Eloi Zanetti não é tão somente o homem de marketing e propaganda com que nos acostumamos a identificar grandes momentos da vida institucional do extinto Bamerindus (ao lado de Sergio S.Reis). Escritor, homem de planejamento estratégico em publicidade, conferencista, há cinco anos mora na Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais. Num espaço rural paradisíaco, com a mulher, cuida da plantação de oliveiras e produz óleo extra virgem da melhor qualidade.
Homem de espírito, Zanetti é inquieto observador do mundo ao derredor.
Sua alma mistura tonalidades de Historiador e voos de antropólogo e etnógrafo. Por isso, acho importante passar para o leitor as observações que seguem sobre as raízes judaicas dos mineiros. O material é precioso, pois entender a alma e o coração do povo das Minas Gerais é sempre uma aventura que desafia a psicologia social e a história do Brasil:
RELIGIOSIDADE MINEIRA
Morando em Minas há cinco anos confirmei o que já havia percebido há muito tempo – a religiosidade do seu povo. Aconteceu assim: eu estava em Ouro Preto e ao observar a ornamentação das igrejas com tanto ouro, tantos santos e tantos sinais de devoção senti uma estranha energia a me sufocar – era a religiosidade impondo a sua força. Um novo sinal me foi dado tempos depois, quando revi em DVD a apresentação do Grupo Galpão, na sua maravilhosa adaptação da peça Romeu e Julieta. Percebi que os detalhes das vestimentas, dos adereços, cores e imagens de “espíritos santos” usadas no palco traziam intenso simbolismo religioso. Em Minas, esta forma de representação invade todas as áreas, principalmente a das artes: o estilista mineiro Ronaldo Fraga deixa transparecer no seu trabalho de moda forte presença mística. Ele vai fundo na alma do seu povo e deve ser por isso que a sua obra é ao mesmo tempo tão brasileira e tão universal.
ADÉLIA PRADO
Outra mineira, Adélia Prado, com sua solidez poética, sintetiza aquilo que seu padrinho literário Carlos Drummond de Andrade um dia escreveu:
“Anjos da guarda em expedição noturna velam sonhos púberes entre cortinados e grinaldas…”. Anjos da guarda é o que não faltam nas terras altas; Aleijadinho e o barroco local deixaram centenas de testemunhos.
COM SUTILEZA, ÀS VEZES
Este forte simbolismo permeia entre os amplos vazios do espaço/tempo mineiro, ora sob formas escancaradas, ora sob formas sutis e aparece nos costumes e nas artes locais; a música e o artesanato são os exemplos mais representativos, pois são eles que carregam o sagrado que ainda vive e respira nas descendências ibéricas/judaicas, ameríndias e africanas do seu povo. Sincretismo que expõe uma pluralidade maior do que em qualquer outro estado brasileiro.
CARGA BARROCA
Além da carga mística barroca o mineiro herdou fortes tradições judaicas com a vinda dos chamados cristãos-novos – judeus convertidos à força e que precisavam esconder seus costumes e crenças. Hoje elas são percebidas, mas pouco se conhece as origens. Essas aparecem, principalmente nas zonas rurais nos seus ditos populares, nas tradições espirituais e no modo de ser: o mineiro é calado, escuta mais do que fala, é econômico, pão duro, não desperdiça nada, varre a casa da porta para dentro, dá uma para o santo ao beber algo, joga um punhado de terra no caixão quando ele desce à sepultura, abençoa suas colheitas, coloca um objeto de ouro na criança ao nascer, é melancólico e esconde a comida na gaveta da mesa quando chega alguém em casa, pois não podia se expor como judeu se estava comendo comida kosher.
MUITOS SANTOS
É devoto de vários santos e muitos ostentam nomes como José, João, Geraldo, Lucas, Marcos, Benedito, Luiz, Gonçalo, Maria, Ana e Aparecida.
Devoção enriquecida nas festas populares, tais como a de Reis, São Gonçalo, São Sebastião, do Divino, da Semana Santa, a Reza de Cruz e as dezenas de romarias e procissões, isso só aqui na região onde moro – Sul de Minas. Não raro ouve-se que fulano de tal foi fazer sua visita anual à Basílica de Nossa Senhora Aparecida – aqui perto.
MUITAS CAPELAS
Ao andar pelas estradas rurais, nos antigos caminhos de ir-e-vir se encontram ermidas, capelas, paróquias e igrejas. Foram construídas há muito pelas mãos de algum padre ou bispo que outrora por aqui passaram em suas viagens de catequese e evangelização. Ir à missa aos domingos e respeitar a figura do padre como autoridade religiosa e até política ainda é dever de muitos.
O NOME DE DEUS
Também percebi que os mineiros usam o nome de Deus a todo momento, principalmente ao se cumprimentarem: Deus te acompanhe. Deus lhe pague.
Seja o que Deus quiser. Deus me livre. Deus é pai. Deus te crie. Vá com Deus. Deus te ajude. Juro por Deus. Deus permita, etc.
MONTANHAS MÍSTICAS
O historiador Gilberto Furiel me ajuda a finalizar este texto com o seguinte depoimento: “o mineiro é místico, não somente pela própria constituição histórica/religiosa, mas pela própria situação geográfica – as montanhas. As montanhas de Minas provocam êxtase e nos levam a um certo transe. É cenário propício para um olhar interior, uma busca. O mineiro nasceu aos pés das montanhas, caminha por entre a neblina fina dos seus vales e cumes, sente o vento e prova o isolamento e o silêncio, requisitos para uma vida ascética. “
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