Renato Follador, presidente do Coritiba, durante entrevista para a Banda B. (Felipe Dalke/Banda B)O presidente do Coritiba, Renato Follador, concedeu entrevista à Banda B na tarde desta terça-feira (23) e comentou sobre o início de sua gestão. Entre os principais assuntos destacados estão a reestruturação em todo o clube, a aposta no técnico Gustavo Morínigo até o final da temporada, as saídas e chegadas no elenco, e a possibilidade da contratação do zagueiro Miranda.
Confira a entrevista na íntegra
Você assumiu o cargo com o Brasileirão em andamento, mas é a partir do jogo de domingo no Campeonato Paranaense que realmente começa a sua gestão? É agora que começa o desafio de vocês?
Eu diria que existem dois ambientes: o campo de futebol e a administração. Nós aproveitamos esses dois meses para reestruturar completamente a parte de gestão do Coritiba. Foi um trabalho exaustivo, mas digo que cumprimos 100% do que estava no planejamento estratégico. Esses dois meses foram bons para arrumar a casa por dentro. Agora vamos para o campo, porque tivemos que trabalhar com o plantel que estava aí. Nós percebemos desde o princípio a mesma letargia do clube dentro do campo e nem era culpa dos jogadores. Estavam desanimados e sem perspectiva.
Cheguei na primeira palestra com eles e disse que não interessava o passado e tinham dois meses para mostrar a capacidade técnica e de entrega, e só iria exigir mudança de postura. Tivemos que trabalhar com o plantel que estava aí e não podíamos contratar nem demitir. Perdemos jogadores ao longo do tempo e o Giovanni Augusto logo no primeiro dia de gestão. O que começa agora é dentro de campo e digo para meus diretores que acabou a lua de mel e agora é o resultado. Nós tomamos a precaução de levar tudo que falamos no planejamento estratégico para a captação e avaliação de jogadores. Temos praticamente 12 jogadores contratados e cada um deles passou por 12 pessoas em diferentes campos, área científica, técnica, scout, além do olhar daqueles que acompanham futebol. Tem também a análise de desempenho por parte das pessoas da diretoria.
Quem está vindo para o Coritiba passou por uma peneira com a malha muito fechada. Nós analisamos tudo, principalmente em jogadores mais idosos a parte de saúde, a chamada minutagem, e o tempo que esteve em campo ou parado. A torcida pode estar certa que vai ver um time diferente dos últimos anos.
A gente vê muitas promessas em vão no geral, seja em clube de futebol ou na política, e a sua principal promessa na eleição foi a reestruturação do clube. O departamento de futebol hoje já está reestruturado e a gente já vê as análises por todas as partes. Como o G6 em geral analisa o trabalho das novas coordenadorias do Coritiba?
As coordenadorias foram a grande sacada do planejamento estratégico. O Coritiba tinha uma gestão do futebol terceirizada e um diretor de futebol mandava em futebol até porque ninguém da diretoria entendia de futebol. Eu falava durante a campanha que o [Rodrigo] Pastana, ou a diretoria anterior, contratou 56 jogadores e apenas cinco deram certo. Já mostra a incompetência ou outras razões para trazer tantos jogadores. Nós já mudamos para 32 jogadores. Tínhamos uma folha de R$ 4 milhões e agora vamos implementar uma folha de R$ 2,1 milhões. Reduzimos o custo da folha pela metade, mas agora com muito mais qualidade. Temos certeza que a qualidade técnica e a entrega serão muito superiores. Não tem outra razão que mandamos quase todo mundo embora. Eu ainda dei dois meses para me mostrar entrega e poucos mostraram. Esses jogadores vão continuar conosco, porque vestiram com honradez a camisa do Coritiba.
Se formos fazer uma avaliação daqui um mês, vocês vão ver que mandamos embora 25 jogadores do Coritiba. É uma revolução na gestão. Nós encontramos o clube destroçado, com fluxo de caixa negativo para o primeiro semestre com mais de R$ 20 milhões e contratos que continuavam sendo pagos pelo Coritiba mesmo sendo cessados há um ano. Era um clube à deriva.
