
Anti-pop, sem pretensão de integrar panelas e até mesmo rotular a sua primazia musical. Resp é um retrato sonoro que não liga para as amarras. Músico e produtor musical, o multiartista utiliza diferentes linguagens para expressar o universo das suas letras insólitas entre a solitude e solidão. Com o lançamento do EP “S3 GOSPEL DO ASFALTO” (Resp/2023), Resp expressa ao longo das três faixas a sua própria crença artística.
“Eu não me encaixo bem em lugar nenhum. Eu nunca me identifiquei com as panelas. Pode até ser um problema para mim já que eu não me insiro em nenhuma. Mas, sempre tive amizades e afinidades com artistas de diversas linguagens”, reflete o curitibano Resp sobre a jornada da atual cena musical vivenciada por ele pelo sul do país.

Se existe uma linha tênue entre o mindstream e todos os percalços enfrentados atualmente pela indústria fonográfica, quando o assunto é a ruptura de barreiras sobre o gênero musical, o próprio mercado reluz a déficit em admitir o retrato de uma nova geração onde a música é o meio para a construção de determinada obra.
“É muito difícil definir a minha sonoridade. Eu gosto muito da ideia do anti-pop. Tem nuances do pop, mas tem alguma coisa que gera certa estranheza, elementos que não são palatáveis e vira algo estranho. Eu sempre gostei Do Contra, o personagem da Turma da Mônica, mas também não dá para ser do contra o tempo inteiro”, pondera Resp.
Da contracultura à arte marginal, Resp faz da sua poética artística a consonância das expertises amadurecidas ao longo da sua trajetória em projetos como Cora, Dunas, Veenstra, ímã, Namomo, e/ou, Shower Curtain e terraplana. “O Lorenzo sempre foi músico. O RESP nasce quando eu quero fazer tudo sozinho”, confessa Lorenzo Molossi, o músico e produtor musical responsável pela persona Resp.
Lorenzo x Resp
Curitibano, Lorenzo Molossi já morou em diversos bairros da capital: Santa Quitéria, Bigorrilho, Mercês, A-hú e Portão. Sempre em trânsito, a música e o destaque pela imprensa começam a resplandecer a partir de 2011 com a banda Dunas, formada também por Guilherme Nunes, Francisco Bley e Gabriel França.
Do pop-rock ao experimental, em um mercado que vivenciava o estopim do consumo digital, a Dunas lançou os álbuns “Boas-Vindas” (Coletivo Atlas/Dunas/2014), “Ad Astra” (Coletivo Atlas/Dunas/2015), “Quarenta e Cinco Minutos” (Coletivo Atlas/Dunas/2015) e “Descortinar dos Seres” (Coletivo Atlas/Dunas/2016).


Paralelamente, em 2012, Lorenzo, que era o baterista da Duna já flertava com a ideia de personagens e linguagens múltiplas quando lança o projeto Veenstra e usa o pseudônimo François Veenstra e dá início a uma nova jornada quanto produtor musical.
Com o Veenstra, lança e produz a trilogia dos álbuns “Journey To The Sea” (Independente/Veenstra/2012), “Six Months of Death” (Independente/Veenstra/2013) e “People & The Woods” (Coletivo Atlas/Veenstra/2013).
Encabeçado por Lorenzo, a Veenstra foi do quarteto ao sexteto com Henrique Neves (bateria), Thomas Berti (baixo), Guilherme Nunes (guitarra), Leonardo Gumiero (voz, teclados e efeitos) e Marcela Mancino (voz e projeções visuais) e ainda lançaram o álbum “Map of the Limbo” (Veenstra/2016).
Em 2018, com Kaíla Pelisser (sintetizador, voz e drum machine), Katherine Zander (guitarra, voz, beats digitais e sintetizador), Lui Bueno (guitarra e voz) e Leonardo Gumiero (baixo, sintetizador, beats digitais e cítara), Lorenzo vai da bateria ao drum machine com o dream-pop e rock psicodélico da banda Cora e o único álbum lançado: “El Rapto” (Cora/PWR Records/2018) com produção assinada por Leonardo Gumiero.
A parceria entre Molossi e Gumiero – que já dividiam as aventuras sonoras com desde a Veenstra – foi selada e ganhou vazão, principalmente para um novo público com o lançamento do álbum “ímã de nove pontas” (ímã/2020) da banda ímã.

