Sua geração de jornalistas e de homens públicos foi única. Dentre os comunicadores, cresceu ao lado de Mafuz, Jota Pedro, Carneiro Neto, Vinicius Coelho, Malu Malucelli, Carlos Alberto Pessoa, Machado Neto…
Na política foi fiel escudeiro de Ney Braga. Mas foi como Constituinte de 1988 que teve seu momento mais significativo.

Airton Ravaglio Cordeiro

 

Jornalistas não acataram o pedido de Andréa Cordeiro Juvenal, a mais velha dos filhos de Airton Ravaglio Cordeiro e noticiaram ainda na manhã desta quarta, 27, a morte do jornalista e ex-constituinte federal de 1988.

Andréa preferia que a morte só fosse anunciada na quinta, 28, quando tudo estará definido sobre as exéquias.

Airton morreu às 11 horas desta quarta, 27, no INC, onde esteve internado – desta última vez – por um mês. Primeiro, teve um AVC, depois enfarte que lhe foi fatal. Viveu os últimos dez dias entubado, sedado, distante de tudo e de todos, bem ao contrário do que foi sua rica existência envolvida com o jornalismo esportivo e vida pública como legislador, muitas viagens a trabalho pelo mundo, e o cotidiano do rádio, jornal e televisão.

HÁ DOIS ANOS…

Há pelo menos dois anos e meio Airton Cordeiro estava sob intensos cuidados médicos, recuperando-se de cirurgia neurológica com complicações advindas, comenta-se, de implante de válvula que apresentou defeitos. Isso o obrigou a duas novas cirurgias, na época. Mas nunca mais se recuperou plenamente.

Andava ultimamente de cadeira de rodas.

JORNALISTA REFERENCIAL

Os anos 60, 70, 80 e parte dos 90 mostraram ao Paraná o multifacetado jornalista especializado em futebol, torcedor do Paraná Clube (“minha paixão primeira era o Ferroviário”, costumava dizer).

No começo do governo Saul Raiz, em 1974, na Prefeitura, o então vereador fortemente ligado ao grupo de Ney Braga, assumiu a liderança do prefeito na Câmara Municipal.

Foi de um bom desempenho absoluto, o orador de enormes qualidades defendendo as propostas renovadores de um dos mais relevantes prefeitos que Curitiba teve.

Costumava lembrar, saudoso, daqueles dias, e dos embates que tinha com um time qualificadíssimo de vereadores. Trabalhador engajado na missão recebida, foi essencial no apoio ao prefeito que deixou “uma enorme obra, essencial para a cidade, mas boa parte dela enterrada em canalização de rios, saneamento e asfalto”, dizia sempre.

SANGUE QUENTE

Quem, como eu, conheceu bem Airton Ravaglio Cordeiro, sabe bem avaliar o universo de qualidades que o identificou.

Leonino, quanto ao signo – para os vidrados no Zodíaco – poderia ter debitado o sangue quente, de quem “não leva desaforo para a casa”. Nisso era implacável, não deixava de registrar sua opinião. Não importando a quem contrariasse nem medindo consequências. Nesse ponto, acho, falava o lado italiano, eloquente, rápido de raciocínio, enorme capacidade de computar dados e associar situações e informações.

Foi assim com tal agilidade mental que o jornalista, formado em Direito pela UFPR – numa época de escassos cursos de ciência jurídica – que ele foi se impondo. Nunca esquecia dos sábios mestres, citando, no Colégio Estadual, os Wouk e Osvaldo Arns; na Faculdade de Direito, René Dotti e Egas Monis de Aragão, dentre outros.

ANDANÇAS POLÍTICAS

Com as mudanças ocorridas com a redemocratização do país, em 1985, Airton acabou mudando de partido, depois de ter seguido Ney Braga na Arena, PDS e PFL. Um dia, aceitou a pregação do antigo PDT de Leonel Brizola, como acontecera com Jaime Lerner e um amplo leque de políticos paranaenses. Foi pelo PDT – do qual jamais faria parte do grupo xiíta – que ele se elegeu deputado Constituinte em 1988.

TONINHO MALVADEZ

Lá conviveu com notáveis da política brasileira e teve momentos históricos. Um deles, nunca deixou de contar: foi quando o ministro das Comunicações de José Sarney, Antonio Carlos Magalhães, quis comprá-lo, prometendo-lhe concessões de emissoras de rádio, para que votasse pelos cinco anos de mandato do maranhense.

O baiano ouviu um solene “não”, bem ao contrário do que aconteceria com outros deputados do Paraná, que engordaram seu patrimônio com a adesão à causa Sarney.

– Em compensação ninguém nunca pôde me acusar de negociata, dizia, de peito estufado.

NA COPA DO MUNDO

Brasília nunca foi sua praia, não se deu bem na Capital. Poucos amigos lá cultivou e Oscar Alves era um de seus companheiros da Constituinte, assim como frequentemente estava com Cleto de Assis, que fora secretário de Ney.

Acho que apenas Carneiro Neto, dentre os jornalistas paranaenses, foi o que mais cobriu jogos internacionais da Copa do Mundo do que Airton. A voz e o olhar do Airton identificaram as grandes jogadas na Copa para o Paraná.

No entanto, antes e tão importante quanto a carreira jornalística iniciada com Maurício Fruet, na antiga Rádio Emissora Paranaense, estava o mundo da política. Tinha orgulho de ter, ao lado de Luiz Alberto Martins de Oliveira, liderado o governo Ney Braga na Assembleia Legislativa do Paraná. Seus embates, depois, ao fim do governo Ney, com Requião na Alep ficaram históricos, pois a oratória e o embate parlamentar bem cadenciado eram o forte dos dois.

SIGILO DA FONTE

Na Constituinte, seu grande feito foi conseguir transformar em cláusula constitucional o direito ao sigilo da fonte.

Para mim, não foi surpresa: o jornalista Airton Cordeiro teria mesmo de marcar sua passagem pela chamada Constituição Cidadã com um arco pétreo, em defesa de profissionais de diversos naipes, e especialmente dos jornalistas.

Airton fará falta num tempo de raquítica apuração dos fatos e da opinião rasteira que campeia em mídias não profissionais que buscam emular o Jornalismo.

NB: Airton era viúvo de Nina Maria do Rocio Cordeiro, e pai de Andréa, Adriana e Airton Filho. Deixa 3 netos e dois genros.

Seu velório deve ocorrer nesta quinta, a partir de 12 horas no Crematório Vaticano.

Para ler a coluna completa do Blog Aroldo Murá, clique aqui.

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