Moradores da região metropolitana de Porto Alegre e do Vale do Rio dos Sinos que perderam suas casas transformaram as rodovias federais em moradia provisória até encontrarem novo destino, em um cenário que lembra o de acampamentos de refugiados ao longo das estradas. As famílias ficam em acostamentos, perto do fluxo de veículos.

Na área de Eldorado do Sul, próxima à capital gaúcha, barracas e caminhões passam dia e noite sobre a BR-290, a Freeway, rodovia que corta o Rio Grande do Sul ligando o litoral ao oeste. Durante as madrugadas dos últimos dias, o frio chegou a 7ºC.

Parte da população do município, que fica a 12 km da capital e que ainda está debaixo d’água, se deslocou para a rodovia no período mais crítico da cheia, quando a cidade inundou. Famílias foram movidas para a estrada com coordenação do próprio prefeito, Ernani Gonçalves (PDT), pois era o único lugar alto próximo ao município. Algumas permanecem lá, três semanas depois.

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Eldorado do Sul, que fica há 12 quilômetros da capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, é uma das cidades mais afetadas pela cheia do lago Guaíba, com 80% da população afetada e quase toda cidade submersa. Na foto pessoas acampadas a beira da BR 290, após terem suas casas alagadas. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

A aposentada Jurema Moura, 65, ergueu uma barraca para acampar com o marido e a filha até a água baixar em Eldorado. Ela passou por um abrigo em outra cidade, mas preferiu ficar próxima ao que restou de sua casa e aos vizinhos durante a crise, que também estão às margens da rodovia.

“A minha casa, na verdade, já não existe mais, ela caiu”, diz. “Vamos aguardar As autoridades não conseguem ajudar todo mundo agora.” Sua família conseguiu reunir roupas e cobertores e tem uma barraca com boa proteção.

Outra família da mesma rua montava uma barraca ao lado da de Jurema com o carro estacionado ao lado. Segundo relatos ouvidos pela reportagem, as famílias preferem ficar próximas de conhecidos do que em grandes abrigos, onde não têm privacidade e temem pela segurança.

Ao longo da BR, é possível ver pessoas em caminhões ou automóveis. Fazem fogo em latas, vivem com doações de quem passa e se protegem do vento noturno com cobertores que fazem as vezes de janelas. Um senhor que não quis se identificar disse que sua casa sobreviveu às outras duas enchentes recentes, mas, dessa vez, só restou ele e seu cão. Hoje, depende de sanduíches de voluntários para comer.

Parte da Freeway, uma das rotas mais conhecidas dos gaúchos para ir à praia, foi tomada por esses acampamentos provisórios e por alguns andarilhos, que caminham junto a crianças e cachorros.
No Vale do Sinos, região de São Leopoldo e Novo Hamburgo, a situação é semelhante.

Vinte dias após a chuva deixar o RS debaixo d’água, a doméstica Jaqueline Teresinha, 48, afirma que sua casa no bairro Vicentina, em São Leopoldo, permanece inacessível.

Inicialmente, ela também foi para um abrigo no município, a cerca de 30 km de Porto Alegre. Dois dias depois, no entanto, sentiu-se insegura no local.

“Não tinha como ficar lá, estavam roubando todo mundo, não podíamos dar uma volta que levavam alguma coisa. Duas senhoras perderam até dinheiro. Teve um dia que alguns homens ficaram nos olhando no banheiro por cima da porta. Depois pegaram eles, mas era muito ruim”, lembra.

A solução foi montar uma estrutura em uma passarela na BR-116. “A gente mora aqui do lado. Nunca imaginamos viver isso”, diz.

Ela conta que passou muito frio nos primeiros dias, mas, depois, conseguiu cobertores de doação. Outro problema é o barulho dos carros e caminhões que passam a todo momento. “Fica mais difícil para dormir”, relata.

A catadora Laura Silveira, 49, mora no mesmo bairro e diz que tem sobrevivido de doações. “Sou de uma família muito pobre.” Relata que também tem conseguido itens que as pessoas abandonaram por causa das chuvas. “A gente acha muita coisa que os ricos botam fora, a gente seca e aproveita.”

Várias cidades gaúchas permanecem alagadas, mesmo com o recuo da cheia nessa parte do estado. No caso das pessoas que poderão retornar, elas devem encontrar um cenário de perda, com móveis e eletrodomésticos submersos por tanto tempo. Há o risco de as estruturas das paredes também não suportarem. Além disso, há pessoas em áreas de risco e as que tiveram as residências levadas pela água.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o governador Eduardo Leite (PSDB) afirmou que a prioridade da reconstrução do estado é a moradia e que conta com ajuda do governo federal para que o investimento seja intensivo nessa questão.

“Estamos pensando, junto com os municípios, muitas soluções. O governo disponibiliza recursos para aluguel social, ou seja, dá recursos para que a pessoa possa alugar uma casa por um período, até seis meses, no princípio. Mas também há uma outra solução que está buscando-se desenhar, que é a da estadia solidária”, disse. Neste caso, as prefeituras arcam com o custo extra que essas famílias têm por abrigar as vítimas da enchente.

O governo do estado também irá montar estruturas provisórias para abrigar as famílias que não conseguirem retornar para casa, até que haja a opção de moradias definitivas. “Uma das soluções é imóveis que estão com a Caixa Econômica Federal serem disponibilizados, mas isso não é da noite para o dia. A gente tem a preocupação de tornar os abrigos espaços dignos, com qualidade, com carinho, com atenção”, diz, em relação às novas estruturas.

Segundo dados da Defesa Civil divulgados nesta terça-feira (21), 72.561 estão em abrigos no Rio Grande do Sul e 85 pessoas estão desaparecidas.

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Com casas inundadas, gaúchos improvisam acampamentos em rodovias sob frio de 7°C

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