Quatro cães comunitários que viviam há anos no entorno do Centro de Distribuição (CD) do Mercado Livre, em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba, desapareceram após uma ação realizada na madrugada do dia 28 de janeiro. Funcionários relatam uma captura feita por volta das 2h30 às 3h, com uso de um enforcador improvisado. A empresa confirmou o desligamento de envolvidos e afirma colaborar com as autoridades. A Polícia Civil já intimou responsáveis e analisa imagens de câmeras de vigilância.

Os cães eram conhecidos na região como Rajada, Cara Preta, Xuxa (Caramela) e Lobão (Pretinho). Segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMMA), eles eram castrados e microchipados pelo município. De acordo com funcionários ouvidos pela Banda B, os animais viviam entre a rua Ubirajara Sávio Torres e áreas próximas ao pátio do CD. “Eles todos estavam com a saúde boa, em dia”, afirmou uma funcionária, que pediu para não ser identificada por medo de retaliação.

Colagem de quatro fotos mostra cães que desapareceram após 'operação' no Centro de Distribuição do Mercado Livre
Da esq. p/ dir.: os cães Xuxa; Lobão e Xuxa; Lobão e Xuxa (de novo); e Rajada, Cara Preta e Branquinho – Foto: Arquivo pessoal

Três funcionários relataram à reportagem que a retirada ocorreu durante a madrugada, antes do início do expediente da manhã. A abertura de uma investigação sobre o caso foi revelada pelo jornal O Popular e confirmada pela Banda B. “Na madrugada do dia 28 de janeiro, por volta das duas e meia da madrugada, foi feita uma operação, entre aspas, de higienização naquele lugar”, disse uma trabalhadora.

Uma funcionária ouvida pela Banda B disse ter presenciado o momento em que um coordenador de um dos setores do Centro de Distribuição do Mercado Livre de Araucária e outros colaboradores usaram um veículo Fiorino para capturar os animais.

“Eu vi a parte final da ação, quando eu acho que os cachorros já estavam dentro da Fiorino. […] Num primeiro momento, isso já gerou estranheza entre nós porque nunca vimos funcionar ONG de madrugada. Eles pegaram os cachorros e não sei o que foi feito com eles. Levaram sem consentimento de qualquer órgão responsável. Foi promovida uma higienização ali”, comentou.

Segundo os relatos, teria sido usado um equipamento improvisado, descrito como um enforcador feito com cano de PVC e fio ou corda (veja a imagem abaixo). “Eles fizeram um enforcador com cano de PVC e um fio, que parecia ser de luz, para resgatar os cachorros”, contou outro funcionário. Ainda segundo as fontes, os animais teriam sido colocados em uma Fiorino branca alugada. “Os cachorros se mijavam porque não queriam entrar na Fiorino. Mesmo assim, eles forçaram e pegaram”, afirmou o segundo entrevistado.

Foto mostra suposto enforcador usado na captura dos quatro cães comunitários em CD do Mercado Livre
Foto mostra suposto enforcador usado na captura dos quatro cães comunitários em CD do Mercado Livre – Foto: Arquivo pessoal

Funcionários contestam versões

Funcionários afirmam que a justificativa interna para a retirada seria de que os cães estariam atacando pessoas. Essa versão, no entanto, é contestada por trabalhadores. “Eles alegam que os cães ficavam mordendo as pessoas, mas eles nunca morderam”, disse um dos trabalhadores.

Uma denunciante afirma que o único animal considerado mais arisco não foi capturado: “Se em algum momento um deles chegou a tentar morder alguém… Foi o único que eles não conseguiram retirar de lá, que é o Branquinho.”Ela declarou não ter presenciado a ação, mas afirma ter ouvido relatos de colegas: “Foi uma gritaria. Elas chegaram a se urinar. Nossos empregos estão em risco.”

Foto registrada durante o dia mostra dois cães, um preto e outro caramelo
Lobão e Xuxa estão entre os quatro cães comunitários desaparecidos desde 28 de janeiro – Foto: Arquivo pessoal

Segundo relatos, após a retirada, diferentes explicações teriam sido dadas internamente sobre o paradeiro dos animais. Inicialmente, teria sido informado que uma ONG de Campo Largo teria recolhido os cães. A organização citada, segundo a funcionária, negou ter recebido os animais. A Banda B procurou a entidade citada, mas não houve retorno.

