adesão à vacinação recuar 7 pontos percentuais neste último mês. Enquanto isso, as taxas de recusa para a imunização alcançaram 23%, 21% e 24%, respectivamente.

A vacinação obrigatória também perdeu apoio, como mostra o Datafolha de novembro. No Rio de Janeiro, a taxa do que são favoráveis à imposição da imunização caiu 16 pontos percentuais, chegando em 61%. Em São Paulo, a queda foi de 72% para 58%; em Belo Horizonte de 76% para 62%; e em Recife, de 73% para 61%.

A fatia dos que acham que a vacinação deverá ser obrigatória é majoritária em todos os estratos da pesquisa, com exceção dos eleitores moradores da capital paulista com renda acima de dez salários mínimos. Entre estes, 56% se posicionam contra a medida.

Os maiores índices de apoio à vacinação ficam entre as mulheres, os entrevistados na faixa de 16 a 24 anos e com menor escolaridade (só com o ensino fundamental completo). Em São Paulo, a maior adesão à medida fica entre os eleitores com mais de 60 anos.

A queda dos que afirmam ter intenção de receber a imunização contra a Covid-19 acontece em meio à guerra política no entorno das vacinas, em que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o governador João Doria (PSDB) trocaram farpas em razão da aquisição e da obrigatoridade da vacina.

No fim de setembro, Bolsonaro afirmou que “ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”. Em resposta, Doria anunciou que a imunização seria obrigatória em São Paulo. O presidente respondeu chamando o tucano de “lunático” e “autoritário” em razão da exigência.

Lei sancionada em fevereiro, contudo, prevê a possibilidade de vacinação compulsória.

A tensão política entre ambos se agravou ainda mais após o presidente desautorizar o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, um dia após ele ter anunciado acordo com o estado de São Paulo para a compra de 46 milhões de doses da Coronavac, vacina da farmacêutica chinesa Sinovac que será produzida no Brasil pelo Instituto Butantan.

O governo federal já anunciou aquisição de 140 milhões de doses da vacina, sendo 100 milhões da parceria entre a AstraZeneca e a Universidade de Oxford, por intermédio da Fiocruz, e outras 40 milhões de doses obtidas através do mecanismo Covax Facility, liderado pela OMS (Organização Mundial de Saúde).

Ao menos oito partidos entraram com questionamentos no STF (Supremo Tribunal Federal) para assegurar a competência de estados e municípios em determinar a vacinação obrigatória e pedindo que o governo Bolsonaro adquira doses da Coronavac.

O presidente do STF, Luiz Fux, afirmou ver com bons olhos o Judiciário entrar na discussão sobre o tema. Já o procurador-geral da República, Augusto Aras, avaliou que não há discussão constitucional que justifique uma decisão do tribunal sobre como o Executivo deve agir neste tema.

Vacina chinesa é a que encontra maior resistência Apesar de a maioria declarar que pretende se vacinar, quando questionados sobre a procedência das doses, as que são desenvolvidas na China, mesmo que já aprovadas, encontraram maior resistência entre os entrevistados de todas as capitais, mostra o Datafolha.

A vacina chinesa recebeu menos confiança entre os eleitores do Recife, com 42% de aceitação, seguida de Rio de Janeiro e Belo Horizonte, ambas com 52%. Já a capital paulista é a que demonstra menos resistência, com 57%.

Os maiores índices de rejeição à uma vacina criada na China se concentram nos grupos que aprovam o governo Bolsonaro. Entre os cariocas, por exemplo, 68% dos apoiadores do presidente recusariam as doses chinesas. Essa resistência cai na fatia que reprova a gestão federal.

Já a vacina desenvolvida e aprovada pelos EUA é a que tem melhor aceitação entre todos os entrevistados. Em São Paulo, a taxa de adesão chega a 76%, bem próximo do registrado em Minas Gerais e Rio de Janeiro (ambas com 72%) e Recife (62%).

A segunda que mais inspirou confiança entre os eleitores foi a imunizante criada na Inglaterra. Nas quatro cidades, entre 60% e 76% aceitariam as doses. Já a parcela que receberia bem uma vacina russa varia entre 52% e 60% nas capitais, segundo a pesquisa.

Ainda sem haver remédio que possa curar a Covid-19, a vacina é vista como única solução para estancar a pandemia. No entanto, nenhum imunizante está disponível para a população. Até o início deste mês, ao menos dez candidatas a vacina no mundo estavam na terceira e última fase de testes clínicos, com outras nas fases 1 e 2.

As previsões mais otimistas são de que as campanhas possam começar, com grupos de risco, no início de 2021. Mas a vacinação de populações inteiras pode levar mais alguns meses.

No Brasil, as vacinas mais próximas do uso em massa são a CoronaVac, em São Paulo, e a vacina de Oxford, criada pela farmacêutica AstraZeneca com a universidade britânica a qual lhe empresta o nome e que no Brasil tem como parceira a Fiocruz.

O Datafolha também verificou se os eleitores faziam uso correto da máscara no momento da entrevista. O maior respeito foi identificado em São Paulo, onde 81% usavam a proteção de maneira adequada e apenas 12% não estavam sem.

Já a menor adesão à máscara foi registrada em Recife, onde 30% dos participantes não utilizavam proteção.

Fontes: Pesquisas Datafolha presenciais com eleitores de 16 anos ou mais nas cidades de São Paulo (1.260 eleitores), Rio (1.064), Belo Horizonte (868) e Recife (924) nos dias 3 e 4 de novembro. Registros: no TRE-SP com o número SP-06709/2020, no TRE-RJ com o número RJ-02176/2020, no TRE-MG com o número MG-02074/2020 e no TRE-PE com o número PE-06862/2020. A margem de erro máxima é de três pontos percentuais para mais ou para menos. Contratantes: Folha de S.Paulo/TV Globo.