O vírus chegou primeiro ao Brasil. Ao menos oficialmente. O primeiro caso de Covid-19 na América Latina surgiu no dia 26 de fevereiro, em São Paulo. Dois dias depois, outro caso foi confirmado na Cidade do México.

De cara, a pandemia entrou pela porta da frente, nas principais cidades das duas maiores economias da região.

Em pouco mais de dois meses, já infectou 251.577 pessoas e matou mais de 13.445 na América Latina, de acordo com dados compilados pelo site Worldometers até a tarde deste domingo (3).

As cifras, no entanto, podem ser muito maiores, uma vez que é grande a possibilidade de subnotificação, seja pela incapacidade de realizar testes em massa, seja pela falta de transparência de alguns governos.

O coronavírus ganhou contornos muito particulares na América Latina. Trata-se de uma região muito populosa, com mais de 613 milhões de habitantes, e formada por países que, em sua maioria, tem a desigualdade social como característica histórica.

Assim, onde 53% do mercado de trabalho é composto por informais, segundo a Organização Internacional do Trabalho, e os sistemas de saúde são menos preparados que os da Europa e dos EUA, os impactos econômicos e sanitários da Covid-19 são ainda maiores.

A Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) apresentou em abril uma projeção pessimista para a América Latina, na qual haveria encolhimento de 5,3% do PIB regional em 2020.

Seria o pior desempenho da história da região, cuja queda mais expressiva neste índice foi em 1930, durante a Grande Depressão, quando houve encolhimento de 5%.

“E a consequência mais grave será o aumento da pobreza. A queda do PIB vai empurrar quase 29 milhões de latino-americanos para a pobreza”, diz Alicia Bárcena, secretária-executiva da Cepal.

O vírus também encontrou uma América Latina com raiva e grandes polarizações políticas.

Em 2019, levantes populares em Equador, Bolívia e Chile levaram latino-americanos às ruas contra o agravamento de crises econômicas, acusações de fraude eleitoral e as tais desigualdades históricas.

Passada a crise do coronavírus, é grande a chance de as demandas sociais voltarem com ainda mais força.

No Brasil, o vírus complicou um já tumultuado governo Jair Bolsonaro. Negacionista como o ditador Daniel Ortega, da Nicarágua, o presidente brasileiro tem causado repulsa na comunidade internacional ao minimizar os riscos da doença.

O símbolo do horror que a Covid-19 pode causar, porém, foi revelado antes em outro país, o Equador. Na metrópole litorânea de Guayaquil, coração econômico do país e porto histórico da região, o coronavírus se materializou nas imagens de corpos deixados por dias nas ruas ou dentro de casas, até que as autoridades sanitárias conseguissem recolhê-los.

O governo determinou medidas de restrição, entre as quais a quarentena e o toque de recolher, mas elas foram de difícil implementação.

Assim, quando a força-tarefa enviada pelo governo nacional chegou a Guayaquil, já era tarde demais. Além de atabalhoado, o trabalho do Exército foi confuso, sem registrar corretamente onde cada corpo foi enterrado e, em alguns casos, embaralhando a identificação dos cadáveres.

O caso de Alba Maruri Granda, 74, é um exemplo. A equipe do hospital Abel Gilbert Portón, no qual ela foi internada, informou à família da paciente que ela havia morrido devido à Covid-19.

Ao receber o que diziam ser o corpo de Granda, num caixão fechado, seus parentes a cremaram. Poucos dias depois, ela foi desintubada e recuperou a consciência. Pediu para ligar para seus familiares, que receberam a chamada com alegria e espanto.

O sobrinho Juan Carlos Ramírez diz que todos estão felizes por terem dona Alba de volta, mas até hoje não sabem de quem era o cadáver que incineraram. “Nos sentimos um pouco culpados”, diz ele.

 

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Já no país que vive a maior crise humanitária da região, a Venezuela, os números de infectados (345) e mortos (10) divulgados pelo governo são baixos. Médicos independentes, entretanto, desconfiam dos dados e afirmam que a pandemia ainda não ganhou força no país.

