Por Marina Sequinel e Flávia Barros

(Fotos: Flávia Barros – Banda B)

De todos os produtos do mundo que José Alves Pereira, o Baiano, poderia escolher para vender, os doces com certeza são os melhores: eles representam exatamente o carisma e a doçura que o trabalhador passa para os alunos e professores do Setor de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Nesta segunda-feira (29), Baiano completou 90 anos de idade e meio século vendendo guloseimas em frente ao Restaurante Universitário (RU) do campus. Para celebrar o duplo aniversário, a comunidade acadêmica preparou uma festa, com direito a discurso, como acontece todos os anos.

Desta vez, no entanto, Pereira também ganhou uma placa comemorativa. Emocionado, ele agradeceu pelo carinho. “Para mim, esse aniversário foi o melhor, pelos 90 anos de idade e 50 de universidade. Eu me sinto muito feliz, fiz boas amizades aqui. Sai uma geração e vem outra, os alunos pegam o ritmo, o conhecimento e deixam todo mundo alegre”, disse ele em entrevista à Banda B.

Baiano, que na verdade é cearense, nascido na cidade de Crato, começou a trabalhar no campus Agrárias em 1967. Desde então, todos os dias, ele marca presença com o seu carrinho de doces na frente do RU. “Sempre que eu não estou, eles sentem falta de mim e eu sinto deles. A minha esposa me dizia que eu vivia mais aqui do que lá, que só parava em casa para dormir”, completou.

Ao longo desses anos, Baiano já foi homenageado em diversas formaturas, na maioria das vezes como “Amigo da Turma”. “Eu até já perdi a conta. Guardo em casa 30 plaquinhas de homenagem. Nunca faltei em nenhum desses eventos. O pessoal grita meu nome, bate palma, eu fico emocionado”.

Diante de tudo isso, ele nem pensa em parar de vender os tão famosos doces. “Aposentadoria nem pensar. Eu já estou aposentado pelo INSS e faço esse biquinho para continuar vivendo”, comentou.

“Queria ter esse carisma”

Um dos filhos de Baiano, Eli Alves Pereira, de 57 anos, sempre fica impressionado com o carinho que as pessoas da UFPR demonstram pelo pai. “Isso já é de longa data. No dia do aniversário dele, todo ano, é uma baita festa. Na verdade, nós não entendemos como ele conquistou tanta gente e nem ele mesmo soube responder quando nós perguntamos. Eu queria ter esse carisma”, brincou. “Mas é o jeito dele de ser, ele foi cativando o pessoal e todo mundo o tem como um ídolo”.

Segundo Eli, o pai também é atencioso em casa, conversa sobre tudo e dá conselhos. “Enquanto ele tiver saúde, não vai sair do Agrárias, isso é uma terapia para ele. Acho que se tirarem ele daqui, no outro dia ele morre”, afirmou.

Lenda do Agrárias

Baiano já é considerado patrimônio histórico da UFPR, segundo o professor Amadeu Bona Filho, diretor do Setor de Ciências Agrárias – ele formou em 1974. “Eu lembro que morava perto da Arena da Baixada e, naquela região, havia um depósito de sorvetes. Todos os dias eu via o Baiano trazendo o carrinho de lá para cá, e depois ele ainda tinha que levá-lo de volta, eram cerca de 15 quilômetros. Acho que é por isso que ele está tão bem e com saúde aos 90 anos”.

Para Bona Filho, o jeito simples do doceiro foi o que conquistou todo mundo. “Ele expressa no olhar, na maneira de falar, é um carinho, uma humildade… Se todos nós pudéssemos se espelhar e imitar o Baiano, o mundo seria diferente”.

História

José Alves Pereira chegou ao Paraná em 1952, primeiramente em Paranavaí, e logo em seguida veio para a capital. Em Curitiba, começou a trabalhar vendendo sorvetes. Em 1967, por acaso, acabou entrando no campus do Setor de Ciências Agrárias e viu boas possibilidades de vendas. Foi ficando e ganhou o apelido e a simpatia da comunidade.

Ele teve cinco filhos, quatro deles vivos, e cinco netos. A esposa faleceu em fevereiro e uma filha mora nos Estados Unidos há 27 anos.

Vídeo

Assista abaixo ao vídeo gravado pela repórter Flávia Barros durante a comemoração do aniversário do Baiano: