O que o caso Simone Biles nos ensina sobre saúde mental?

Psicólogo destaca que atleta foi sensata ao procurar ajuda quando percebeu que não estava bem

Rodrigo Silva

O que o caso Simone Biles nos ensina sobre saúde mental?

Em caso de dificuldades para assistir ao vídeo pelo Portal, acesse pelo Youtube da Rádio da Banda B

A atleta Simone Biles, da equipe de ginástica artística dos Estados Unidos, virou notícia na semana passada ao desistir de disputar provas finais nas Olimpíadas de Tóquio 2020. Segundo ela, esse “freio” era necessário para cuidar da saúde mental. Apesar disso, ela optou por estar na final da prova da trave e ganhou medalha de bronze nesta terça-feira (3).

Biles tem 24 anos e já venceu 30 medalhas em Olimpíadas e Mundiais. Ela está a apenas três pódios de se tornar a ginasta mais premiada da história (entre homens e mulheres). Contudo, a atleta chegou a afirmar que precisava se ausentar de outras provas e disse que não confiar mais nela mesma. “Não somos apenas atletas. Somos pessoas, afinal de contas, e às vezes é preciso dar um passo atrás”, disse a ginasta em pronunciamento depois de deixar as finais.

Busca por conhecimento é essencial para cuidar da própria saúde mental, diz especialista. Foto: Agência Brasil

De acordo com o psicólogo e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) Naim Akel Filho, o caso Simone Biles mostra a importância de se buscar conhecimento sobre o funcionamento do cérebro. Para ele, o conhecimento continua sendo o caminho para o bem-estar da humanidade, já que é possível buscar informações sobre o funcionamento emocional do ser humano, contribuindo para a manutenção de uma boa saúde mental.

“A gente não pode ter grande nível de desconhecimento sobre determinados assuntos”, diz

Segundo o professor, a própria evolução da tecnologia no século XX foi capaz de proporcionar inúmeras oportunidades da busca por conhecimento psicológico. O cérebro, no caso, é o grande responsável pelo enfrentamento das emoções, fraquezas e dificuldades. Com isso, é essencial buscar saber como ele funciona.

Naim destaca que em uma seleção olímpica – especialmente no caso da americana – é inadmissível o fato de que há carência de profissionais que possam cuidar da saúde mental dos atletas. “A saúde mental é tão ou mais importante do que a saúde física. O que vai fazer a diferença é o conhecimento”, destaca o psicólogo.

Excesso de expectativa e autocobrança

Excesso de pressão e autocobrança prejudicam a saúde mental. Foto: Pixabay

O professor da PUC conta que há 30,40 anos o trabalho dos psicólogos nas equipes esportivas era focado em relaxamento e concentração. Segundo ele, isso não condiz com o funcionamento do corpo humano, já que a ansiedade não é uma inimiga.

“Ela (ansiedade) é uma resposta de qualificação do nosso organismo para enfrentar situações de maior exigência”, afirma

O especialista ressalta que a ansiedade aumenta a frequência respiratória, melhora os níveis de glicose do sangue, deixa o cérebro mais pensativo e a pessoa ansiosa pode também escutar com mais facilidade. Com isso, a ansiedade é capaz de preparar o corpo dos atletas para competir.

“Por outro lado, o nível de ansiedade elevado pode transformar isso em estresse. Ele não pode ser em excesso a ponto da pessoa se desorganizar e perder o controle”, destaca

Quando Simones Biles diz que não confia tanto mais nela mesma, o professor explica que essa foi uma resposta típica de pessoas que passam por uma grande carga de estresse. “Só não foi pior porque ela teve a sabedoria de dar uma freada”, diz. O especialista acrescenta que o excesso de exposição da atleta poderia causar danos a sua saúde. “O segredo está no equilíbrio da ansiedade de forma saudável e dos mecanismos de controle disso”, reforça.

Sempre procurar ajuda

Simone Biles procurou ajuda ao dizer que não estava bem. Foto: Divulgação

Naim afirma que o trabalho dos psicólogos é muito importante para equilibrar o estado mental dos atletas. Um exemplo está na seleção brasileira de Vôlei, onde o técnico Bernardinho costuma exigir muito dos seus jogadores. Enquanto isso, para equilibrar o psicológico dos atletas e para que eles aguentem a pressão, é necessário que haja um outro profissional especializado para trabalhar com a mentalidade da equipe.

“Sem esse profissional os conflitos iriam aparecer. O psicológico do ponto de vista de descarga e pressão precisam trabalhar juntos”, diz

Saúde mental na pandemia

Atendimento em consultórios psiquiátricos e psicológicos aumentou na pandemia. Foto: Unsplash

De acordo com o professor, o excesso de notícias negativas no meio de comunicação foi um dos fatores que trouxe grande prejuízo para a saúde mental da população. Na pandemia, o psicólogo avalia que permaneceu presente na sociedade um medo iminente de uma possível tragédia.

O especialista acredita que o isolamento social também foi responsável por sobrecarregar muitas pessoas de sentimentos distintos, muitos negativos. As situações geradoras de ansiedade aumentaram e isso fez com que mais pessoas recorressem a terapia.

Além disso, os mecanismos de descarga de ansiedade foram fechados com a quarentena. Entre eles estão viajar com a família, ir comer fora ou dar uma volta no parque.

“Ficamos todos em isolamento. Nós ficamos em uma prisão domiciliar como se fosse um castigo”, afirma

O psicólogo ressalta que o isolamento também é um tanto injusto, já que nem todas as pessoas podem ficar em casa e muitas precisam sair para trabalhar. Segundo ele, todos esses fatores podem resultar no estresse, que pode ser caracterizado como tensão acumulada. Esse sentimento pode explodir em um comportamento desorganizado. “Se essa tensão é descarregada a gente leva a médio prazo, se não tem canal de descarga ela pode continuar”, diz.

Sair da versão mobile