No microfone da Banda B.

“Oi gente querida. Com tristeza, comunico falecimento do meu grande parceiro Michel Micheletto, diretor executivo da Rádio e Portal Banda B, presidente da Aerp, associação de rádio e televisão do Paraná. Vítima da COVID 19. Descanse em paz, Michel”

A mensagem acima, do comunicador, fundador e presidente da Rádio Banda B, Luiz Carlos Martins, postado cedo desta manhã, 15, provocou consternação no universo de amigos que Michel cativou. Também me incluo entre esses amigos e por isso transcrevo parte do perfil de Michel Micheleto que preparei para o número 12 de meu livro “Vozes do Paraná – Retratos de Paranaenses”. O perfil vai se completar com um roteiro de vida, detalhando momentos significativos da vida do presidente da AERP, advogado, palestrante.

Leia, a seguir:

Michel Micheleto: liderança gerada no “ora et labora”

Trecho inédito do perfil biográfico de Michel Micheleto, que será publicado na 12ª edição de “Vozes do Paraná – Retratos de Paranaenses”. A última entrevista que concedeu para o livro foi em janeiro de 2020.

Testei na Associação de Emissoras de Rádio do Paraná (AERP), que ele preside, e na Rádio Banda de Curitiba, da qual é diretor Executivo, rras ninguém identificou o cidadão chamado José Heriberto Micheleto.

– Quem, Heriberto? – a surpresa com o nome foi geral.

No entanto, a pergunta teve resposta imediata quando indaguei sobre como e onde encontrar o Michel Micheleto, ou “Doutor Michel”.

Estou certo de que Michel Micheleto, como é conhecido nosso personagem em todo o Paraná, pode perfeitamente justificar uma etnografia em torno de sua liderança gestada a partir dos anos 1970/80, com olhar fixado nele e incluindo grupos de jovens do Norte Pioneiro daqueles dias.

Tudo com atenção para igualmente entender e descrever aqueles tempos históricos. Tempos forte unidade em torno das diretrizes sociais e espirituais da Igreja Católica e sua influência na sociedade abrangente.

Tradicionalismos

É igualmente relevante considerar outros aspectos da Jacarezinho de então, cidade cenário do nascimento e desenvolvimento do jovem pobre, naquele espaço marcado pela presença de membros da família real brasileira que lá moravam, e tinham terras.

Cidade de grandes latifúndios, que também foi berço de um dos mais importantes nomes ligados ao movimento tradicionalista brasileiro, o mineiro arcebispo Dom Geraldo Proença de Sigaud.

Na verdade, são muitos os ângulos sob os quais se pode olhar e assim entender Michel, que ganhou o apelido definitivamente incorporado ao seu nome – espécie de segundo nome – porque era bom de corrida, em Jacarezinho, no curso fundamental.

Explico: o cognome foi dado de inopino pelo professor de educação física Raul, que, surpreso com as qualidades de corredor, resolveu simplesmente chamá-lo de “Michel”. Foi escolha aleatória, sem justificativa, mas que “grudou”.

A partir dali, Michel Micheleto sobrepujou o Heriberto, que é indispensável, claro, em situações legais oficiais.

Na formatura em Direito

Caixa de ressonância

Michel Micheleto preside a poderosa AERP, a associação paranaense que agrega emissoras de rádio e televisão do Estado, entidade sem fins lucrativos e apartidária, traço de união entre os comandantes do sistema de rádio e TV e a sociedade abrangente, o que inclui, pois, relações com o poder público, sem falar que é caixa de ressonância dos reclamos da de centenas de municípios. Há muito mais a contar de Michel.

Por exemplo, que ele, nos meios advocatícios, é reconhecido como respeitável especialista em Direito voltado à Saúde e às práticas médicas. Para o grande público, no entanto, ele é o Michel que, de segunda a sexta-feira, chega com sua mensagem de alimento espiritual-psicológico, às 8h30min, pela Rádio Banda B.

Sendo do entrevistado para o livro Vozes do Paraná, volume 12 (ainda
sem data de lançamento)

Tem ouvintes fieis, milhares que o escutam “com a maior unção”, como me testemunha uma jornalista. A voz pausada, o léxico e o sintático irrepreensíveis, a meticulosa citação de locais e datas com precisão, o educado olhar sobre pessoas de todas as esferas políticas e sociais – amigos ou, quem sabe, adversários – compõem uma boa “atmosfera” ou “clima” que acompanha Michel no seu dia a dia.

Nasceu cativante

Essa marca seria, porventura, fruto apenas de educação ou é congênita? Para amigos muito próximos de Michel, como o deputado e comunicador Luiz Carlos Martins, essa seria “qualidade nascida com ele”.  Coisas da genética? Ou escolha e decisão de realidades espirituais que entregaram à vida um Michel pronto para missões difíceis, como a de ser grande conselheiro?

Com a esposa e filhos.

