Dom Orani, cardeal do RJ com Bolsonaro (foto: EFE/Marcelo Sayão)

Dom Orani, cardeal do RJ com Bolsonaro (foto: EFE/Marcelo Sayão)

Os números finais das recentes eleições legislativas estão quase fechados. Com eles, já há algumas certezas que refletem bem a composição de homens e mulheres que representarão os brasileiros no Congresso.

Uma das mais fortes realidades é esta: a chamada Bancada Evangélica – apesar da perda de notáveis dirigentes não reeleitos, como o senador Magno Malta, do ES – terá 185 representantes. Ela junta-se a outras duas igualmente importantes bancadas, chamadas de “do boi” – agricultura – e “da bala” – os defensores dos direitos ao armamento amplo e irrestrito dos cidadãos.

Os números significam que praticamente um terço do congresso pertence à Bancada Evangélica.

FORÇA ELEITORAL

Essa realidade que alguns analistas acabam citando como “reveladoras de que as igrejas evangélicas são hoje impressionante força político-eleitoral”, a mim não me surpreende.

Não me surpreendo porque o bispo Edir Macedo, fundador e líder inconteste na sua denominação (a Igreja Universal do Reino de Deus, IURD), nunca escondeu ter um projeto político bem definido; o qual se completaria com a eleição de um presidente evangélico para presidente do país.

SETE MILHÕES

Estimam analistas do pentecostalismo que a palavra de Macedo gera fidelidade de pelo menos 7 milhões de pessoas, na IURD, e com repercussão e ampliação em outras igrejas no Brasil. Quantos milhões de outros?

O que se vê hoje é forte amálgama das igrejas pentecostais e neopentecostais (que são as que importam numericamente no protestantismo brasileiro) em torno de propostas basicamente “à direita”, como dizem seus opositores.

Ocorre, no entanto, que as propostas dos evangélicos são, na maioria, as mesmas da Igreja Católica, da doutrina católica, como a defesa da vida contra o aborto, contra as drogas e pelas bandeiras da família…

Não são, é claro, bandeiras dos católicos “à gauche”, concessivos com relação ao aborto, por exemplo, e enfáticos na defesa de temas sociais que colocam até mesmo acima dos espirituais. Usam de vários argumentos para defender tais posições que são, em última instância, da Teologia da Libertação (TL).

EXPLICANDO ABORTO

Há que se ressalvar: Edir Macedo e Crivella, prefeito do Rio, assim como os pastores e bispos da IURD, não fazem nenhuma questão de lembrar, na hora de conseguir o chamado “voto evangélico”, que a Universal não condena o aborto!

Não o considera ofensa à chamada lei de Deus.

CATÓLICOS DIVIDIDOS

Dom Orani Tempesta é um fenômeno no clero brasileiro. Feito padre numa abadia Cistercense do Estado de São Paulo, de vida monástica, foi um monge dedicado à Regra de São Bento. Ao contrário do esperado, não cresceu na Igreja como monge, mas como bispo e, depois, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro.

Católicos à esquerda o classificam de “carreirista”: sempre se deu bem, pois, fora do claustro e da cela monástica. E também porque fez-se cardeal logo depois da visita do papa Francisco ao Brasil, em 2012, o primeiro evento internacional a que o pontífice então recém eleito, compareceu. Veio ao Brasil para o Encontro Mundial da Juventude.

Ali Orani teria “conquistado” Francisco “que desconhecia seu perfil político à direita”, dizem católicos esquerdistas.

DOM ORANI TEMPESTA

Dom Orani Tempesta esteve no foco dos noticiários na semana: recebeu o candidato capitão Bolsonaro no Palácio São Joaquim, na Glória, Rio de Janeiro. O militar da reserva fez continência ao prelado e prometeu que, se eleito, defenderá questões como a liberdade religiosa e outros valores caros ao episcopado.

Antes da visita de Bolsonaro, o presidenciável havia sido visitado por Dom Antonio Duarte, bispo auxiliar do Rio, manifestando-lhe admiração.

Cardeal Leme: tempos de Vargas

Cardeal Leme: tempos de Vargas

SÓ PEDRO UNE

O caso do cardeal e do bispo auxiliar são exemplos de quão diversa é a composição da Igreja no Brasil, de hoje, unida fortemente – isso é verdade – à Sé de Pedro (no caso, o papa Francisco). Uma diversidade de opiniões que seria inadmissível nos tempos de “Roma locuta, causa finita” ou os do cardeal Leme.

O BISPO DE JALES

Os tempos de hoje – e que até podem a ajudar a explicar a perda de força da Igreja no Brasil – deixam católicos conservadores desorientados. Tal como acontece quando o bispo de Jales, São Paulo, desanca Bolsonaro em comunicado oficial da sua Diocese, e com ampla repercussão nas redes sociais.

CAI FORA APARECIDA

A série com que mostrei ângulos da perda de poder político da Igreja Católica comportaria amplas outras abordagens. Eu as farei futuramente.

Mas não tenho dúvidas em identificar certos marcadores claros dessa perda de “poder” citando um fato por mim registrado em meu arquivo de estudos do fenômeno religioso: há 5 anos, a Capela da Assembleia Legislativa do Paraná, onde antes reinava absoluta uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, dividiu seu altar: quando há culto evangélico, entra uma bíblia na parte central da celebração; se é missa católica, volta a Mãe Aparecida.

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