As eleições de 2018 foram um divisor de águas para muitas questões relacionadas a política brasileira, para o bem e para o mau. Novos grupos políticos entrando em cargos de poder, partidos não tão novos assumindo lideranças políticas relevantes, um Presidente sem qualquer ligação partidária e avesso a lógica política, arranjos nos Estados e Munícipios nunca vistos, acordos políticos que fugiram do ambiente partidário, entre outras situações que os analistas políticos jamais se depararam. Dentre essas grandes mudanças destaco a reorganização do quadro partidário brasileiro, que se alterou de forma significativa desde a redemocratização.

Foto: Agência Senado

Primeiro destaque que chama a atenção foi o apequenamento de siglas partidárias tradicionais, aqui destaco MDB e PSDB, que diminuíram suas bancadas de forma significativa tanto em âmbito nacional, estadual e municipal, como também perderam figuras políticas históricas do partido, seja por “aposentadoria” como para outras siglas partidárias. Ambos os partidos não conseguiram se reinventar, a centralização de decisões em âmbito nacional diminuiu o apelo para novas elites locais e estaduais, assim como brigas internas que afastaram lideranças importantes dos partidos. Acrescento a conta da diminuição o apoio irrestrito dos dois partidos ao Governo Temer, um governo impopular e controverso em diversos aspectos.

Um partido que teve seu curso meteórico foi o PSL, saído de uma condição de nanico no Congresso Nacional, alcançou o auge de filiações em 2017/2018, com a candidatura de Jair Bolsonaro, conseguiu ser a maior bancada da Câmara dos Deputados, juntamente com o PT, logo em seguida ganhou espaço nos cargos ministeriais no Governo Bolsonaro. Se tornou uma legenda importante, mas brigas internas entre a Família Bolsonaro e Luciano Bivar conturbaram o ambiente partidário, gerando um racha significativo, arrisco a dizer que se não fosse a fidelidade partidária para cargos proporcionais, o partido teria acabado em 2019. Além de perder a Família Bolsonaro, o PSL não conseguiu gerar suas próprias lideranças, a sobrevivência como partido parte da fusão com o Democratas e a geração do União Brasil, um partido grande, mas ainda sem uma identidade clara.

O PT sofreu grandes perdas a partir de 2016, mas nas eleições de 2018 recuperou espaço no Legislativo, principalmente na Câmara dos Deputados, o que aparentava ser uma eleição desastre, se tornou uma grande surpresa, com a maior bancada da Câmara dos Deputados em 2018, juntamente com o PSL. O partido perdeu espaço no Executivo em âmbito nacional, estadual e municipal, mas se consolidou com uma oposição organizada. Com a decisão do STF sobre a suspeição do ex-juiz Sérgio Moro e a possibilidade de candidatura de Lula, o partido passou a despontar de maneira significativa para as eleições 2022. O PT comprovou a tese de que é um partido estruturado e com lideranças capazes de cativar o eleitor.

Destaco duas agremiações partidárias que dão passos largos e firmes para 2022, o PSD  e o PSB. O PSD tem boas entradas em todos os governos estaduais, tem nomes de relevância no Congresso Nacional, conseguiu a filiação do Presidente do Senado Rodrigo Pacheco, e tem um excelente articulador como presidente, o ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. O PSB do Governador do Espírito Santo Renato Casagrande e do ex-Governador de São Paulo Márcio França, está fazendo boas alianças estaduais, e se tornou uma saída interessante para a polarização política, o partido tem história na redemocratização e figuras importantes para as disputas do Congresso Nacional, tudo indica que terá Geraldo Alckimin como filiado, assim como uma possível aliança para a candidatura do PT para o Palácio do Planalto.

Por último destaco também alguns partidos que ainda são pequenos em números de filiados e de candidaturas, mas que podem surpreender em 2022, que são o Podemos e o Novo. Ambos os partidos ganharam folego em 2018 e tem figuras que chamam atenção eleitoralmente, mas ainda são partidos “pouco políticos” para articular e fazer grandes alianças. O destaque do Podemos é a filiação de Sérgio Moro e seus aliados, que pode incomodar Jair Bolsonaro na sua tentativa de reeleição.

Como podemos ver, a realidade partidária brasileira se alterou significativamente de 2018 até agora, algo que pode surpreender nas eleições de 2022. Agora é assistir de camarote as disputas partidárias e eleitorais que nos aguardam no próximo ano.

Francis Ricken, é advogado, mestre em Ciência Política (UFPR) e professor da Escola de Direito e Ciências Sociais da Universidade Positivo (UP)

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