Eloi Zanetti(Colaboração Eloi Zanetti)
Assisti ao filme A Escavação e, em uma das cenas finais, o chefe da Arqueologia faz um discurso exaltando que os vestígios do homem anglo-saxão recém-descobertos o identificavam como refinado, inteligente e que se interessava por arte. Até então considerava-se essa era (600 d.C.) como “das trevas” e nada se sabia sobre a presença humana autóctone nas terras da rainha; todos os achados arqueológicos eram de vikings ou romanos. A citação no filme é uma sutil apologia da suposta superioridade britânica.
Recordando
Em 1911, em outra escavação na Inglaterra, “descobriu-se a origem do homem moderno” – uma fraude que durou 50 anos e foi estimulada por nada mais, nada menos, do que Sir Arthur Conan Doyle, o criador do Sherlock Holmes. A enganação foi desmascarada com a introdução das modernas técnicas de datação em carbono. Os ingleses, com sua mania de superioridade e nacionalismo, só aceitavam que a origem humana fosse em seu território – o Sol nunca se punha para o Império Britânico e o centro do mundo é o Meridiano de Greenwich.
Mudando de continente
Arqueólogos norte-americanos contrariam sistematicamente a opinião de especialistas brasileiros, franceses e alemães, não aceitando as datações das pinturas e dos esqueletos encontrados na Serra da Capivara, no Piauí, como a marcação da presença humana, sendo uma das mais antigas das Américas, talvez a primeira. Para eles, tem que ser o “Clóvis” – nome dado a uma cultura pré-histórica encontrada na cidade de Clóvis (Novo México).
E o destino manifesto
Outra forma de se dizer superior aos outros povos foi a criação da doutrina do Destino Manifesto que no século 19 reforçava a crença de que o povo dos Estados Unidos era o eleito por Deus para comandar o mundo. Tal ideologia permitiu, sem culpa e por força de armas, a expropriação de vastos territórios do seu vizinho México.
Na época acreditava-se – e creio que eles ainda acreditam –, ser o povo dos USA superior aos povos da América Latina e que não teríamos capacidade de nos gerenciar. Esta doutrina foi usada também por potências europeias para justificar seus movimentos expansionistas e colonialistas em diversas regiões do mundo, principalmente entre árabes e africanos. O resultado foi a divisão e criação de países estranhos e que vivem em conflito até hoje.
O cinema ajudou a difundir essas ideias
O movimento de propalar na grande mídia – revistas, jornais, cinema e livros – que a cultura inglesa e norte-americana é mais atraente e superior cria a imagem de serem povos melhores e mais bem preparados. Ao mesmo tempo faz com que os cidadãos de outros países passem a desprezar suas próprias pátrias, adorando os ideais de progresso e superioridade divulgados pela mídia.
No caso do filme A Escavação, a citação da frase é realizada de forma sutil, mas vai ficando na cabeça de quem assiste. E eles vêm fazendo isso desde que foi inventado o cinema – imagine quantas mensagens subliminares idênticas já foram colocadas em nossas mentes.
O politicamente incorreto faz a Disney rever velhos filmes
Face à propalada onda do politicamente incorreto, os estúdios Disney estão revendo, arrumando e alertando que suas antigas produções podem trazer cenas que ferem a dignidade de outros povos e suas representações culturais.
(*) ELOI ZANETTI, homem de marketing, escritor, conferencista, publicitário.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Banda B.
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