Formado originalmente por André Garcia (guitarra, violão e voz), Dayane Battisti (cello, violão, cavaquinho e voz), Francisco Okabe (cavaquinho, violão de 7, flauta e voz), Leonardo Gumiero (baixo, sintetizador e voz), Lorenzo Molossi (bateria, guitarra e voz), Luciano Faccini (clarineta, violão, guitarra e voz), Má Ribeiro (percussões e voz), Melina Mulazani (percussões e voz) e Yasmine Matusita (bateria e voz), a ímã é um projeto divisor de águas para Molossi em relação ao seu trabalho solo e as colaborações com Gumiero.
“Eu e o Leonardo somos irmãos e trabalhamos juntos há dez anos. Eu vi o processo dele de crescimento. Sempre admirei a forma profissional da execução e os projetos. Ele é um cara constante”, celebra.
O anti-pop de Resp

“O Resp é legal. O Lorenzo não tem nenhum mistério”, define em tom mútuo o músico e produtor com quase 15 anos de história. A tenuidade entre um e outro é a soma enigmática aflorada entre ego e alter ego. Ainda assim, após anos dividindo o palco, os atuais desafios de Resp ampliam a convergência da sua obra.
“Eu sinto que as minhas ideias pelas redes são diferentes. Tem dias em que eu só quero falar para os meus amigos e outros, só com os fãs. Eu sempre pergunto: o Resp faria isso? Tem sido um baita trabalho. Eu só queria criar e fazer show”.
Coeso sobre o processo artístico, embora a realidade destoe da engrenagem enfrentada por diversos artistas do dito cenário independente, Resp entende a diferença de ser um artista solo e estar em cena com bandas. Principalmente, em consideração ao distópico ano de 2020 modificado pela pandemia mundial e os efeitos gerados dois anos depois.
Em 2022, quando divulgou o álbum-filme “ESCAMA” [imagem acima] com as participações de Bordas, d4crvz, omar, JOCA e Fernanda Coral, Resp entrou em turnê e passou por São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Joinville. Ouça aqui.


Dois anos antes, em 2020, Resp fazia sua estreia com “2x” (2020), álbum destacado pela imprensa e responsável por projetá-lo.
Ou seja, com o lançamento do EP “S3 GOSPEL DO ASFALTO”, (Resp/2023), a estratégia utilizada por Resp vai de encontro à fusão entre a arte, mercado, entendimento dos respectivos nichos atuais e formação de público.
“Sempre trabalho com o álbum em mente. O EP é a forma que eu encontrei para apresentar outras músicas do meu trabalho e gerar o consumo pelas plataformas. Do álbum ‘Escama’, por exemplo, a ideia era lançar um duplo, mas optei por fazer outras estratégias”.

Repleto de texturas, samplers da música clássica, poéticas entre a palavras escrita e falada, características da sonoridade industrial e experimentos eletrônicos para além do indie, “S3 GOSPEL DO ASFALTO” traz a mix e master assinadas por Leonardo Gumiero, fotos por Miguel Borba e capa de Yorka, com três faixas: “SIMPLES”, “Emoção > Razão” e “Noite Infinita pt2”.
“O fato de não estar com banda no palco é difícil. A tensão é completamente voltada para você. Eu era baterista, estava sempre lá atrás. O primeiro show foi um choque, então eu criei o Resp e entrego uma performance. Esse é o gostoso do negócio”, confessa Lorenzo sobre o Resp.
“S3 GOSPEL DO ASFALTO” está disponível pelas plataformas digitais com distribuição pela Tratore. As composições, produção e mix são assinadas por Resp.
Agradecimentos: Da Lira Cultural, Flora Miguel, Lívia Mello e Lorenzo Molossi
Fotos: Eduarda Hipólito
Capas: Reprodução
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