O primeiro Museu do Holocausto no Brasil fica em Curitiba e tem como missão relembrar as vítimas e alertar as novas gerações sobre os perigos do ódio, da intolerância e do racismo. A instituição ficou em evidência nos últimos dias após convidar o podcaster Monark (Bruno Aiub) para uma visita ao local depois das falas polêmicas em defesa do direito de existência de um partido nazista.
Fechado para visitas por mais de um ano e meio por conta da pandemia, o Museu reabriu as portas no final de 2021 com capacidade limitada de visitantes. A Banda B conversou com Michel Ehrlich, coordenador de História do Museu, para saber um pouco mais sobre a iniciativa e o que o público pode esperar de uma visita ao local.

“O Museu é uma iniciativa pioneira no Brasil, inaugurada em novembro de 2011, dedicada à memória, pesquisa e educação sobre o holocausto. Não somos somente uma exposição, embora sejamos também, mas ainda uma referência em pesquisa e guarda de acervo relacionado ao período. Nós recebemos mais de 20 mil visitas por ano, sendo grande parte delas de grupos escolares”, explicou Michel.
Parte do acervo seria proveniente de doações de familiares de sobreviventes do holocausto. O acervo só aumenta, já que essas doações de novos itens acontecem praticamente semanalmente, segundo ele.
Apesar de relembrar o passado, a ideia do Museu é que essas informações de alguma forma sejam úteis para a sociedade atual, no presente.

“Nós estamos sempre pensado o que essas histórias, relatos individuais dos donos de cada item do acervo, o que eles nos dizem sobre o presente, em que sentido nos fornecem ferramentas para uma ação no presente. Até porque os fenômenos que tornaram o holocausto possível, infelizmente, permanecem na contemporaneidade”, afirmou coordenador de História do Museu.
A visitação acontece apenas através de um agendamento prévio. Elas são gratuitas e podem ser marcadas pelo site https://agenda.museudoholocausto.org.br/.
Polêmica
O convite para uma visita ao local feito para o podcaster Monark (Bruno Aiub), nesta terça-feira (08), aconteceu por meio de uma mensagem publicada na rede social Twitter. Monark foi desligado do canal Flow.
“A esquerda radical tem muito mais espaço que a direita radical, na minha opinião. As duas tinham que ter espaço, na minha opinião “, disse Monark. “Eu acho que o nazista tinha que ter o partido nazista reconhecido pela lei.”

Michel Ehrlich criticou o conteúdo da declaração do podcaster e disse que a opinião revela uma “absoluta ignorância histórica”.
“O museu recebeu as falas com perplexidade, mas infelizmente não surpreendeu, pois esse tipo de declaração vem se tornando mais comum no Brasil nos últimos anos. É clara uma absoluta ignorância histórica, de simplesmente ignorar que o nazismo não se iniciou em campos de concentração, abarcando a maioria da população, mas sim com uma pequena minoria e com discursos que levaram a uma prática”, argumentou.
O comentário do apresentador foi feito na segunda (7), em entrevista com os deputados federais Kim Kataguiri (Podemos) e Tabata Amaral (PSB).
“É uma noção de liberdade de expressão deslocada das ações que ela provoca ou influencia. Todas as nossas ações, inclusive aquilo que falamos, impactam o meio a nossa volta, portanto é preciso limites quando a expressão viola de alguma maneira as liberdades e direitos de outras pessoas. O discurso dele é algo particularmente perigoso”, alertou Michel.
História do Museu
A ideia de conceber um espaço voltado à memória da Shoá em Curitiba nasceu nos anos 1990, durante visitas do empresário Miguel Krigsner, filho e genro de sobreviventes, a memoriais e museus do Holocausto.
O mundo vivia um período de conscientização sobre os legados do genocídio e a consolidação das filosofias educativas das duas maiores instituições ligadas ao tema: o United States Holocaust Museum, em Washignton, e o Yad Vashem, em Jerusalém.
Foi ainda nesta década que Miguel e Cecília Krigsner iniciaram a coleção do futuro espaço ao adquirir uma tiragem do conjunto de relevos chamado “Pillars of Witness”, de autoria do artista australiano Andrew Rogers, exposto no Holocaust Research Centre, em Melbourne. Logo, a ideia se transformaria num sonho – que seria realizado muitos anos depois.

Em 2004, o professor Sergio Alberto Feldman, doutor em História e então coordenador de cultura judaica da Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmann, em Curitiba, recebeu a missão de realizar as primeiras investigações.
Nesta primeira fase, ele desenvolveu uma pesquisa iconográfica em Israel, sob orientação de Avraham Milgram, historiador do Yad Vashem. Além disso, conseguiu reunir uma coleção de 14 depoimentos em VHS de sobreviventes estabelecidos em Curitiba, entrevistados em 1997 pela equipe da USC Shoah Foundation.
No mesmo ano, surgiram as primeiras reflexões sobre a pesquisa. Num artigo no jornal “Visão Judaica”, Sergio escreveu: “estamos dando um enorme apoio aos revisionistas que tentam apagar a memória do Holocausto, se não mantivermos a memória deste deprimente período acesa. Mas como fazê-lo?”
A criação de um projeto arquitetônico inspirado num vagão de trem foi a primeira tentativa de realização do sonho, adiado pela dificuldade de viabilizar a execução. Parcerias com outras instituições na cidade para compartilhamento do espaço físico e a busca por imóveis foram também estratégias ineficazes, o que levou a uma pausa no projeto.
Em 2009, a solução despontou com a necessidade da construção de uma nova sinagoga para a comunidade judaica de Curitiba. O projeto arquitetônico do edifício, que abrigaria tanto o local de culto quanto o futuro museu, foi apresentado no dia 7 de novembro de 2010. Cerca de 500 pessoas participaram do ato de lançamento da pedra fundamental.
Poucos dias antes, seria criada a Associação Casa de Cultura Beit Yaacov, instituição sem fins lucrativos responsável pela gestão do futuro museu e que conta ainda com o trabalho incansável de Jaime Ingberman e do dr. Charles London.
No início de 2011, com a contratação da Base7 Projetos Culturais, empresa localizada em São Paulo, começou a última parte da pesquisa histórica e a execução completa do projeto. Com a consultoria histórica da professora Denise Hasbani e o trabalho de dezenas de profissionais de museologia e de tecnologia, o Museu foi inaugurado em 20 de novembro de 2011 e passou a receber visitantes a partir de fevereiro de 2012.
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