De troca de pneu para noiva, a ser atropelado por motorista atrasado: conheça um dos primeiros agentes de trânsito de Curitiba

Profissional da primeira turma de agentes de trânsito tem muita história para contar, a começar pela própria superação após acidente que sofreu

Lucas Sarzi

Os agentes de trânsito podem até passar despercebidos no nosso dia-a-dia, mas se não existissem, a vida de quem sai de casa seria o caos. Afinal de contas, são eles que fazem o trânsito fluir quando tudo para. Muitos oferecem tudo de si para fazer com que possamos ir e vir em segurança, como é o caso do agente Altamir Nunes, de 47 anos, que já chegou a ser atropelado enquanto trabalhava. 

Nesta sexta-feira (23), Dia Nacional do Agente de Trânsito, o profissional, que é da primeira turma de agentes da equipe de trânsito da Prefeitura de Curitiba – que hoje tem 256 profissionais -, tem inúmeros motivos para comemorar. Desde 1998, ele continua com a mesma paixão pelo que faz e a esperança de que um dia tenhamos um trânsito mais seguro.

Altamir não atua mais nas ruas por conta de um acidente que sofreu enquanto trabalhava, em 2012. Foto: Arquivo Pessoal.

Em 2012, enquanto se preparava para fazer o bloqueio para a maratona de Curitiba, Altamir Nunes foi atropelado. O acidente foi tão grave, que o deixou mais de 3 anos afastado das funções. 

“Um atleta que iria participar do evento estava atrasado para o evento e, a mais de 100 km/h, acabou se perdendo numa curva e me atropelou. Tive múltiplas fraturas, fiquei um ano internado entre UTI, hospital e em casa. Quando pensei que seria o fim, foi só o recomeço. Em 2016 me recuperei, fiquei com sequelas e voltei a trabalhar, mas não podia mais ir para a rua. Passei a atuar no setor administrativo”. 

Atualmente Altamir cuida do suporte dos agentes que estão em campo. Mas à Banda B ele lembrou de situações que viveu enquanto estava na rua. Segundo ele, o momento mais difícil que viveu foi no primeiro acidente em que precisou atuar.

“Ao longo destes 24 anos, foram mais de 200 mortes no trânsito que atendi. Mas a experiência mais triste foi o primeiro acidente com vítima, que era uma criança de 27 dias. A criança estava no colo do pai e morreu após a mãe colidir o carro. Me chocou bastante por ser o primeiro. Quando cheguei em casa nesse dia abracei minha filha”. 

Mas nem tudo é tragédia na vida de um agente de trânsito. Altamir lembrou de uma situação que o fez rir e, ao mesmo tempo, se sentir ainda mais útil para alguém.

“Estava trabalhando num sábado à tarde, numa fiscalização próximo a um evento. Do nada surge uma noiva, descendo de um Fusca. Ela me pediu ajuda, porque o pneu tinha furado. Eu estava de moto, não tinha como levá-la, mas troquei o pneu pra ela. Demos risada da situação. No fim, falei que era para ela dizer ‘sim’ para o noivo, mas falar para ele aprender a trocar o pneu do Fusca. Espero que ela esteja feliz até hoje”. 

Registro de 2012, quando Altamir atuava nas ruas com a moto da Setran. Foto: Arquivo Pessoal.

Objetivo é a segurança

É bem comum o pensamento de que o agente de trânsito está nas ruas para prejudicar os motoristas e, por isso, nem sempre os profissionais são respeitados como deveriam. Altamir até concorda com isso, mas reforça que é muito pouca gente que não gosta do agente de trânsito.

“O índice de infratores em Curitiba é baixíssimo, 6% dos condutores, por isso é muito pequeno o número de pessoas que não gostam da gente. O que alegra o agente é que quando ele está tendo que autuar uma pessoa, quem vai odiar o agente é só o infrator, os demais condutores aplaudem a ação do agente que está punindo aquele cidadão que tentou levar vantagem em cima da coletividade”. 

Altamir disse já ter passado, nestes 24 anos, por muitas situações, da mais tensa à mais engraçada. Mas lembrou que, na maioria das vezes, o respeito prevaleceu.

“Já passei por todas as situações, já peguei muita gente brava, mas no final, orientando e explicando, a maioria dos condutores entende que está errado, entende que a punição foi bem aplicada e se conscientiza”. 

Foto: Hully Paiva/SMCS/Arquivo.

Qual o futuro do agente de trânsito?

Com os números de veículos nas ruas aumentando cada vez mais, consequentemente, a esperança de um trânsito perfeito, sem acidentes e infrações fica distante das grandes cidades. Isso também faz com que o agente de trânsito seja uma profissão que não vai acabar, na opinião de Altamir.

“Acredito que o trânsito é possível ser perfeito, mas a extinção do agente de trânsito é impossível. O papel não é a punição, é garantir a segurança de todos, por isso se faz necessário”. 

Altamir reforçou que o papel dos profissionais que estão nas ruas não é o de apenas multar. E destacou que, na maioria das vezes, eles nem queriam que isso precisasse acontecer. 

“O agente atua em semáforo quando está desligado, em bloqueios de vias, cuida para que todos cheguem bem aos seus destinos, encontrem seus familiares. Por isso espero que um dia não precise aplicar punição pela conscientização dos motoristas, porque da infração resulta em acidente, dos acidentes resultam em vítimas”.

Parabéns aos 256 agentes de trânsito de Curitiba!

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