Em menos de seis meses, o Brasil atingiu a marca de 100 mil mortos por coronavírus. O País contabiliza neste sábado à tarde, 8, um total de 100.240 mortes, segundo dados do levantamento realizado pelo Estadão, G1, O Globo, Extra, Folha e UOL com as secretarias estaduais de Saúde. Se o País fizesse 1 minuto de silêncio em homenagem a cada vítima, teria de passar 70 dias calado. O número impressiona. É o equivalente a cair quase cinco aviões A320 lotados todos os dias, contando do primeiro óbito, em março, até hoje. Ou à capacidade de público de um estádio e meio do Morumbi, o maior de São Paulo.

– Protesto contra o governo do atual presidente Jair Messias Bolsonaro reúne ativistas da Ong Rio de Paz e contou com a presenca do Pai Márcio Antônio do Nascimento que teve seu filho Hugo Nascimento morto pelo virus em memoria dos Cem Mil mortos pelo Coronavirus Covid-19 contra a forma que o poder publico e federal tem conduzido a administracao e crise sanitaria no pais e serao simbolizados por cruzes e baloes que serao soltos durante o ato,na manha deste sabado (08/08). em Copacabana zona sul do Rio de Janeiro. – (Foto: Adriano Ishibashi/FramePhoto/Folhapress)

 

Com novos casos se alastrando pelo interior, duas a cada três cidades brasileiras já perderam alguém para a covid-19. Médicos e cientistas de diferentes regiões do País afirmam ao Estadão que, para conter o avanço da doença, é preciso que as ações tenham como base um tripé: identificação e monitoramento precoce dos casos; etiqueta respiratória e cuidados pessoais; isolamento social, ou até lockdown, principalmente nos locais com alta transmissão.

Enquanto não houver vacina ou remédio com eficácia cientificamente comprovada, os pesquisadores alertam que a única saída é tentar reduzir a propagação da covid-19. Coautor do livro Viroses Emergentes no Brasil, o médico infectologista da Unicamp Rodrigo Angerami demonstra que, em tese, a lógica é simples. “Diminuindo a taxa de transmissão, haverá menor número de casos, menor número de casos potencialmente graves e, consequentemente, menor número absoluto de novos óbitos.”

Até o momento, o País atingiu o patamar de 3 milhões de casos confirmados. Para minimizar o contágio, o pesquisador cita a importância da proteção individual, como uso rotineiro de máscara e a higienização constante das mãos, além do distanciamento social. É fundamental fortalecer as ações com informações corretas, afirma. As medidas de prevenção servem não apenas para proteção individual, mas para interromper cadeias de transmissão comunitária. Segundo Angerami, o combate à pandemia também deve focar em baixar a letalidade da doença. Esse índice varia de acordo com o Estado, chegando a 4% em São Paulo e 8% no Rio. Para isso, é imprescindível que todo paciente seja identificado e investigado laboratorialmente de modo precoce, seja avaliado e monitorado clinicamente e, se necessário, encaminhado para serviços hospitalares.

Plano federal

De acordo com os pesquisadores, os sistemas de saúde e vigilância do País já tinham capacidade e expertise para impedir o avanço desenfreado da pandemia, mas os embates políticos atrapalharam. Outro passo, agora, deve ser implementar um plano nacional de enfrentamento ao coronavírus para corrigir o que, na visão dos pesquisadores, seria a principal falha do Brasil até aqui: o vácuo de liderança no combate à pandemia.

Começamos bem, iniciamos a quarentena no momento certo, antes de termos muitos casos, mas tivemos um presidente da República jogando contra os Estados, diz o professor de epidemiologia Paulo Lotufo, da Faculdade de Medicina da USP. Em determinado momento, os governadores se sentiram pressionados e iniciaram a reabertura. Se tivéssemos feito um lockdown sério, mesmo que fosse por um período curto, de 10 ou 15 dias, teríamos tido uma redução expressiva de casos, afirma.

Coordenador do núcleo de epidemiologia e vigilância em saúde da Fiocruz Brasília, o médico Claudio Maierovitch também avalia que a falta de coordenação na área federal atrapalhou. Cinco meses depois, continuamos sem plano e sem liderança. Se tivéssemos isso, poderíamos ter bem definidas as medidas recomendáveis em cada estágio da pandemia, o que é importante se pensarmos que há situações diferentes de transmissão de acordo com a região do País.

Testagem em massa, prometida, mas nunca adota

Para mapear e isolar os doentes, uma das principais estratégias é realizar testagem em massa, promessa que nunca saiu do papel. Quando a gente fala em vigilância em saúde, tem uma tríade básica que é rastrear, testar e isolar, afirma o médico Claudio Maierovitch. No momento em que a transmissão está acelerada, fica mais difícil fazer isso, mas não é impossível. O ideal seria determinar quarentena nos locais de maior transmissão para que haja uma queda no número de novos casos e fique mais fácil monitorar todas as infecções novas.

Para que o rastreamento funcione, uma alternativa indicada é recorrer ainda mais a unidades e equipes de atenção primária do SUS, rede capilarizada, próxima das comunidades e capaz de levar os cuidados para áreas distantes de grandes centros. Na prática, a medida poderia ajudar até a prevenir que casos graves aconteçam em locais sem UTI ou hospital.

De acordo com os pesquisadores, faltou uma ação coordenada posterior ao início da crise para conter o avanço da pandemia. Assim como foi feito um esforço para a abertura de novos leitos e de hospitais de campanha, deveríamos ter tido o mesmo movimento no programa Saúde da Família, pontua Maierovitch.

O sanitarista também defende o monitoramento precoce dos doentes Alguns municípios estão usando os hospitais de campanha para internação mais preventiva, de doentes que não estão graves, mas que, por apresentarem fatores de risco, devem ser monitorados mais de perto para que uma piora seja rapidamente identificada.

Respiradores

Integrante do Observatório Covid-19 BR, a epidemiologista Maria Amélia Veras avalia que, no primeiro momento, o País acertou em focar no cuidado com pacientes graves, investindo na busca de respiradores e de leitos de UTI – os últimos aumentaram em 45% durante a pandemia, segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM). Em seguida, no entanto, o Brasil teria passado a acumular muitos erros pelo caminho.

O coronavírus chegou por pessoas de estratos socioeconômicos mais elevados, que haviam viajado para o exterior. Até aí havia relativo sucesso das medidas de combate. A situação saiu completamente do controle quando o vírus atingiu as camadas mais vulnerabilizadas da população, diz Maria Amélia. O número de 100 mil mortes é absolutamente emblemático de como o Brasil lidou com a pandemia até agora.

Na visão de Maria Amélia, as ações de saúde esqueceram que a transmissão do vírus se dá pela população. Só metade das pessoas aderiu ao isolamento social. Agora, com as pessoas esgotadas de ficar em casa, assistimos a um processo de reabertura desordenado, para o qual não nos preparamos.

Para o físico Silvio Ferreira, da Universidade Federal de Viçosa, há várias circunstâncias a considerar. Enquanto a melhora da prática médica para lidar com pacientes graves ajuda a reduzir as mortes, a reabertura econômica antecipada e a chegada do vírus a cidades menores puxam o índice para cima. O futuro da pandemia depende de todos esses fatores, diz Ferreira. Se o relaxamento das restrições acelerar, o número de 200 mil mortes pode ser atingido em pouco tempo.