Se um aumento grande acontecer, porém, alertam para a situação do sistema de saúde do país. Organismos internacionais, como a ONG Human Rights Watch, afirmam que os hospitais não têm equipamentos nem recursos para enfrentar a pandemia. Em alguns faltam luz e água.

Há muita preocupação, também, com o pós-coronavírus. Para o analista político Juan Gabriel Tokatlian, é preciso observar o que vai acontecer nos países que já tiveram uma explosão social antes.

“A pandemia é um hiato. Quando ela passar, os problemas de antes ressurgirão, potencializados pela crise econômica que a doença causará”, diz.

Neste cenário, ele aponta Chile, Bolívia e Equador como países em que a tensão social tende a aumentar. “O Chile vinha de uma série de manifestações, e a esperança era que o plebiscito constitucional marcado para abril apaziguasse o país. A votação foi postergada, portanto o impasse permanece. As pessoas saíram das ruas não porque deixaram de estar insatisfeitas com [o presidente Sebastián] Piñera, mas por medo da doença.”

Mesmo assim, o líder chileno viu sua aprovação popular passar de 9% para 20%, segundo pesquisa do instituto Cadem. Para Tokatlian, porém, é algo momentâneo.

Na Bolívia, há inquietação devido ao adiamento das eleições presidenciais, marcadas inicialmente para 3 de maio e postergadas pelo governo interino -e contestado- de Jeanine Añez.

A oposição no Congresso, composta principalmente pelo MAS (Movimento ao Socialismo), partido do ex-presidente Evo Morales, não aceita uma nova votação apenas em outubro, como propôs Añez.

Na sexta-feira (1º), a Casa aprovou uma lei que determina a realização de eleições gerais em até 90 dias, prazo que vencerá no início de agosto.

Desde a renúncia de Evo, em novembro, a Bolívia vive clima de enfrentamento e violência nas ruas. A pandemia fez com que os protestos se acalmassem, mas há denúncias da oposição de que Añez tem aproveitado a pandemia para militarizar ainda mais o país.

Já no Equador, existia um clima de suspense desde que o governo cedeu a atos nas ruas e recuou da alta na gasolina.
“Mas essa história ficou sem conclusão. O presidente Lenín Moreno ainda tem de encontrar um modo de satisfazer o FMI [Fundo Monetário Internacional], que lhe emprestou dinheiro, sem causar a fúria das comunidades indígenas”, avalia Tokatlian.

“A isso se somará o saldo da crise sanitária. Moreno sairá muito desgastado, pois as imagens de Guayaquil viajaram o mundo, e ficou marcado que, em parte, ocorreram por conta da negligência dele.”

Na Argentina, em quarentena obrigatória nacional desde 18 de março, há uma sensação, por ora, de que a crise sanitária está ao menos contida.

O presidente Alberto Fernández, que tem enfrentado pedidos de empresários para reabrir o país, tem sido duro ao impor restrições. Só que a economia, que já não ia bem, deve sofrer forte abalo quando acabar a pandemia.

O país tem adiado o pagamento de dívidas, além de imprimir dinheiro para alimentar planos de assistência aos mais pobres. Em meio aos problemas, o presidente argentino tem 70% de aprovação popular, segundo o instituto Poliarquia.

“Fernández tem tudo para se sair bem da crise sanitária, mas a Argentina estará muito endividada e com risco de entrar num período de hiperinflação, por conta da emissão monetária”, diz Tokatlian.

NÚMEROS

11,5%

seria a taxa de desemprego em 2020, aumento de 3,4 pontos percentuais em relação a 2019

37,7 milhões

seria o número de pessoas desempregadas na América Latina

4,4

pontos percentuais seria o crescimento da taxa de pobreza, chegando a 34,7%, ou seja, mais 29 milhões de pessoas em situação de pobreza

16 milhões

de pessoas seriam incluídas na condição de extrema pobreza

Fonte: projeções da Cepal