Além de afetar o abastecimento direto de água à população, a maior estiagem dos últimos cem anos também atingiu em cheio a agricultura do Paraná. Como depende diretamente do recurso para continuar a produção, o campo teve de aprender a lidar com a seca. Em entrevista ao programa Em Pauta, da Associação das Emissoras de Radiodifusão do Paraná (Aerp), na manhã desta quarta-feira (4), o secretário da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (SEAB), Norberto Ortigara, revelou que a crise hídrica pode afetar toda a cadeia produtiva do agronegócio em 2021.

“Eu sou filho de agricultor e, desde pequeno, lido com agricultura. Eu acredito que nunca enfrentamos uma crise acumulativa tão profunda assim. Isso, por exemplo, atrasou o plantio dos sementes para a safra de 2021, porque ela não encontrou um ambiente favorável para germinar. Fatalmente, a colheita será atrasada e estamos lidando com o risco de produzir menos que o potencial. São coisas da natureza, que nós convivemos há muito tempo, mas nós precisamos aprender a guardar água, a poupar este bem que é finito e vai acabar. Temos que criar ambientes para que as nascentes sejam protegidas”, alertou o secretário.

 

O secretário da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (SEAB), Norberto Ortigara, em entrevista ao programa Em Pauta, da Associação das Emissoras de Radiodifusão Paraná (AERP), apresentado pela jornalista Juliana Sartori, nesta quarta-feira (23). Foto: Reprodução

 

Apesar das adversidades, Ortigara destacou o trabalho feito no agronegócio em 2020. Mesmo com os problemas, o setor da economia continuou aquecido. Na visão do secretário, isso permitiu que não faltasse alimentos nas casas da famílias paranaenses durante o momento adverso para o agronegócio.

“Os nossos agricultores foram muito competentes. É claro que a gente trabalhou em conjunto com eles e as entidades que os representam. Este setor não poderia parar, pois são atividades essenciais que produzem os alimentos. Quando veio a pandemia, nós estávamos colhendo a maior safra do país, quase 258 milhões de toneladas de comida. Isto foi escoado muito rapidamente para todo o mundo, em função da nossa moeda desvalorizada. Mas, nós criamos oportunidades e crescemos mantendo o emprego em alta neste setor”, comemorou.

O secretário informou que mais de 85 mil trabalhadores foram mantidos em chão de fábrica nos frigoríficos de frango e porco no Estado. “O campo se manteve ativo. São várias frentes que a gente usa para garantir a segurança alimentar das pessoas e famílias. Mas, a melhor política de segurança é emprego e renda. Hoje, o país tem mais de 14 milhões de desempregados e quase 30 milhões de pessoas desalentadas. Estamos começando a retomar os empregos perdidos, mas sem descuidar das políticas públicas que proporcionam alimentação as pessoas”, destacou.

Políticas Públicas

Além disto, Ortigara comentou algumas ações que o Estado tomou para combater a insegurança alimentar no Paraná. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 25% das famílias paranaenses enfrenta o problema. As ações, segundo o secretário, são capazes de movimentar a economia e o trabalho, já que é feita a dinâmica de permissão para a agricultura familiar produzir e vender para o Governo que redistribui a compra de alimentos ao Paraná.

“Isto também reduz os custos dos Municípios para comprar comida. Nós estamos comprando comida de 147 cooperativas e/ou associações familiares com recursos do Fundo Estadual de Combate à Pobreza (FECOP) e dos recursos obtidos por meio do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e destinando a entendidas que cuidam de idosos, por exemplo. Ao todo, mais de 530 mil pessoas são beneficiadas”, explicou.

O secretário reconheceu que o problema de famílias não terem o que comer não é de hoje, mas ressaltou que a pandemia, com a sequente perda de renda, agravou a situação e expôs pessoas a fome. “Foi preciso ampliar o esforço de proteção. O Paraná talvez tenha a melhor rede de cobertura do Brasil que tem várias iniciativas. Uma delas é o apoio da construção de restaurantes populares. Hoje, o Estado tem 21. Onde não cabe restaurantes, nós temos as cozinhas comunitárias que fazem comida e destinam a entidades que distribuem àqueles que mais precisam”, completou.

Banco de Alimentos

Um dos programas de destaque que a SEAB tem feito durante a pandemia é o aproveitamento de alimentos que passam diariamente nas Centrais de Abastecimentos do Paraná (CEASA). A ação acontece em cinco cidades do Estado: Curitiba, Londrina, Maringá, Cascavel e Foz do Iguaçu.

“O operador do CEASA recebe as cargas diariamente dos legumes, verduras e frutas. Algumas podem estar com algum defeito comercial ou houve outro problema em que eles não sabem o que fazer. Então, eles doam para a gente e nós classificamos os alimentos e entregamos para entidades que cuidam de pessoas. Todo o trabalho é acompanhado por profissionais que indicam se o alimento pode ou não ser reaproveitado. Com isto, não geramos lixo e aproveitamos de forma racional os alimentos, que apesar de não serem possíveis de colocarem a venda por conta de ‘uma manchinha’, são destinados as pessoas em forma de comida”, acrescentou.

Vídeo

Abaixo, veja a entrevista completa do secretário Norberto Ortigara ao programa Em Pauta, da AERP.