Independente se a torcida está gostando das contratações, os reforços estavam se destacando em suas antigas equipes. Geralmente eram jogadores emprestados ou que tiveram sucesso há anos. Agora, as novidades são jogadores que estavam bem na última temporada.
Um símbolo é o Sassá, que teve sucesso três anos antes, estava fora de peso e problemas extracampo no que diz respeito a dedicação aos treinamentos, etc. Eles trouxeram o Sassá pagando uma fortuna. Eu quero fazer uma comparação que trouxemos que é o Léo Gamalho. Ele tem 35 anos, mas analisa a minutagem dele, os gols, os passes. Olhe também as estatísticas dele nos fundamentos – cabeceio, chute direto para o gol, domínio de bola. É tudo pontuando lá em cima. De todos os jogos, ele jogou 90%. Faço a mesma análise para o Luciano Castán, que jogou 36 dos 38 jogos do CSA. Liguei para o Mozart [técnico do CSA] e me disse que é o melhor zagueiro que sai com a bola no futebol brasileiro. Até disse para não ficar chateado porque estava trazendo ele. A torcida tem que entender que acabou o amadorismo.
Temos treinador, comissão técnica, três coordenadores, Brunoro, seis diretores. Se somar tudo isso, são mais que 12 pessoas que dão palpite. A análise toda é feita baseada em estatísticas. A torcida pode ver o Valdeci, que não conhece, e falei em primeiro momento para segurar. Eu pedi mais dados para os coordenadores e me convenci. Foi aí que aprovamos a contratação do Valdeci. Alguns nomes conhecidos tenho certeza que a torcida vai gritar o nome quando puder ir aos estádios.
Você falou em uma outra entrevista que o Gustavo Morínigo é o técnico no ano inteiro, independente do que acontecer. Está preparado para qualquer tipo de pressão?
A análise do Morínigo foi a mesma do jogador. Ele veio depois de uma profunda análise em que a gente tem fatos que mostram que é um treinador muito inteligente, proativo e gosta muito de trabalhar e lapidar os garotos da base. Porém, a maior virtude ele é o trabalho em equipe. Ele entendeu que a opinião dele é importante na captação e contratação, mas igual a dos outros 12. Vamos dar o plantel que ele quer, assim como todo mundo, mas vai para a análise científica. De todos os que jogaram de janeiro para cá, sobraram apenas cinco, que são os que todos aprovaram. Teve alguns que ele não aprovou e nós aprovamos, e vice-versa. Tudo parte do diálogo e do consenso para errar menos.
Quanto a crítica, estou me lixando. Não sou vedete, não estou aqui como Rainha da Inglaterra. Estou aqui para implantar o profissionalismo da gestão no futebol brasileiro. Vai ser fácil? Claro que não e não sou ingênuo. É claro que estou preparado para isso, mas não vou mudar o treinador com xingamentos. Não vamos cometer o erro que todos os times do Brasil. A história fora do Brasil mostra que os técnicos longevos são os que dão certo. Vão comigo muito longe.
Coritiba já anunciou seis contratações, outras duas foram noticiadas e tem Robinho e Willian Farias. Quais as outras contratações?
Nós ainda não fechamos as contratações, mas estão adiantadas. Estamos trazendo jogadores para suprir lacunas que temos. A diretoria queria o Robson, mas veio uma proposta que julgamos que não poderíamos cobrir. E nem é pela qualidade do Robson, um jogador com boa qualidade para a segunda divisão, e a gente se orgulha do trabalho dele aqui. A proposta foi o dobro do que recebia aqui, poderíamos chegar pouco mais, mas não pagaríamos o dobro. Nós não fazemos loucuras no que diz respeito ao orçamento. O orçamento é definido e os jogadores que vieram aceitaram as condições.
Gostaria que falasse de duas contratações: volante Willian Farias e meia Robinho. Para eles baixarem o salário, significa a vontade de ajudar o Coritiba a prosperar novamente.
A gente tem que analisar o contexto. O futebol brasileiro de uma maneira geral, com exceção de Flamengo, Palmeiras e talvez o Atlético-MG, baixou muito. Tivemos uma queda de arrecadação de transmissão, de bilheteria e de sócios. Os próprios jogadores, como por exemplo o Wilson, reduziram o salário. E foram os casos do Willian Farias e do Robinho. São jogadores que não se acomodam. No caso do Robinho, estava na reserva do Grêmio, mas fomos a fundo na análise científica. No caso do William Farias, em alta performance lá fora. Além de estarem performando bem, tem a paixão pelo clube. Os dois vão fazer um campeonato espetacular aqui.
