A circulação do novo coronavírus no país começou na primeira semana de fevereiro, mais de 20 dias antes do primeiro caso ter sido diagnosticado e do Carnaval. É essa a conclusão de um estudo do Instituto Oswaldo Cruz, da Fiocruz, que utiliza metodologia com base nos registros de mortes pela Covid-19.

O primeiro caso da doença foi identificado no dia 25 de fevereiro, num viajante que retornou da Itália para São Paulo. No dia 13 de março, ocorreram as primeiras confirmações oficiais de transmissão comunitária, quando não é mais possível rastrear a origem do vírus.

Para investigar o início do surto, o ideal é contar com um volume representativo de genomas dos vírus encontrados em amostras de pacientes. No entanto, essa metodologia não pôde ser aplicada em função do curto espaço de tempo desde o início da pandemia e da quantidade limitada de genomas disponíveis.

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Assim, os pesquisadores desenvolveram um novo método, utilizando os registros de óbitos para identificar o início da transmissão, como um rastreador “atrasado”. Isso porque o tempo médio entre a infecção e a morte por Covid-19 é de cerca de três semanas.

“Observando os dois países onde já existe grande número de genomas sequenciados –China e Estados Unidos–, constatamos que a estimativa obtida a partir do número de mortes foi semelhante à obtida a partir da análise genética, validando a nova abordagem”, afirma Daiana Mir, pesquisadora da Udelar (Universidade da República), do Uruguai, que participou do estudo.

Outras evidências também indicam que a transmissão local do vírus no país começou no início de fevereiro. Segundo o InfoGripe, sistema da Fiocruz que monitora as hospitalizações de pacientes com SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave), análises moleculares detectaram um caso de infecção pelo novo coronavírus entre 19 e 25 de janeiro. Já o aumento sustentado no número de infecções foi observado entre os dias 2 e 8 de fevereiro.

O estudo mostra que a circulação do vírus teve início antes que fossem implementadas medidas de controle, como a restrição de viagens aéreas e o distanciamento social.

“Esse período bastante longo de transmissão comunitária oculta chama a atenção para o grande desafio de rastrear a disseminação do novo coronavírus e indica que as medidas de controle devem ser adotadas, pelo menos, assim que os primeiros casos importados forem detectados em uma nova região geográfica”, afirma o pesquisador do Laboratório de Aids e Imunologia Molecular do IOC/Fiocruz Gonzalo Bello, coordenador da pesquisa.

Os pesquisadores também ressaltam que os resultados alertam para a importância de implementar ações permanentes de vigilância molecular, já que o novo coronavírus pode voltar a gerar surtos ao longo dos próximos anos.

“A intensa vigilância virológica é essencial para detectar precocemente a possível reemergência do vírus, informando os sistemas de rastreamento de contatos e fornecendo evidências para realizar as medidas de controle apropriadas”, diz Bello.

O estudo foi realizado pelo Laboratório de AIDS e Imunologia Molecular do IOC/Fiocruz em parceria com a Fiocruz-Bahia, a Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) e a Udelar, no Uruguai.