O que fica claro é que Michel é dono de uma enorme capacidade de diálogo, alguém que logo estabelece empatia com o interlocutor, desde o primeiro encontro. O fator educação, passada por pais simples, gente irrepreensível e exemplar, fez Michel trombar com dificuldades na infância.

Foi quando o menino do bairro de Brejão, Jacarezinho, uma área absolutamente rural onde a família cultivava três alqueires de terra para pura subsistência, teve de estudar na cidade. Ele sofreu forte choque cultural na “metrópole” Jacarezinho que tanto se ufanava de ter entre seus habitantes descendentes da Família Real brasileira.

Muito além do bullying

O menino, lá em Jacarezinho, morando com o avô, foi lançado na realidade urbana, com outros valores, modos e gostos que não os do seu berço, o bairro do Brejão. Por isso, sofreu muitos preconceitos nos primeiros tempos na cidade grande, bullying, porque, como menino da roça, tinha sotaque e saberes próprios do meio rural, e que se chocavam com os valores dos colegas urbanóides. Isso embora saberes rurais contenham enormes riquezas e sabedoria. Embora as barreiras, a adaptação ao novo meio não demorou muito.

Michel, sem se desligar da substância trazida de casa – como o respeito aos valores cristãos -, enturmou-se, impôs-se no meio estudantil, primeira mostra de uma liderança que depois se tornaria muito evidente na cidade, e, anos depois, no Paraná.

 

DOM DA UBIQUIDADE

Quando se examina a maestria com que o jovem foi utilizando seu tempo, fica-se a observar: ele parece ter tido o dom da ubiquidade, conseguindo estar em mais de um lugar ao mesmo tempo (dom que identificou Santo Antonio de Pádua). Opera o milagre da multiplicação das horas, na escola, trabalho e dedicação a uma comunidade de jovens espiritualizados – Comunidade Santa Cruz – tudo em 24 horas do dia, em Jacarezinho.

A ideia do projeto foi mostrar que todos podem ser modelares cristãos, vivendo no mundo do trabalho. A comunidade, acredito, deve ter tido alguma inspiração num dos movimentos mais sólidos do catolicismo de meados do século 20, a Ação Católica.

Para um de seus melhores amigos, o deputado e radialista Luiz Carlos Martins – casado com Maria, prima-irmã de Michel -, o personagem é o resumo perfeito de duas grandes fidelidades: a educação formal, montada com muita persistência e constantes estudos, e a fé religiosa.

O resultado final, opina Luiz, “foi a geração de uma liderança muito diferenciada, parte dela exposta a partir de reuniões de treinamento (como o movimento TLC, Treinamento de Liderança Cristã), a fundação e a direção de entidades de apoio a carentes e drogados e o desenvolvimento de forte espiritualidade, ao lado de outros moços, como o hoje arcebispo de Cascavel, Dom Mauro”(*).

À parte traços diferenciados de uma personalidade singular, Michel firmou-se cedo como administrador de empresas, com passagens por posições de comando em cooperativa agropecuária e – momento marcante –ao lado do médico José Candido Muricy, administrando a Clinihauer, um mega empreendimento na área de seguro de saúde que depois seria adquirido pela Amil.

Em meio às nossas entrevistas para composição deste perfil de Michel Micheleto, pergunto ao personagem sobre como encaixá-lo do ponto de vista político. Não chego a me surpreender, sua resposta é aquela que a sabedoria dos romanos indicava como a mais adequada para situações complicadas: in medio, virtus – a virtude está no meio.

Ou, como o próprio Michel me disse ter ouvido certa vez de um velho sacerdote, daqueles formados ainda na visão Tridentina (Concílio de Trento) – “In Médio Tutissimo Íbis” (pelo caminho dos meio irás melhor…)” Assim, pois, como alguém que nunca aderiu a extremos – embora em certos momentos tivesse entendido certos aspectos da Teologia da Libertação de Gutierrez e Boff -, ele não tem dificuldades em se autoproclamar: – Diante de certas situações, posso até ser tido como de esquerda. Em todas, serei sempre aquele que segue os preceitos do Homem de Nazaré, que nos comove e inquieta…

Ondas do rádio

Michel nasceu ouvindo rádio, o veículo de comunicação que mesmerizava a maior parte dos moradores do Brejão. Ali a televisão ainda não dominava.

No entanto, quando se mudou para Jacarezinho, de seu universo de amizades faziam parte jovens que iam explicitando vocação para atuar no rádioe TV.

E foi por influência de Luiz Carlos Martins (projetado social e politicamente a partir de Jacarezinho) que Michel foi sendo “hipnotizado” pelas ondas do rádio.

Diretor da Rádio banda B de Curitiba – veículo de enorme penetração na Capital, e com presença maiúscula também na sua Plataforma de notícias da web -, Michel foi ampliando seu itinerário no universo radialístico.

Faz link com um imenso rol de ouvintes, de todos os estratos sociais, com diários, de segunda a sexta-feira, partilhando suas propostas de fé e ação, pelas ondas da Banda B de Curitiba e de Cambará.

 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Banda B.


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