Não pretendo fazer da pastora e ministra da Família e Direitos Humanos, Damares Alves, personagem privilegiada de análises deste espaço/blog/coluna. Não “tomei assinatura” contra ela, que, segundo se vocaliza em Brasília, já estaria sob estado de fritura pelo presidente Bolsonaro, que não a teria perdoado pela grande bobagem da definição “meninos veste azul, meninas, rosa”.
Já até mostrei alguns aspectos elogiáveis da vida de Damares, como sua defesa de crianças de rua e/ou violentadas, e o vigoroso trabalho contra o infanticídio em tribos indígenas.
QUERO ENTENDER
No entanto, tenho curiosidade enorme em tentar entender a dimensão cultural da ministra, sua percepção da realidade do que seja tratar da preservação das tribos brasileiros sob a tutela do Estado brasileiro.
São índios já suficientemente “atendidos” também por missões religiosas pentecostais e neopentecostais e algumas do protestantismo tradicional.
E que por séculos tiveram sob os ‘cuidados de missionários católicos’, particularmente dos salesianos, filhos e filhas de Dom Bosco.
IGREJA CATÓLICA
Para antropólogos ouvidos por mim, “os católicos causaram danos suficientes à cultura indígena, levando tribos inteiros a aceitar o cristianismo católicos e a desprezar valores que os identificavam pré-conversão.”
Hoje, na verdade desde o Concílio Vaticano II, a Igreja católica no Brasil – sob a orientação do CIMI, Conselho Indigenista Missionário, rompeu com o tradicional meio de evangelizar. Procura hoje em dia, em diálogo razoável com indigenistas da FUNAI e antropólogos da academia, tentando valorizar a cultura das tribos. E “conscientizar” os índios sobre direitos e deveres que têm e as obrigações que a Nação tem para com eles.
INFLUÊNCIA POLÍTICA
Seria ingenuidade garantir que o CIMI não sofre influência de partidos políticos, especialmente alguns à “gauche”. A linha do Conselho, de qualquer forma, adota franca posição de defesa das culturas indígenas (seriam 200 mil índios brasileiros hoje vivendo em reservas definidas pelo Governo).
PERDAS E GANHOS
Claro que a posição do CIMI levou a uma perda numérica, mais ou menos automática, de índios que se qualificam como católicos. E, ao mesmo tempo, o expressivo crescimento observado a partir do começo dos 1980 dos chamados crentes (pentecostais e neopentecostais). Em Aquidauana, MS, há até seminário para formação de missionários para trabalho exclusivamente com índios de variadas etnias.
SUGESTÃO A DAMARES
A sugestão de leitura do livro “Transformando os Deuses”, organizado por Robin M.Wright, Editora Unicamp (2004), é endereçada prioritariamente à ministra. Mas serve também para o ministro general Heleno (um dos quadros respeitáveis do Governo), que disse, dias atrás à Globo News, que o maior anseio das tribos indígenas seriam os confortos da eletricidade outras benesses da chamada vida civilizada.
Descaracterizado, não restou a algumas tribos senão ansiarem por uma errática assimilação.
Índios Kaingang na década de 1950 (Acervo do Museu do Índio); Hoje os Kaingang se dedicam à preservação cultural
NA REGIÃO SUL
A novidade do segundo volume, por exemplo, é abordagem do processo de cristianização – e perda da identidade dos índios – em regiões Sul e Sudeste do país.
A bem da verdade, pior do que essa perda de identidade pacífica foi a ação dos chamados bugreiros que, no século 19, promoviam amplo morticínio dos índios em Santa Catarina, para garantir a ocupação da terra pelos imigrantes europeus e fazendeiros. Quando muito, os bugreiros preservavam as vidas das crianças.
Os padres capuchinhos, que muito trabalharam com índios no Sul, têm certamente muita história para contar a respeito.
Assunto não falta para a ministra Damares, se ela quer mesmo entender da cosmologia dos índios brasileiros, suas crenças, seus valores, seus anseios e o como e por que assumem variados caminhos religiosos cristãos.
MARIA CECÍLIA HELM
Sugiro ainda à ministra, se for estudar a questão indígena no Sul do país, que acesse aos estudos da catedrática aposentada da UFPR, Maria Cecília Vieira Helm, antropóloga de enorme significância para o conhecimento da realidade kaingang.
Maria Cecília e o também professor José Loureiro Fernandes (in memoriam) têm uma obra seminal sobre o universo e a cosmologia dos nossos índios.
RESSIGNIFICANDO CRENÇAS
O livro citado, “Transformando os Deuses”, organizado pelo antropólogo Wright, deve estar esgotado. Mas a ministra sempre poderá conseguir um exemplar.
A obra poderá ser-lhe muito útil, pois mostra as muitas maneiras como os índios têm absorvido, rejeitado, transformado e ressignificado as doutrinas cristãs introduzidas por missionários cristãos entre eles. O que é importantíssimo para entender a alma indígena.
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