Quais jogadores do atual elenco vão continuar no Coritiba?
Grupo da base com toda a certeza absoluta. Nosso discurso sempre foi de apostar na base. Temos um pequeno problema agora que não vamos conseguir colocar toda a base para jogar logo no início. Em função do calendário e da importância da Copa do Brasil, nós precisamos dar ritmo de jogo para o novo time. Se estivermos substituindo duas, três peças, não teria problema jogar o Paranaense com sub-23. Mas estamos montando um time novo. Temos que dar um padrão de jogo e os jogadores precisam entender o esquema tático do treinador. Por isso, nós vamos cumprir parcialmente o que prometemos em relação aos garotos da base no Campeonato Paranaense. Vamos entrar com time misto e colocando ao longo do ano os garotos para jogar.
Dos que estavam aí, [permanecem] Wilson, Rafinha… Mattheus Oliveira, que agradou muito ao treinador e à diretoria nos últimos jogos quando jogou na posição dele. Também [ficam] Nathan Ribeiro, que está fazendo um trabalho específico, Matheus Sales, que vai ser utilizado pelo menos neste ano. Os demais são os jogadores que estão chegando.
Você falou de casos de jogadores que diminuíram os salários, como o goleiro Wilson. Tem outros casos de salários altos no Coritiba que são o volante Matheus Galdezani e o atacante Neílton. Qual a decisão sobre eles?
São dois casos diferentes dos demais, mas parecido com o Matheus Sales. São jogadores com contratos mais longos. Dependendo da opinião do treinador, nós vamos tomar a decisão de implantar ao plantel ou emprestar para outro clube.
Você comentou sobre a folha salarial de R$ 2,1 milhões por mês. Como está a parte financeira?
Nós estamos desde o primeiro dia em busca de novas receitas. Estamos trabalhando muito junto aos sócios, conversando com fundos de investimento e outras empresas que queiram aproveitar o espaço belíssimo do Couto Pereira. Queremos levar a garotada da base para o CT e a parte administrativa também. Portanto, teremos muita área comercial aqui em um espaço nobre em Curitiba. Estamos trabalhando com os patrocínios na camisa e com propostas adiantadas. Não completou dois meses da nossa posse e as conversas levam tempo. Queremos buscar a melhor receita possível de uma empresa admirada e que queira se juntar ao Coritiba.
Ouso dizer que a Série B será tão interessante quanto a Série A. Não posso montar um time de R$ 1 milhão contra Cruzeiro, Vasco, Botafogo. Ainda tem Guarani, Ponte Preta, Goiás. São times muito fortes e tem 10 times em igualdade de condição para buscar o acesso. Por isso, nós estamos criteriosos nas contratações. Pode dar errado, mas será difícil.
Um outro assunto importante é o uniforme. Permanece a 1909 ou vai ter um fornecedor de material esportivo?
Estamos encaminhando por uma opção híbrida. Ou seja, ter uma marca internacional fornecendo os uniformes oficiais para todo o clube e compatibilizando com o uso da 1909. Embora no caso da 1909, nós já estamos fazendo reuniões para reestudar preço e qualidade do material. Uma marca internacional não dá vestuário completo, define um padrão e o resto terá que fazer fora. Se já temos o contrato com a 1909, vamos fazer. Mas ouvindo a torcida, o valor era muito alto e a qualidade caiu muito em relação às marcas internacionais. A ideia é uma opção híbrida.
Como está a situação para o retorno do zagueiro Miranda ao Coritiba?
Estamos lutando tudo que podemos e o Miranda também está para ficar conosco. Um jogador como ele recebe assédio. O advogado dele tem falado direto conosco e o Miranda sempre vem no estádio com o filho. O lado da paixão pelo clube vai influenciar muito. E a segunda carreira dele que estamos estruturando vai deixa-lo muito sensibilizado. Mas é uma conversa longa até porque muita gente procurou ele. Tenho muita esperança que ele será o símbolo desse Coritiba.
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