A trajetória da empreendedora síria Myria Tokmaji é marcada por recomeços e coragem: nascida na Síria e radicada em Curitiba desde 2013, a empreendedora fugiu da guerra junto com a família e começou a vida do zero no Brasil.

siria-foge-guerra-joias-premio-curitiba5
Myria Tokmaji fugiu da guerra na Síria e transformou a dor em arte em Curitiba. (Foto: Levy Ferreira/SECOM).

“Quando você foge de uma guerra, não escolhe para onde vai. Chegamos aqui como quem cai de paraquedas. O choque cultural foi muito difícil, mais do que eu imaginava. Eu estava com espírito de recomeço, mas muitas vezes pensei em desistir”

relembra Myria.

Nascida em Alepo, Myria cresceu em meio à arte, à música e ao trabalho manual. Filha de ourives, acompanhou desde cedo o processo de criação de joias. No ano passado, conquistou o terceiro lugar no Prêmio Empreendedora 2025 da Prefeitura de Curitiba, na categoria microempreendedora individual, com a Ebla Joias.

As criações da Ebla Joias – uma marca autoral que transforma memória, identidade e resiliência em peças únicas com significado histórico e cultural – misturam prata, madeira, madrepérola, bordados aplicados manualmente e inscrições em árabe e aramaico, língua ancestral falada por Jesus Cristo. Cada peça carrega referências afetivas e culturais que dialogam com a história pessoal da empreendedora.

Sozinha, jovem e sem falar português, ela enfrentou inúmeras dificuldades, mas conseguiu sobreviver com trabalho artesanal e memória afetiva. Durante a guerra, sem internet e sem poder atuar como designer gráfico, Myria aprendeu crochê com a avó. No Brasil, essa habilidade se transformou em sustento.

“Eu fazia acessórios de crochê, colocava numa caixa de papelão e vendia na saída da igreja. Com isso, paguei aluguel, me mantive e comprei a primeira coisa que lembro até hoje no Brasil, uma bicicleta para conhecer Curitiba”

recorda.

A virada profissional começou com a decisão de investir na formação em design de joias. Sem encontrar cursos na área em Curitiba, Myria passou a viajar todos os fins de semana para São Paulo para estudar no Instituto Europeu de Design.

“Era um curso caro, cansativo, fazia bate e volta toda semana. Depois veio a pandemia, seguimos online e consegui concluir o TCC. Todo o projeto da Ebla Joias nasceu desse trabalho final”, explica.

O trabalho da marca é desenvolvido em parceria com o pai de Myria, que retomou a ourivesaria ao lado da filha após perder toda a estrutura profissional construída na Síria. Juntos, eles transformaram a experiência familiar e a herança cultural em um negócio autoral reconhecido oficialmente pela cidade.

O reconhecimento no Prêmio Empreendedora 2025 teve um significado especial para Myria. “Quando ouvi meu nome, lembrei da jovem que fugiu da guerra, da mulher que se sustentou vendendo crochê e da empreendedora que escolheu transformar dor em arte. Esse prêmio reconhece esforço, pesquisa e o trabalho de uma família inteira”, afirma.

Hoje, além de comandar a Ebla Joias, Myria atua como palestrante e participa de projetos culturais, compartilhando a história de superação e incentivando o empreendedorismo. Em suas falas, reforça que oportunidades existem, mas precisam ser buscadas.