“Depois falaram que eles tinham sido adotados por donos de uma chácara enorme, depois veio a história de uma granja”, relatou. Dias depois, em 10 de fevereiro, três cães foram entregues pelo Mercado Livre à ONG DNA Animal, em Fazenda Rio Grande.

A ONG, no entanto, divulgou nota afirmando que os animais recebidos não são os mesmos mencionados na reportagem sobre o desaparecimento em Araucária. “Esclarecemos desde já que os cães que foram acolhidos na ONG não são os apontados na reportagem, como demonstram as fotos que deixamos em anexo daqueles que estão sob nossos cuidados”, diz o comunicado da entidade.

Funcionários ouvidos pela reportagem afirmam que os cães desaparecidos eram microchipados, o que permitiria identificação formal.

Colagem inclui três fotos de cães deixados em ONG de Fazenda Rio Grande
Imagem mostra cães deixados na ONG DNA Animal, cujos pets não são os quatro desaparecidos – Foto: Reprodução/ @ongdnaanimal no Instagram

Ao menos duas funcionárias relataram que as imagens do circuito interno do CD, cujo conteúdo foi solicitado pela Polícia Civil, foram apagadas pelo setor de monitoramento.

O coordenador citado por uma das funcionárias, apontado como responsável pela “operação”, não respondeu às tentativas de contato. Uma gerente do CD citada em desdobramentos envolvendo a entrega de cães à ONG DNA Animal também não respondeu.

Bombeiro civil confirma participação

O bombeiro civil Alexandre de Andrade, que presta serviços no CD por meio do Grupo Protege, confirmou que participou da ação. “Sim, houve essa ação. Fui solicitado pelos superiores responsáveis para resgatar os cachorros, acreditando que seriam encaminhados a uma instituição”, declarou.

Por meio de mensagem, porém, ele negou o uso do enforcador. “Eu mesmo apanhei os animais no colo para garantir a segurança. Como todos do local sabem, sempre tive uma excelente relação e respeito com os cachorros”, alegou.

Alexandre pediu que a Banda B entrasse em contato com seu supervisor para se manifestar sobre o ocorrido. O coordenador do profissional, contudo, informou não ter autorização para se manifestar em nome da empresa.

Em nota, o Grupo Protege disse repudiar atos que envolvem maus-tratos contra animais e informou que “não comenta situações específicas ou casos que envolvam clientes”. Veja a nota na íntegra abaixo:

“A integridade e a ética de suas operações são prioridades absolutas para o Grupo Protege, que reafirma seu compromisso com a sociedade e sua repulsa a qualquer forma de maus-tratos contra animais. Em respeito às normas de confidencialidade e às obrigações contratuais que regem sua atuação, a companhia não comenta situações específicas ou casos que envolvam clientes. A empresa permanece à disposição das autoridades competentes para quaisquer esclarecimentos necessários.”

Mercado Livre anuncia demissões

Em uma primeira nota enviada à Banda B, na segunda-feira (16), o Mercado Livre afirmou que “repudia e não compactua com maus-tratos a animais”. Além disso, destacou que a “companhia está colaborando com as autoridades com a máxima prioridade para o completo esclarecimento dos fatos.”

No dia seguinte, nesta terça (17), a empresa confirmou o desligamento de funcionários: “Assim que tomamos conhecimento dos fatos, iniciamos uma apuração interna rigorosa. Como resultado imediato dessa investigação, a direção do Mercado Livre tomou a decisão de desligar os funcionários cuja participação direta ou indireta no episódio foi identificada.”

O Mercado Livre informou ainda que está organizando imagens do circuito interno para entregar às autoridades e que busca identificar o paradeiro dos cães com apoio de empresas especializadas.

Prefeitura de Araucária não foi comunicada

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Araucária informou à reportagem que nunca foi comunicada sobre a retirada dos animais. “É importante esclarecer que não existe autorização para retirada dos animas do local e que esses cães eram castrados e microchipados (para identificação) pelo município”, diz trecho do comunicado.

“A secretaria confirma que, assim que tomou conhecimento do ocorrido, realizou as diligências no local e notificou o estabelecimento. Por meio da Notificação Ambiental, o representante legal foi acionado para que reúna fatos, informações e preste os devidos esclarecimentos. O caso está sendo investigado pela Delegacia de Polícia local”, completou a pasta.